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1938, Munique – 2015, Berlim por Jean-Marie Harribey II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

(conclusão)

Como recompensa, o “acordo” prevê que “a Comissão irá trabalhar em estreita colaboração com as autoridades gregas para mobilizar até 35 mil milhões de euros (em diferentes programas da UE) para financiar os investimentos e a actividade económica, inclusive ao nível das PME. Como medida excepcional e tendo em conta a situação excepcional em que se encontra a Grécia, a Comissão apresentará uma proposta para aumentar o nível de pré-financiamento de mil milhões de euros a fim de dar um impulso imediato ao investimento, de que se encarregarão os co-legisladores da UE. O plano de investimento para a Europa também irá oferecer oportunidades de financiamento para a Grécia. “Ora o” acordo ” simplesmente mistura tudo. Durante muito tempo, a Comissão bloqueou o pagamento de 35 mil milhões de fundos estruturais aos quais a Grécia tem direito como membro da União Europeia. Além disso, o “acordo” refere-se implicitamente ao plano de investimentos Juncker de 315 mil milhões de dólares, decidido no Outono de 2014, mas sobre o qual há muita dificuldade em o colocar à luz do dia e que, além disso, está baseado no concurso de aplicações exclusivamente privadas, garantindo-se uma pequena vintena de milhares de milhões de dinheiros públicos.

Tudo isso agora está claro? Talvez não. Precisa-se a seguir (p. 6): “A cimeira da zona euro está consciente da importância de se assegurar que o Estado soberano grego possa pagar os seus pagamentos em atraso de liquidação relativamente ao FMI e do Banco da Grécia e honrar as suas obrigações de dívida nas próximas semanas para criar as condições necessárias à conclusão bem sucedida das negociações. O risco de não ser capaz de concluir rapidamente as negociações é todo ele da responsabilidade da Grécia.

A colocação da Grécia sob tutela

O que podemos aprender? Neste ponto, várias coisas provisórias .

1) Nunca na história contemporânea desde o fim da era do colonialismo clássico, um país terá sido colocado sob uma tutela tão feroz por países estrangeiros, instituições internacionais, e mais ainda, pela burguesia financeira .

2) O “acordo” que eu chamo de Berlim deve ser entendido como um “acordo” pensado em Berlim e adoptado com a aprovação de Berlim. Ao fazê-lo, a União Europeia e os líderes da zona euro acabam de dar o golpe de misericórdia sobre o povo grego, sobre a democracia e ao muito pouco de legitimidade que lhes restava. Merkel, Hollande, Lagarde, Juncker, Draghi, Schäuble, Gabriel, Moscovici, e assim por diante, estão para a Grécia de Tsipras o que foram a CIA, Nixon e Kissinger para o Chile de Allende. Nos dois casos, trata-se de negar a escolha popular e de desestabilizar um governo democraticamente eleito. Isto, já não é o golpe militar fascista é o golpe de Estado promovido pela finança, o braço de uma classe dominante arrogante, que se pensa com a certeza da sua hegemonia perpétua

3) Sem dúvida, é-nos necessário fazer um balanço crítico da estratégia que consistiu em apostar sobre a possibilidade de ter duas coisas ao mesmo tempo: permanecer na zona euro, um verdadeiro constrangimento, e desenvolver negociações com os que têm os dois ramos da tenaz . Sem uma relação de forças favorável, a aposta é impossível de se manter, o governo grego acaba de o aprender e pagando bem caro por isso mesmo. Era certamente esse o objectivo de Berlim e de todas as capitais europeias: demonstrar a todos os povos que não há alternativa e que “a não serve de nada votar, é necessário vergarmo-nos nestes tempos de hoje ”. Mas o erro não incumbe não somente ao governo de Tsipras. Também, e talvez incumbe sobretudo, à inércia total dos movimentos sociais europeus face ao golpe de Estado financeiro que acaba de se realizar e que era bastante previsível. O silêncio ensurdecedor dos sindicatos europeus diz muito sobre a apatia quase geral dos países pelos quais, certamente, a crise já por aí passou mas que continuam a beneficiar da sua posição económica dominante ou semi-dominante.

4) A Grécia pode afrouxar o torniquete por num espaço de tempo razoável? Não será já demasiado tarde para que ela decida unilateralmente, sem estar a pedir qualquer autorização a Bruxelas ou a Berlim, de :

5) O mais depressa possível, os cidadãos empenhados dos países europeus contra os diktats neoliberais, ou seja através das associações, dos sindicatos ou dos partidos, é necessário que façamos um balanço crítico da dificuldade para manter a linha de força e de orientação política que os nossos amigos gregos tiveram que largar: as relações de força entre a panela de ferro e a panela de barro[1] tem a mais elevada probabilidade de perder a aposta impossível acima evocada. Se amanhã, porque o povo grego recusará “o acordo” de Berlim ou porque este “acordo” se terá saldado, o que é muito provável, como um novo Trafalgar para a economia e para a sociedade grega, a Grécia for obrigada a sair do euro, o que em tal situação não poderá ser pior que a situação actual, então deveríamos reflectir e propor que a França, a Espanha, Portugal, a Itália, pelo menos, acompanhem a saída da Grécia com uma saída colectiva para lançar imediatamente as bases de uma outra forma de cooperação económica e monetária, de um controlo dos bancos centrais, de uma convergência orçamental a começar pelo que se refere aos lucros das empresas e à criação de um fundo de investimento para a transição ecológica e para a reabilitação dos serviços públicos e sociais. Então a questão do euro em si-mesma tornar-se-ia quase secundária (eu estou aqui a falar da cor das notas que circulam), se a finança por último for controlada (não que ela seja razoável o que para a finança é-lhe impossível), ou seja que se lhe torne impossível ser prejudicial à sociedade. .

Não esqueçamos que se Tsipras acaba de perder uma batalha estratégica em Julho, porque não tinha plano alternativo uma vez que sair do euro em Janeiro teria sido suicida, tendo em conta o estado da economia grega, isso é também devido à nossa própria vacuidade estratégica.

P.S.

Este texto foi escrito a 1 4 de Julho por Jean-Marie Harribey. Foi inicialmente publicado no seu abrigo no site Alternatives économiques.

Jean-Marie Harribey, 1938, Munich – 2015, Berlin. Texto recebido pelo canal Attac e disponível igualmente no sitio :

https://france.attac.org/se-mobiliser/avec-les-grecs-contre-l-austerite-pour-la-democratie/article/1938-munich-2015-berlin

[1] Nota de tradução. Panela de ferro, panela de barro, referência a uma fábula de La Fontaine . A panela de barro e a panela de ferro é uma fábula cuja lição de moral é de que não devemos associar-nos com quem é mais forte que nós.

 

1938, Munique – 2015, Berlim por Jean-Marie Harribey I

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