A CAMINHO DA GRÉCIA, A CAMINHO DA LIBERTAÇÃO DA EUROPA – A LUTA CONTRA A AUSTERIDADE – 14. SYRIZA-VITÓRIA DE PIRRUS NA GRÉCIA ? [1] A CAMINHO DOS AMANHÃS QUE DESENCANTAM – por GIL MIHAELY

Falareconomia1

 Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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A caminho  da Grécia, a caminho da libertação da Europa – a luta contra a austeridade

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  Syriza-vitória de Pirrus na Grécia? [1]

A caminho dos amanhãs que desencantam

Gil Mihaely, Syriza: victoire à la Pyrrhus en Grèce – Vers des lendemains qui déchantent

Revista Causeur.fr, 26 de Janeiro de 2015

O povo grego falou alto e bom som. Deu o seu apoio em massa ao Syriza e ao seu líder Alexis Tsipras. É a democracia e como todos sabem, a palavra – contrariamente à coisa em si, bastante recente nos helenos – foi inventada na Grécia. O povo por conseguinte falou, mas que diabo quis ele dizer? Alguns testemunhos de eleitores gregos respigados aqui e ali na imprensa deste domingo permitem esboçar um início de resposta.

Sobre o sítio do jornal Le Monde, quatro cidadãos gregos explicam as suas escolhas. Areti, não quer revelar que boletim irá colocar na urna de voto mas deixa pouco lugar ao suspense dado que declara ter rejeitado o partido conservador no poder (Nova Democracia). “Durante todos estes anos de crise, os Gregos foram desonrados face ao mundo inteiro. Queremos reencontrar a nossa honra”, explica-se ela para justificar a sua escolha. Compreendam: a Europa e o mundo inteiro humilharam-nos, cabe-nos agora a nós responder e vingarmo-nos.  E a melhor das vinganças, de acordo com a imprensa mundial, consiste em votar Syriza. Se este raciocínio pode parecer um pouco rudimentar, não deixa de ser verdade,  não estaremos errados nesta leitura da realidade,  mas é assim que se explica-se na França os votos dos “beaufs” na FN .

Por seu lado, Katarina confessa claramente ter votado Syriza. Vai até ao ponto de clamar alto e bom som: “É o único meio para reencontrarmos a nossa dignidade”, explica na sequência das afirmações de Areti. Para que a vingança seja completa, espera que o partido de Alexis Tsipras “tenha uma maioria absoluta”. No partido Syriza não se ignora este estado de espírito de uma parte do eleitorado, razão pela qual Alexis Tsipras tenha utilizado quatro vezes a palavra dignidade na sua última mensagem aos eleitores.

Depois destes dois gritos do coração, os dois outros testemunhos do passeio do Le Monde expõem uma argumentação muito diferente mas igualmente interessante. O primeiro, Vassilis Sklias, um antigo funcionário europeu, deseja o sucesso de Syriza para… fazer melhor avançar as reformas! Para ele “deve-se sanear a função pública [.] pôr fim ao sistema clientelista criado pelo Pasok e pela Nova Democracia, com os seus cortejos de empregados do partido. ”Estratega, espera que a percentagem de votos em Syriza permitirá a Grécia melhorar o seu jogo antes da próxima volta do jogo de póquer com os seus credores. Conta com a Europa para compreender a mensagem “o que é que se vai passar,   se se ataca esta esquerda pró-europeia? Se assim for, isto irá favorecer a extrema-direita antieuropeia. Estamos prontos a discutir. Queremos permanecer no quadro institucional europeu. Não queremos tornarmo-nos numa Cuba”.

Para terminar, Le Monde dá a palavra a Alex, um eleitor de Nova Democracia e que está orgulhoso de o ser. Mas as perspectivas de uma vitória de Syriza não lhe metem medo: “Prometeram tantas  coisas que todos sabem que não poderão aplicá-las e, felizmente, porque são perigosas. A partir de segunda-feira, voltarão à razão e seguirão as regras. ”

Os gritos de entusiasmo dos militantes de Syriza que sentem o odor da vitória recordam-nos um certo 10 de Maio de 1981. Se estes casos citados acima parecerem anedóticos, muitos eleitores de Syriza não aderem às suas ideias e ainda menos ao programa desta formação. Humilhados e em cólera, procuram atingir e prejudicar a Europa. Em inglês, chama-se esta atitude “cutting off the nose to spite the face” (cortar-se o nariz para se vingar do rosto). Com este tipo de punição procura-se também alcançar um prazer tão intenso quanto de curta duração. As lamentações, em contrapartida, podem durar muito mais tempo. Assim, certos espíritos racionais fazem a aposta de “molhar” a extrema esquerda na política actual da Grécia, a qual não se desviará do seu quadro actual, ou seja, o da democracia liberal, do capitalismo e da economia de mercado. Alguns não acreditam sequer numa palavra do que diz Syriza e desejam comprometer duravelmente a esquerda radical grega para provar, de uma vez por todas, que não existe verdadeira alternativa política e ideológica.

Na França, foi-nos necessário quase três anos (entre a vitória de Maio de 1981 e a formação do governo Fabius, sem os comunistas em 1984) para avaliar as verdadeiras margens de manobra política de um governo de esquerda. Pode-se desejar aos Gregos que o processo seja mais rápido neles. De qualquer modo, a esquerda radical europeia deve a partir de agora procurar responder a esta pergunta fundamental: como se irá poder sobreviver à inegável traição ideológica de Syriza? Certas vitórias são piores que as derrotas.

Gil Mihaely, Syriza: victoire à la Pyrrhus en Grèce, Vers des lendemains qui déchantent.

Textos disponíveis em : http://www.causeur.fr/syriza-tsipras-grece-31229.html

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[1] O texto nº 15 desta série, A vitória de Syriza -Tragédia grega ou a Primavera dos Povos, de Chems  Eddine Chitour*, retoma  a temática desenvolvida pelo editor da revista Causeur, Gil Mihaely, no presente artigo  e deverão ser vistos em conjunto.

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