Partindo da ideia de Fernando Lopes Graça
«Há que restituir ao povo a sua música. Há que restituir-lha por dever e por necessidade: por dever humano e por necessidade estética. Por dever humano, porque a música é um bem comum, uma riqueza que por todos deve ser partilhada, uma eucaristia que todos têm o direito de comungar; e por necessidade estética, porque, desde sempre, e sobretudo nas épocas de crise, a música se foi retemperar nas fontes vivas da arte popular do perigo que corria de se esterilizar no afinamento extremo dos meios técnicos e especulativismo das questões teóricas, com prejuízo da verdade, da força e da humanidade da sua mensagem».
(Fernando Lopes-Graça, 1941)
O músico Domingos Morais apresenta três níveis possíveis de trabalho:
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A) Cancioneiro tradicional Infantil
(para grupos de crianças dos 5 aos 8 anos)
Os repertórios em português, galego e brasileiro para a infância, da tradição popular (com afinidades linguísticas e culturais evidentes), permitem conhecer todo um universo musical ligado à vida das comunidades rurais e citadinas. Canções de embalar, de trabalho e lazer, romances e histórias cantadas, das festividades cíclicas. No início, são as lenga-lengas, as cantilenas e canções de roda, os textos entoados nos jogos presentes nas brincadeiras ao ar livre. A capacidade de memorização ajuda as crianças a conhecerem de cor um vasto repertório que por vezes os acompanha em casa e no convívio com os amigos.
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B) novo cancioneiro
(para crianças e jovens a partir dos 8 anos)
A recente publicação de partituras de autores como José Afonso, Sérgio Godinho e Vitorino e a edição de antologias em CD destes e de outros músicos permite um acesso facilitado a repertórios que temos trabalhado com grupos de crianças e jovens.
Outros autores igualmente relevantes e que será necessário em alguns casos transcrever em partitura por não estarem disponíveis são, entre outros, Adriano Correia de Oliveira, Fausto Bordalo Dias, Francisco Fanhais, José Barata Moura, José Mário Branco, Mafalda Veiga, Rui Veloso, Sebastião Antunes, Tiago Bettencourt, Zeca Medeiros. E grupos como a Brigada Vitor Jara, os Gaiteiros de Lisboa e Deolinda.
Tínhamos já a poesia portuguesa que Fernando Lopes Graça musicou para “grupos vocais e instrumentais populares” de Marchas, Danças e Canções em 1946 e os dois cadernos de Canções heróicas em 1960. E todo um capítulo (Entre Pazes e a Guerra) dedicado “às guerras ou lutas para a conquista de direitos“no Cancioneiro Popular Português de Michel Giacometti, de 1981 (Círculo de Leitores).
Este Novo Cancioneiro pode ir ainda buscar música e poesia a outras fontes, com destaque para as cantigas trovadorescas galego-portuguesas, de finais do século XII a meados do século XIV, no Cancioneiro da Ajuda, Cancioneiro da Bi-blioteca Nacional e no Cancioneiro da Biblioteca Vaticana, “de que chegaram até nós 1680 cantigas profanas ou de corte, pertencentes a três géneros maiores (cantiga de amor, cantiga de amigo e cantiga de escárnio e maldizer)“[1]. E aos quatro cancioneiros renascentistas de música portuguesa (o Cancioneiro de Lisboa, o Cancioneiro de Elvas, o Cancioneiro de Belém e o Cancioneiro de Paris).
E às colectâneas de canções e de fados que permitem conhecer a música que em cada época histórica melhor traduz o sentir das comunidades. Como o livro e CD publicado por Rui Vieira Nery em 2010 “As músicas da República – a explosão da música popular urbana“, a colectânea “Há fado na Mouraria” organizada por Ester Nunes, Inês Andrade e Oriana Alves e publicada em 2013 pela editora BOCA (incluindo partituras) e o “O fado operário no Alentejo“, de Paulo Lima, editado pela TRADISOM em 2004.
Do Brasil e de Cabo Verde, da Galiza e de outras regiões de Espanha e da América Latina será seleccionado um conjunto de canções de autores com percursos e temáticas idênticas às que referimos para Portugal. As línguas e culturas do espaço Ibero-americano presentes nesses repertórios permitem conhecer me-lhor o que as aproxima e distingue.
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C) canções escritas para a infância e juventude
(para grupos de crianças e jovens a partir dos 8 anos)
Constança Capdeville, Cândido Lima, Eurico Carrapatoso, Elvira de Freitas, Fernando Lopes-Graça, Francine Benoit, Idalete Giga, Maria de Lurdes Martins, Miguel Azguime e Sérgio Azevedo são alguns dos autores que escreveram obras sobre textos em português para jovens coralistas. Do Brasil, Cabo Verde, Espanha e América Latina, de Timor Leste, serão também seleccionadas algumas músicas de autores que escreveram para crianças e jovens.
Atendendo ao seu grau de dificuldade (incluindo a inclusão de acompanhamento instrumental) serão realizadas com grupos formados em função da sua exigência técnica que durante um determinado número de sessões as preparam para serem apresentadas publicamente.
[1] http://cantigasfcsh.unl.pt/sobreascantigas.asp
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