
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

HOLLANDE na casa de LUCETTE: um cenário à KIM JONG-UN
Lucette não pôde colocar a questão fatal
Raoul Fougax, HOLLANDE CHEZ LUCETTE : UN SCÉNARIO À LA KIM JONG-UN, Lucette n’a pas pu poser la question qui tue
Revista Metamag, 03/11/2015
“Tinha uma ideia, era dizer que ele se ocupava e muito com os imigrantes, mas não com os sem abrigo que morrem pelas ruas. Mas não deveria ser necessário que eu lhe dissesse isto“. Pobre Lucette que acredita viver num país de liberdade, nomeadamente de expressão.
Deixar entender que há no nosso país uma espécie de preferência pelo que é estrangeiro, é um crime de lesa-majestade anti-racista. Ainda muita sorte que Lucette não tenha sido inculpada. Funcionários próximos do Presidente e da Câmara Municipal fizeram o bolo, trouxeram as flores e emprestaram as cadeiras. E depois disto, gozam com Putin. Mas isto é do tipo de Kim Jong-Un, a democracia à moda da Coreia do Norte em que o grande líder manipula a comunicação a seu proveito.
Enfim, a seu proveito, isso ainda se está para ver. Porque se François Hollande não mete medo como um tirano normal, cobre-se de um ridículo que felizmente para ele, na França, já não mata desde há bastante tempo.
Este tipo de comunicação poderá custar-lhe bem caro. Porque isto é bem pior que os jantares giscardianos. A ideia era evidentemente a de mostrar um chefe do Estado acessível, espontâneo, sem formalismos, próximo das pessoas, simples como elas, etc. Mas no Domingo, uma reportagem de BFMTV voltou ao local desta visita, que é daquelas que Hollande faz nestes últimos tempos. A jornalista interrogou Lucette Brochet, no seu salão vazio de oficiais, de autoridades e de jornalistas. Explicou sem nenhuma malícia, ainda sob o encanto presidencial, o que estava por baixo da visita trapaceada. Porque tudo era fabricado nesta pequena recepção íntima, organizada realmente pela Câmara Municipal socialista cujo anfitrião reconhece ser um próximo de Lucette, uma reformada de 69 anos: as cadeiras, as flores, o café, as chávenas tinham sido fornecidas pela cidade, pela Câmara Municipal; passemos por cima, ainda. Sobretudo, “um rapaz do Elysée” tinha anteriormente vindo visitar a senhora Brochet, para acertar os assuntos a abordar com o presidente.
Gaspard Gantzer chama-a de Lucette. «Deve ser também assim que “o Senhor Comunicação” de François Hollande se dirige às gentes das camadas sociais em dificuldade, reduzidos ao seu nome como o são as crianças e os familiares», escreve precisamente Yvan Rioufol. Poder-se-ia acrescentar ainda, como o são as empregadas domésticas.
Vê-se efectivamente que a nossa república é adulterada, como os seus valores estão a ser invertidos. Esta instrumentalização das pessoas de mais baixos rendimentos em proveito dos líderes é uma confissão terrível. A comunicação de François Hollande é tão verdadeira quanto os cenários da telerrealidade. Com comunicantes deste tipo não é preciso ter adversários políticos. Revelam com efeito a verdadeira pequenez de aqueles que querem artificialmente fazer crescer.
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Ver o original em:
http://www.metamag.fr/metamag-3324-HOLLANDE-CHEZ-LUCETTE–UN-SC%C3%89NARIO-%C3%80-LA-KIM-JONG-UN.html
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