FARÁ SENTIDO COLIGIR E ENSINAR UM NOVO CANCIONEIRO GALAICO-PORTUGUÊS? QUESTIONA DOMINGOS MORAIS
clara castilho
Esta é a pergunta de que parte Domingos Morais[1] para fazer uma proposta de trabalho com crianças. Fiquemos hoje com a sua introdução.
As pessoas estão contaminadas por um gosto que lhes é fornecido, que lhes é imposto, e fixa na verdade as preferências da maioria. Torna-se urgente reagir, contribuir para uma higienização desse gosto.
A canção de texto tem, na história comum do Brasil e de Portugal, um papel fundamental na difusão da língua, da poesia, do modo próprio de contar o que nos sensibiliza. Uma canção vale mais do que mil palavras. E cria imagens que marcam gerações e mudam a nossa percepção do Mundo e da Vida.
No tempo em que os Humanos falavam, ou cantavam quando tinham algo para dizer ou contar, as palavras conheciam os caminhos da memória dos que as sabiam de cor. Era a lenta decantação das ocorrências pelo filtro das representações, afectos e valores dos contadores de histórias, cristalizados em versos, cantigas e romances. Nas folhas penduradas em cordéis por feiras e romarias vendiam-se, por algumas moedas, feitos e fados acontecidos ou por acontecer. Ou inventados com mestria porque a realidade sempre ultrapassa o que se imagina. Músicos ambulantes teciam dessa forma os fios virtuais da comunicação directa com o povo que deles dependia para dar sentido ao passar do tempo e ao imaginar de outras vidas.
Mas como a água, que sempre faz o leito para chegar ao mar, esses jograis do nosso tempo, herdeiros dos “cantores de cordel”, estão a criar um Novo Cancioneiro e reencontram nos palcos, na rua e agora, também, nas virtualidades internéticas, os atalhos que precisam para projectar as suas vozes e gestos e nos sensibilizarem com as suas histórias. Edições cuidadas permitem conhecer o seu trabalho que pode agora fazer parte dos repertórios de qualidade dos grupos musicais e dos programas e propostas formais e informais de fruição musical.
2 – … um desafio em três andamentos
«Há que restituir ao povo a sua música. Há que restituir-lha por dever e por necessidade: por dever humano e por necessidade estética. Por dever humano, porque a música é um bem comum, uma riqueza que por todos deve ser partilhada, uma eucaristia que todos têm o direito de comungar; e por necessidade estética, porque, desde sempre, e sobretudo nas épocas de crise, a música se foi retemperar nas fontes vivas da arte popular do perigo que corria de se esterilizar no afinamento extremo dos meios técnicos e especulativismo das questões teóricas, com prejuízo da verdade, da força e da humanidade da sua mensagem».
(Fernando Lopes-Graça, 1941)
Desenvolveremos o assunto noutro momento.
1 -Membro do IELT (Instituto de Estudos de Literatura e Tradição) da Universidade Nova de Lisboa. Professor, de 1975 a 1987, na Escola Superior de Educação pela Arte do Conservatório Nacional. Investigador convidado do Museu de Etnologia de Lisboa de 1982 a 1992 (Centro de Estudos de Antropologia Cultural e Social do IICT e Serviço de Educação), onde colaborou, nomeadamente, com Ernesto Veiga de Oliveira. Benjamim Pereira, Margot Dias e Gerhard Kubik. Fez parte, com Michel Giacometti, da Comissão Instaladora do Museu da Música Regional Portuguesa (1987 a 1990) e da Linha de Acção de Recolha e Estudo de Literatura Popular Portuguesa do INIC, a convite de Manuel Viegas Guerreiro (1987 a 1991). Consultor científico da Westdeutscher Rundfunk Kolnn no projecto de recolha de música popular daquela estação de rádio alemã em Trás os Montes e Lisboa (1985) e nos Açores, nas ilhas de S.Miguel, Santa Maria, Terceira e Flores (1987). Membro do Conselho Consultivo do IPPC – 5ª secção, Etnologia, de 1985 a 1990. De 1991 a 1999, Assessor do Serviço de Animação, Criação Artística e Educação pela Arte – ACARTE da Fundação Calouste Gulbenkian (1990 a 2000), Professor na Escola Superior de Educação de Lisboa (1993 a 2001) e na Escola Superior de Teatro e Cinema (2001 a 2011). Consultor científico do Serviço de Cooperação com os Novos Estados Africanos da Fundação Calouste Gulbenkian, nomeadamente nos projectos de Reforma Educativa da Republica de Cabo Verde (Ensinos Básico e Secundário) e no projecto de Consolidação dos Sistemas Educativos de Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique e S. Tomé e Príncipe (1992 a 2001). Sócio fundador da Associação Portuguesa de Musicoterapia (1996), do Centro de Estudos João dos Santos (1992), da Associação Portuguesa de Animadores Culturais (1976) e da Associação Portuguesa de Educação Musical (1973). Criou e dirigiu os grupos corais do Fundo de Fomento da Habitação, da Cooperativa Era Nova e da Biblioteca Operária Oeirense e participou enquanto coralista e maestro nos Coros da Academia de Amadores de Música, com Fernando Lopes Graça e no Coro da Juventude Musical Portuguesa, com Francisco de Orey. Professor de música na Cooperativa A TORRE de 1974 a 2015. É autor de livros e artigos sobre educação artística, etnomusicologia e desenvolvimento curricular e de música para cinema, teatro e televisão.
[2] Entrevista a Cáceres Monteiro e Daniel Ricardo, in «A Capital», 26/12/70