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Quando nem a bandeira se salva – por Xavier Vidal-Folch

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Hoje há eleições na Grécia

 

Amanhã, na Grécia, vai-se decidir nas urnas que vai ficar tudo na mesma, situação criada sob a batuta de Syriza. A morte da esquerda temporariamente conduzida pela esquerda radical, por Tsipras. Creio porém ser abusivo dizer que a morte da esquerda na Grécia é levada a cabo pela esquerda radical. Será mais correcto afirmar que esta é conduzida por um homem, Alexis Tsipras, que sujeito, possivelmente, a chantagem fortíssima se virou e se tornou, hoje, o lacaio do político alemão que mais o detestou e que ele mais detestava, Schäuble. De resto, muitas das privatizações das empresas gregas geradas pelas condições impostas com o 3º. resgate irão parar a controlo alemão e sob proposta de um socialista holandês, presidente do Eurogrupo. E se chantagem houve esta terá sido de cunho pessoal porque se referida à Grécia caberia à Grécia assumi-la e responder-lhe e não a Tsipras assumi-la no silêncio do que começa a passar por traição. Ninguém acredita que tenha passado 16 horas em reuniões de forte intensidade emocional se estivesse disponível a ceder. Sendo assim, como se cedeu e mais do que alguma vez seria pensável, em que ainda por cima passou depois a defender essa cedência como o seu programa político a explicação que agora começa a ser levantada ganha sentido: no limite da tensão, sujeito a tensão emocional sem limites e a uma chantagem pessoal da mesma dimensão, ele passou-se, não é o mesmo Tsipras. Agora, vote-se Tsipras, vote-se Nova Democracia, vote-se Pasok, o resultado será sempre igual, executar o programa da potência ocupante. Daí surge um perigo enorme: o crescendo de Aurora Dourada, partido neo-nazi, que se opõe à permanência da Grécia no Euro. Ora com a traição da classe política grega, o que é sentido pelo povo a acreditar em certas análises, a saída do euro pode aparecer como a saída do túnel ao eleitor grego e, consequentemente, a Aurora Dourada pode aparecer a muita gente como uma via de saída. E sendo assim, confirma-se a ideia de Heraclito de que ninguém pode tomar banho duas vezes nas águas do mesmo rio porque tudo flui. E assim é a realidade grega e mesmo com os resultados políticos de hoje a deixarem politicamente os mesmos no poder nada será pois igual. E nesse fluir da situação na Grécia novas circunstância serão criadas, novos homens políticos serão delas o seu produto e novas dinâmicas sociais irão pois emergir capazes de dar origem a uma outra Grécia, aquela com que Tsipras terá sonhado desde   Janeiro até ao princípio de Julho, até antes da sua queda verificada em 12-13 de Julho..

Tudo isto me faz lembrar algumas traições em Portugal. De uma delas, relativamente a um homem que era militante do PC, Nuno Alvares Pereira de seu nome, ainda me lembro porque ouvi a história no final dos anos 60 e início dos anos 70. Mais tarde, saí de Lisboa, vim para Coimbra e, depois, nesta cidade quando aqui cheguei por volta de 75 vi o seu nome escrito a negro nas paredes ao fundo da Avenida Dias da Silva.

Imaginemos uma situação deste tipo: um prisioneiro da PIDE é sujeito à tortura do gota a gota ou por outro processo. Resiste e nada diz aos esbirros da Pide. Exausto, é chamado a um inspector que lhe faz a seguinte declaração: a sua teimosia em não confessar não o leva à nada senão á sua morte, e morte limpa. Adicionalmente coloca em risco a sua mãe e a sua irmã. A decisão é sua. Tem uma alternativa: confessa, colocamo-lo sob pseudónimo no estrangeiro com rendimento pessoal e garantimos os meios de subsistência e de cuidados de saúde à sua mãe, que está doente, e à sua irmã. Escolha pois o seu destino. Esperamos até amanhã pela sua resposta.

O homem terá temporariamente enlouquecido e no seu delírio dessa noite a sua opção foi tomada: confessou tudo o que sabia e o que não sabia, mas que deduzia. Foram feitas dezenas de prisões.

O homem e as suas circunstâncias diz-nos Marx em O 18 de Brumário, o homem e as circunstâncias de Nuno Álvares Pereira em Portugal no final dos anos 60, o homem e as circunstâncias agora em 12-13 de Julho de 2015 com Alexis Tsipras. Situações de limite, mesmo que nada haja de comum nem entre elas nem entre os seus participantes a não ser que são situações de tensão emocional ao limite do humano, a fazer com que os homens de um momento para o outro mudem radicalmente de ideologia pela força do medo. Penso que será algo de equivalente, no sentido de cedência pessoal, que se terá passado com Tsipras que terá resistido horas e horas como nem um herói, sob o silêncio de tanta gente que na Europa esperava da sua parte o milagre de vencer a Alemanha e os seus 17 lacaios.

