
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Uma moeda paralela para a Grécia- IIª parte
Biagio Bossone, Marco Cattaneo, A parallel currency for Greece: Part II
Voxeu.org, 25 de Maio de 2015
A introdução de uma moeda em paralelo com o euro poderia ajudar a Grécia a pagar a sua dívida externa e dar origem à retoma da economia. Nesta segunda parte do trabalho avaliam-se as diferentes opções e os seus efeitos sobre a procura agregada e a sustentabilidade fiscal. Os autores propõem um programa de certificados de crédito de impostos (crédito fiscal) que consideram poder gerar nova capacidade de despesa e evitar a adopção de novas medidas de austeridade.
Introdução de uma moeda paralela na Grécia
A primeira parte deste trabalho (Bossone and Cattaneo 2015) ilustrou várias opções para se projectar uma moeda paralela na Grécia, em que se visa evitar o Grexit ao mesmo tempo que ajudaria a Grécia a pagar a sua dívida externa e gerar a retoma da economia. Nesta segunda parte apresentamos uma avaliação das diferentes opções, os resultados da nossa investigação – em que se simula a aplicação de um programa de certificados de crédito fiscal para o caso da Grécia – e se tiram algumas conclusões.
Avaliação das propostas alternativas para a criação da moeda paralela
As propostas discutidas na primeira parte podem ser avaliadas com base em como cada tipo de projecto de moeda seria esperado alterar a procura agregada interna e as variáveis fiscais. Podem ser feitas as seguintes observações:
Os IOUs de Cochrane parecem funcionar melhor na hipótese de servir como medida paliativa, pois permite ao governo proceder a pagamentos e libertar euros para o serviço da dívida. Ainda assim, a solução provavelmente não seria sustentável a médio prazo, pois os IOUs criariam uma nova classe de obrigações de dívida pública expressas em euros, que ninguém sabe se, quando e como é que o governo grego as iria honrar. Também, a emissão dos IOUs substituiria apenas alguns escassos euros… mas não teria nenhum efeito de estimulo sobre a procura agregada interna, sobre a produção e o emprego.
Relativamente à proposta de Parentau, de títulos (Notas) de antecipação sobre impostos (TANs), ao contrário dos IOUs do Cochrane, estas notas não representariam obrigações de dívida emitida pelo governo. Os outros efeitos dependem da forma como a proposta é interpretada. Se as notas de antecipação de impostos são emitidas e utilizadas como um substituto para uns escassos euros e a servir para os pagamentos do governo, estas actuariam como uma medida paliativa, tal como os IOUs de Cochrane, mas não teriam nenhum efeito adicional sobre a procura agregada interna. Esta conclusão poderia ser modificada se o governo emissor as entregasse aos cidadãos como um poder de compra adicional, complementar às suas fontes de rendimento. Relativamente ao seu impacto sobre o orçamento, como as notas fiscais foram utilizadas para liquidar obrigações tributárias, com isso iriam causar quebras das receitas do governo em euros e aumentar o défice a ser financiado com dívida nova ou tributação. Ao contrário dos certificados de crédito de imposto (CCI), as notas não contêm nenhuma data de vencimento que possa ser deferida e não dariam tempo a que novos recursos fiscais possam ser gerados como compensação. Finalmente, e contrariamente à proposta de certificados fiscais, as notas fiscais de Parentau não seriam emitidas para empresas com vista a reduzir a sua factura fiscal e, portanto, para reduzir os seus custos em trabalho, melhorando assim a sua competitividade externa.
Quanto à proposta de Varoufakis, das FT-moedas não trariam muitos recursos adicionais para a economia. Os indivíduos adquiririam as FT-moedas em troca de euros que já possuem. A criação de poder de compra adicional para os indivíduos e as empresas só iria crescer na medida em que as FT-moedas forem vendidas a prémio relativamente ao seu valor facial , baseado sobre o seu valor acima do imposto devido ao Estado. Dando-as gratuitamente – semelhante ao dinheiro do helicóptero, conforme a proposta de certificados fiscais – tornaria o seu impacto mais eficaz. Como no modelo (CCI) o efeito multiplicador das despesas adicionais teria que gerar os recursos necessários para cobrir as necessidades em euros que teriam uma incidência negativa sobre o orçamento no momento da recompra das FT-moedas. No entanto, ceteris paribus, o efeito multiplicador desencadeado pelas FT-moedas seria mais fraco do que sob a opção de TCC, uma vez que as fugas (no multiplicador) das despesas através do canal de comércio externo não poderiam ser compensadas por maiores exportações através de reduções de custos salariais ( o que os CCI tornam possíveis).
Finalmente, a opção de TCC não sofreria de pontos fracos acima explicados. Os CCI’s criariam o poder de compra adicional, evitando efeitos negativos no comércio externo e gerando os recursos para compensar as necessidades em euros devido às reduções fiscais na maturidade dos CCIs. Eles também seriam uma salvaguarda para proteger o orçamento do risco de resultados fiscais insuficientes (veja abaixo).
