DOS COMPROMISSOS DA ESQUERDA DE ONTEM AOS FALHANÇOS TRÁGICOS DA ESQUERDA DE HOJE: QUESTÕES À VOLTA DE UMA SÉRIE DE CAPITULAÇÕES. – DOSSIER- DECRESCIMENTO – O CRESCIMENTO, UMA FALSA CRENÇA? por DAOUD BOUGHEZALA e GIL MIHAELY.

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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DOSSIER- DECRESCIMENTO

O crescimento, uma falsa crença ?

1. Introdução

DAOUD BOUGHEZALA ET GIL MIHAELY, LA CROISSANCE, UNE FAUSSE CROYANCE?

Causeur nº 17, Outubro de 2014

 

É simultaneamente o Santo Graal e o paraíso perdido. Quando François Hollande fala de crescimento, não nos podemos impedir de o imaginar como um grande feiticeiro convidando a sua tribo a dançar para que venha a chuva. Porque, no fundo, a política de François Hollande está baseada num acto de fé: Hollande espera que o vento feliz do crescimento nos venha dos EUA. E, quando o vento estiver a soprar, Hollande espera que o mérito lhe venha a ser atribuído.

Seria injusto tomar o Presidente como sendo o responsável pela desesperante ausência de crescimento do PIB. A sua culpa está sobretudo no facto de ele acreditar ainda e de procurar que nós acreditemos também no retorno do crescimento, em vez de nos preparar para o que nos espera.

A exemplo dos objectos de plástico cor-de-laranja que se disputam entre si os amadores “de vintage”, o crescimento parece ser uma ideia de um outro tempo. Mas isso não impede que todos os dirigentes mundiais o andem a invocar por todos os meios: a reforma do mercado de trabalho, os planos de investimento público, a redução da dívida, a consolidação das contas públicas. Como se nós tivéssemos irritado as Deusas pelos nossos deploráveis comportamentos enquanto que esperamos reconquistá-las mostrando-nos agora exemplares, esperando que elas desçam à terra, carregadas de iPhones e de empregos.

Com excepção de alguns profetas da desgraça, ninguém se arrisca a colocar uma questão que no entanto é fundamental levantar. E se, desta vez, o crescimento não se voltasse a verificar? E se nós estivéssemos a assistir ao final de um mundo que era o nosso desde há dois séculos – no qual os Trinta Gloriosos Anos não teriam sido um passo na escalada de uma montanha chamada “Progresso”, mas o seu ponto mais alto?

E se, finalmente, Malthus tivesse razão, ele que acreditava que o aumento da produção agrícola não poderia satisfazer o número de bocas que seria necessário alimentar? E se nós, pura e simplesmente, fôssemos demasiado numerosos?

Não se trata de estar aqui a anunciar o Apocalipse, mas devemos reconhecer que devemos aprender a viver num mundo com recursos limitados, o que implica fazer profundas revisões políticas, talvez até mesmo alguns sacrifícios em termos de liberdades individuais.

Claro, ainda inda não chegámos aqui. Mas, já, o decrescimento tornou-se o grito de ligação dos oponentes ao produtivismo que, ao contrário do movimento Europe Ecologie, não se contentam coim uma gestão “verde e duradoura ” da boa e velha fórmula do crescimento sustentável. Queríamos explorar este campo de reflexão, não para fornecer respostas definitivas mas para que cada um forje uma opinião sobre esta nova era da humanidade que a obrigue a confrontar-se com o tabu da sua própria finitude.

DAOUD BOUGHEZALA ET GIL MIHAELY, Le Causeur

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