Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Migrantes: o ângulo morto da fotografia
A Europa submersa pelos bons sentimentos
D. Boughezala et P. Joncquez, Migrants: l’angle mort de la photo-L’Europe submergée par les bons sentiments
Revista Causeur, 4 de Setembro de 2015
“Não em meu nome”: sob esta palavra de ordem generosa, é lançado um apelo a que manifestemos a nossa solidariedade para com os migrantes. Por outras palavras, apesar do niet de 56% dos Franceses, alguns querem abrir em grande as fronteiras – estreitas são-no já elas, as do Espaço Schengen! – com um argumento de peso em apoio: a fotografia do pequeno Alan. O rapazinho de 3 anos afogado cujo corpo deu à costa sobre uma praia turca vinha de Kobane, no Curdistão sírio mas, por um raciocínio cuja subtileza a nós nos escapa, no espírito dos nossos cidadãos indignados a responsabilidade da sua morte incumbe aos Europeus (1).
O tempo das capitulações é no entanto já passado e – ao contrário do Império otomano – o Estado turco não concede nenhuma concessão diplomática às potências europeias, mesmo quando se trata de proteger minorias perseguidas no seu seio ou nas suas fronteiras. Mas no espírito do partido neocolonial que se senta à esquerda da esquerda, a Europa exerce uma soberania moral universal que a carrega com todos os males da terra e lhe atribui uma missão civilizadora para além das suas fronteiras. Erdogan, nada incomodado por dinheiro, não pensou sequer em desculpar-se da sua complacência para com o Estado islâmico, nem da sua guerra aberta contra o PKK que combate o Daech. Pelo contrário, o Presidente turco acusa a Europa de ter feito do Mar Mediterrâneo “um cemitério de migrantes”.
O líder islamista teria errado em se poupar na sua má fé tanto a imagem do pequeno Alan afecta as consciências ocidentais. Na nossa sociedade governada pelas aparências, somente a grande emoção fácil tem a capacidade de fazer mover alguma coisa. E ainda, passada a fase da emoção, nada mudará. A vaga de moralite que cai sobre as redes sociais é realmente um apelo a NADA fazer e a que tudo possa continuar como dantes. Resumidamente, abrir os nossos braços a toda a gente, sem estar a procurar nem causa, nem consequência, nem nenhum partido no que é concretamente uma guerra, com sangue, lágrimas e beligerantes: o Estado islâmico de um lado, enquanto do outro lado estão o exército sírio (ou o que dele resta …), o Hezbollah, conselheiros militares iranianos, as milícias chiitas iraquianas e os peshmergas curdos.
E os bombardeamentos esporádicos “da coligação” fantoche reunida sob a égide dos Estados Unidos alteram apenas marginalmente a relação de forças militares: John Kerry espera que as petro-monarquias saudita, dos emiratos e do Qatar se decidam a intervir no terreno contra Daech (2). Mas estes fornecedores de fundos para os djihadistas arrastam os pés, ou concentram-se sobre a frente iemenita para se oporem ao seu grande inimigo regional, que se encontra ser igualmente a obsessão de Daech: o Irão.
Pobres Ocidentais seguros da nossa superioridade moral, poderemos verter todas as lágrimas de crocodilo do mundo sobre as tragédias da imigração clandestina. Enquanto o Ocidente continuar a praticar a arte da política da emoção, a brincar aos bons Cristos, estaremos condenados a assumir toda a miséria do mundo.
D. Boughezala et P. Joncquez, Revista Causeur, Migrants : l’angle mort de la photo-L’Europe submergée par les bons sentiments. Texto disponível em :
http://www.causeur.fr/aylan-migrants-turquie-europe-frontieres-34439.html