A aplicação de um programa CCIs na Grécia
A introdução de CCIs na Grécia poderia levar a economia rapidamente a sair da depressão levando uma forte recuperação da produção e do emprego. No anexo abaixo, um caso de “base” (sem CCIs ) é comparado com um cenário alternativo (com CCIs) contemplando a emissão de € 8 mil milhões (4,5% do PIB) equivalente de CCIs no primeiro ano do programa, aumentando para € 16 mil milhões e depois para € 24 mil milhões nos segundo e terceiros anos, respectivamente e a permanecer inalterado nos anos seguintes. O cenário alternativo é executado sob duas diferentes hipóteses
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Uma hipótese de ‘referência’, que pressupõe um multiplicador orçamental de 1.3 (isto é, um 1.3 de aumento do PIB por cada CCI emitido numa base anual);
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Uma hipótese “conservadora”, com base num muito menor multiplicador fiscal de 0.8.1
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No caso base, a Grécia alcança um modesto crescimento real, com um excedente primário médio de 1,9%, permitindo-lhe somente obter uma muito limitada redução do rácio da dívida pública, de 183% para 178% em cinco anos. Por outro lado, o cenário alternativo sob a hipótese de referência de (1.3 multiplicador), o valor do PIB aumentaria fortemente com o crescimento real do PIB, em média de 4,3% sobre o prazo previsto de cinco anos. Enquanto isso, o excedente primário médio cresce para cerca de 3,5% do PIB, fazendo com que o rácio da dívida pública caia para 131%.
Mesmo sob a hipótese conservadora (0,8 como multiplicador), a Grécia teria mais que um decente crescimento de 2,4% do PIB, enquanto o rácio da dívida pública cairia para menos de 161% e o excedente primário ultrapassaria o alvo de 1,9%, num valor em média de 0,9%,
O que fazer em caso de maus resultados fiscais
Um número de cláusulas de salvaguarda em cascata poderiam ser introduzidas no programa de CCIs para proteger o orçamento do evento de que as receitas fiscais não cresceram em consonância com as metas dos excedentes primários:
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Em primeiro lugar, o governo grego poderia anunciar um compromisso em liquidar uma fracção (presumivelmente, uma pequena fracção), das suas despesas públicas com CCIs;
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Em segundo lugar, os contribuintes poderiam ter direito a receber CCIs como compensação para o pagamento de impostos adicionais em euros. Basicamente, isso é equivalente a substituir um aumento de impostos com um swap obrigatório de CCIs contra euros.
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Em terceiro lugar, os titulares de CCIs poderiam ser incentivados a adiar a utilização de CCIs para descontos de impostos de modo a poderem receber um aumento no seu valor facial (equivalente a um pagamento de juros a serem pagos sobre a retenção dos CCIs na forma de CCI’s adicionais );
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Em quarto lugar, o governo poderia levantar euros no mercado colocando CCIs com prazos de vencimento mais longos em vez de colocar títulos de dívida pública;
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Deve notar-se que essas garantias são muito menos pro-cíclicas do que aquelas impostas pela UE para fixar metas orçamentais em caso de haver receitas fiscais insuficientes. Pode ser imediatamente visto que uma ou mais dessas salvaguardas, possivelmente utilizadas de forma combinada, poderiam mesmo acomodar facilmente significativas quebras nas metas do excedente no orçamento primário.
Como um exemplo, sob a hipótese conservadora acima exposta, a queda resultante de 1% do excedente primário (0,9% em vez de 1,9%), equivalente a aproximadamente € 2 mil milhões no caso da Grécia, pôde ter como contrapartida a oferta de incentivos de algum interesse para os portadores de CCIs que vencem anualmente (até € 24 mil milhões, como se presume acima). Alternativamente, o estimulo a diferir para mais tarde a entrega dos CCIs poderia ser utilizada para atrasar o equivalente a € 1 milhar de milhões de CCIs chegados à maturidade, enquanto € 0,5 mil milhões poderiam ser recuperados utilizando CCIs para pagar algumas despesas públicas e a diferença residual poderá ser colmatada através de uma permuta obrigatória de CCIs contra euros feita com titulares de altos rendimentos. O impacto de tais medidas de salvaguarda poderia obviamente ser comparado e muito favoravelmente com os efeitos recessivos do ajustamento operados através dos cortes e/ou dos aumentos de impostos determinados na base do Pacto de Estabilidade e Crescimento.
Conclusão
Há alternativas à austeridade e esta última deve deixar de ser encarada como a única regra para a Grécia, uma regra de ajustamento que enquanto tem dramaticamente estado a empobrecer o país, mostra-se igualmente ineficaz em recolocar o país numa trajectória de crescimento digna de crédito. Introduzindo uma moeda paralela ao euro poder-se-ia ajudar a mudar a trajectória de Grécia e levar a que este país saia da depressão rapidamente, contanto que a moeda seja projectada de uma maneira que leve a que haja incentivos ao aumento da despesa no sector privado.
Uma variedade de opções têm sido propostas. Estas foram ilustrados e discutidas neste trabalho, em duas partes. Todas as opções exigem que o Estado transforme as receitas fiscais futuras em aumento imediato da despesa. Cada opção, contudo, tem um impacto previsto muito diferente na procura agregada interna e na sustentabilidade fiscal. Nós acreditamos que somente os certificados do crédito de imposto, utilizados como uma quase moeda teriam suficiente poder para criar nova capacidade de despesa e de gerar bastantes recursos para se poderem pagar por si-mesmos sobre um ciclo económico de retoma. Por outro lado, salvaguardas suficientes podem ser construídas sobre estes certificados, que protegeriam o orçamento contra o risco de receitas fiscais inferiores às esperadas e podem ser construídas de em forma que impeça que novas medidas de austeridade se venham a tornar necessárias.
Referências
Blanchard O and D Leigh (2013) “Growth Forecast Errors and Fiscal Multipliers”, IMF Working Paper WP/13/1, January
Bossone B and M Cattaneo (2015), “A parallel currency for Greece: Part I,” VoxEU.org, 25 May.
(continua)
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Ver original em:
http://www.voxeu.org/article/parallel-currency-greece-part-ii