Perdeu e com a chantagem que pessoalmente sobre ele terá sido feita se terá perdido. E perdido levará amanhã a Grécia, num serviço prestado ao quarteto que se assume como a potência ocupante, a decidir pelos seus próprios meios que o seu destino é agora o de negar a Democracia e isto na Pátria onde ela nasceu! Mas, como diz a Presidente da Assembleia da República grega, Zoe Konstantopoulo, nenhuma decisão feita e assinada sob coacção pode ser a prazo respeitada pelo povo; a força das novas circunstâncias que a situação de agora irá desencadear encarregar-se-á de provar que Zoe tem razão e que a Grécia há-de voltar a ser país libertado inclusive dos que actualmente a traíram.

Coimbra, 19 de Setembro de 2015

Júlio Marques Mota

 

QUANDO NEM A BANDEIRA SE SALVA

Tsipras ficou sem programa, sem lema, sem bandeira. Hoje, já ninguém discute a política de austeridade na Grécia.

XAVIER VIDAL-FOLCH. El País,  18 Setembro de 2015

 

O equilíbrio político da Syriza, depois de estar apenas sete meses no exercício do poder é, friamente considerado e bem longe de qualquer paíxão, ainda menos que raquítico .

A jovem e promissora equipa de Alexis Tsipras quase que ganhou em 25 de Janeiro a maioria absoluta: faltavam apenas adicionar dois lugares no Parlamento aos seus 149 lugares. Agora nas sondagens de Setembro está em situação de empate técnico com o partido conservador Nova Democracia, um dos dois principais partidos conservadores que a coligação de esquerda acabara de afastar e de uma forma que se suponha definitiva .

Quem sabe, talvez ultrapasse ainda o que nos dizem as sondagens, uma vez que os indecisos / desencantados são especialmente os desencantados de Syriza. Mas nada pode ser excluído, porque a queda foi mesmo a pique. De um nível de aceitação de 70% ainda na Primavera passada, em que procurou consolidar a sua maioria com um referendo vitorioso em 5 de Julho, de cujos resultados se retractou logo a seguir, no espaço de algumas horas, o que criou uma enorme fractura no seu próprio partido … terá pois passado para um nível de aceitação inferior a 30%, quando os gregos já tinham engolido os seus sonhos, pesadelos e dias de férias .

Tsipras prometeu não se aliar a ninguém mas já na semana passada mudou de posição admitindo coligações e limitando a sua recusa apenas em partilhar o poder com a direita. Veremos.

A nível europeu Syriza colocou o seu programa político como uma emenda à totalidade da política económica na zona euro. Procurou levar a sua rebeldia a outros países, para não ficar sozinho e assim conseguir impor na zona euro as mudanças que considerava fundamentais.

Com o resultado prático de que os seus (embora dissidentes) acolhedores colegas franceses, sociais-democratas das instituições- o presidente do Eurogrupo e o do Parlamento Europeu – se distanciaram imediatamente e formaram (com algumas tonalidades ) um bloco de 18 países contra 1.

Desencadeou uma batalha frontal contra a existência da Troika controladora do cumprimento das obrigações contraídas com o resgate (Comissão, BCE, FMI). Os erros e os exageros cometidos por esta, bem como as suas dissensões internas, tinham favorecido esse movimento.

Mas conseguiu o oposto do que pretendia. Ou seja, consolidou a Troika que agora com o acordo assinado por Tsipras passou a um quarteto (à Troika adicionou-se o Mecanismo Europeu de Estabilidade, de sigla MEE). Segundo a forma como vergonhosamente reza o Memorando do terceiro resgate assinado em Agosto deste ano pelo Governo da Tsypras: “As autoridades [gregas] não adoptarão unilateralmente nenhuma medidas orçamental ou outras medidas de política económica ” sem “estreita consulta” com o Quarteto (ponto 3, página 14).

Em suma, Tsipras ficou sem programa, sem lema, sem bandeira. Já nada se discute na Grécia quanto à política de austeridade. No melhor dos casos só se discute a melhor forma de a aplicar.

XAVIER VIDAL-FOLCH, El Páis, 18 Setembro de 2015 –

Cuando no salvas ni la bandera -Tsipras se ha quedado sin programa, ni lema, ni bandera. Texto disponível em:

http://internacional.elpais.com/internacional/2015/09/15/actualidad/1442345427_746910.html

 

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