Em Viagem pela Indochina – IV Vietname (1), por António Gomes Marques

Em Viagem pela Indochina

IV – Vietname

1 –Primeiro dia no país

por António Gomes Marques

Deixei o Laos, Luang Prabang, na tarde do 6.º dia da viagem, com destino a Hanói. Cheguei à para mim mítica capital do Vietname exactamente no dia 27 de Fevereiro de 2019, 4.ª feira, ou seja, o dia em que a Hanói chegaram também Kim Jong-un e Donald Trump, facto que proporcionou a Clara Barata escrever um texto, no Público, que intitulou «Trump e Kim dão o seu melhor num espectáculo diplomático em Hanói». Texto ilustrado pela fotografia que a seguir reproduzo.

in Público online

O hotel onde fiquei distava menos de 200 metros do Hotel em que os dois presidentes se encontraram pela segunda vez —a primeira foi em Junho de 2018, na cimeira de Singapura, ainda não havia passado um ano—, o que levou a que me deparasse com ruas fechadas ao trânsito, dezenas de jornalistas com a parafernália de máquinas fotográficas e de filmar que é habitual nestes acontecimentos e muitos polícias, tornando mais difícil o acesso ao luxuoso hotel onde eu, a Célia e os restantes companheiros de viagem iríamos ficar.

Volto ao texto de Clara Barata, para reproduzir a sua parte final: «Do encontro entre Trump e Kim do ano passado, não resultou nenhum compromisso firme e concreto. Houve, em vez disso, um apaziguamento no clima entre os dois países – a retórica durante o ano anterior tinha alcançado níveis que se tinham tornado assustadores, para dois países com armas nucleares.

Mas, é preciso não esquecer, ambos estão em Hanói para dar um espectáculo tendo o mundo como plateia. “Ambos sorriram só quando se esperava que o fizessem, e praticaram bastante. Estavam a representar”, afirmou à Reuters Kim Hyung-hee, director do Laboratório de Linguagem Corporal da Coreia.»

Fotografia AGM, tirada no dia seguinte, de manhã, ainda com poucos jornalistas

Fotografia AGM, no dia 28 de manhã, aguardando a passagem dos dois presidentes

Mas o que me levou a Hanói não foi seguir a cimeira. No entanto, não resisto a falar um pouco do país deste presidente Kim Jong-un, sucessor desta dinastia familiar que começou com o seu avô Kim Il-sung, fundador da Coreia do Norte em 1948. Kim Il-sung continua a ser o «Presidente Eterno da Coreia do Norte», tido como um semideus milagreiro pela população embriagada pela propaganda que, diariamente, se ouve pelos altifalantes espalhados pelas ruas.

Para que o leitor se possa deliciar como eu, leia-se esta transcrição de uma visita de José Luís Peixoto à Coreia do Norte:

“Em 1979, foi publicado um livro em Pyongyang chamado Acerca das Palavras Honoríficas Aplicáveis ao Grande Líder Camarada Kim Il-Sung, e o Uso Correcto de Expressões com Referência ao Grande Líder. Nesse livro, foram compiladas e organizadas algumas formas de tratamento de Kim Il-sung. A mais utilizada desde sempre é «grande líder», seguida de muitas outras como «líder paternal», «líder eterno», «pai da nação», «general sempre vitorioso» ou, também muito popular, «sol da humanidade».” (1)

Servindo-me ainda da mesma obra, registo que o sucessor do fundador do país, o seu filho Kim Jong-il, é referido por «querido líder», «comandante supremo», «amado general», «estrela orientadora» e «estrela brilhante do monte Paektu» (oficialmente, ele nasceu numa cabana no monte Paektu). O filho deste, Kim Jong-un, actual Presidente do país, após a morte do pai, foi de imediato apresentado como o «Grande Sucessor». Quem lhe sucederá na dinastia ali criada? Um descendente ou a irmã, que sempre o acompanha?

Para além desta obra de José Luís Peixoto, poderão também ler um capítulo do livro «Memórias Escolhidas», de Domingos Lopes, antigo militante e membro do Comité Central do Partido Comunista Português, capítulo esse intitulado «Tão longe, a Coreia», que termina assim: «Anos mais tarde dei comigo a pensar que, sendo a reunificação justa e inevitável (veja-se como aconteceu no Vietname, no Iémen e Alemanha), o Norte a usava claramente como propaganda em relação ao Sul e ao mundo. Não tenho dúvidas de que, numa reunificação pacífica das duas Coreias, a parte norte seria engolida pela parte sul, tal o grau de desenvolvimento de uma contrasta com a estagnação e o subdesenvolvimento da outra.

O facto de a RDPC deter a arma nuclear pode querer significar exactamente a segurança contra a reunificação, ficando segura para a dinastia dos Kim.» (2)

Um pouco mais à frente, no regresso da Baía de Halong a Hanói, voltarei a uma breve referência ao neto do fundador da RDPC, agora no poder, a quem os vietnamitas chamam «O Gordito».

Vencidas as dificuldades de passagem, deu-se início ao programa que me proporcionaria algum conhecimento da capital do Vietname, vendo-se o guia obrigado a algumas alterações na ordem das visitas programadas.

A minha ida ao Vietname foi como um sonho realizado, correndo o risco de ser parcial na análise do que vi. Tenho uma profunda admiração pelo seu povo e por Ho Chi Minh. Na minha opinião, ele e Nelson Mandela são os dois maiores líderes do séc. XX. Do líder vietnamita falarei mais pormenorizadamente ao longo deste texto.

NOTAS

  1. in: Peixoto, José Luís, Dentro do Segredo – Uma Viagem na Coreia do Norte, Quetzal Editores, Lisboa, 1.ª edição, 3.ª reimpressão, 2012. Livro resultante da viagem do autor à Coreia do Norte, aquando do centenário de nascimento de Kim Il-sung, cuja leitura recomendo;
  2. Lopes, Domingos, Memórias Escolhidas, Guerra e Paz Editores, Lisboa, 1.ª Edição: Fevereiro de 2020, págs. 131/132;

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