EDITORIAL – TERÁ CHEGADO A HORA DA COREIA? – por João Machado

O anúncio de que a Coreia do Norte está disposta a enviar uma delegação aos Jogos Olímpicos de Inverno, que vão decorrer na Coreia do Sul de 8 a 25 do próximo mês de Fevereiro, mereceu grande atenção por parte das várias potências mundiais e da grande comunicação social. A Coreia do Sul terá encorajado esta disposição, e são grandes as expectativas para futuro. É lícito pensar que se deve encarar a possibilidade de se caminhar para, num futuro próximo, aparecer no Extremo Oriente uma Coreia unificada. Um país com mais de duzentos mil quilómetros quadrados e cerca de 80 milhões de habitantes, com uma capacidade industrial elevada, tecnologia de ponta e, sobretudo, uma grande vontade de ter sucesso nas difíceis tarefas de reunificação, poderá sem dúvida tornar-se num actor marcante nos difíceis equilíbrios daquela zona do mundo, e mesmo mais do que isso, caso tenha sucesso. 75% dos sul-coreanos serão favoráveis às conversações com a Coreia do Norte.  Ambas as leis fundamentais, do Norte e do Sul, prevêem a reunificação. Contudo existem grandes obstáculos ao desejo de reunificação.

Os mais falados são os resultantes das diferenças entre os sistemas  vigentes na Coreia do Norte e na Coreia do Sul. A sul do paralelo 38 encontra-se um desenvolvimento industrial considerável e um governo eleito segundo as regras democráticas ocidentais, mas também tensões sociais consideráveis, não se podendo ignorar períodos recentes em que a Coreia do Sul viveu sob regimes ditatoriais. A norte reina um regime que se intitula de socialista, mas que tudo indica ser fortemente ditatorial e bastante dependente da república popular da China. Devendo-se ter em conta as distorções causadas pela forte propaganda dos diferentes quadrantes, a população a norte do paralelo 38 parece debater-se com grandes dificuldades, apesar (ou talvez por causa de) da capacidade militar que o governo de Kim Jong-un procura aparentar.

Mas qualquer análise minimamente consistente leva à constatação de que a situação que se vive na Coreia está profundamente dependente das pressões internacionais, muito agravadas pela geografia e pela história recente. A proximidade à China e a fortíssima presença que os Estados Unidos mantêm na região desde a Segunda Guerra Mundial são factores decisivos. O peso crescente da primeira na política internacional e o tom exacerbado do segundo, cioso do seu estatuto de superpotência, agravado pelo estilo do seu actual presidente, levam a temer o agravamento da situação. Terá aparecido uma réstia de esperança após o recente périplo asiático de Trump, mas a ainda mais recente reunião dos aliados dos norte-americanos na guerra da Coreia (1950-53), quarta-feira passada, 16 de Janeiro, em Vancouver, em que inclusive participaram a Coreia do Sul e o Japão (foram notadas as diferenças entre as posições entre estes dois países – clique no último link abaixo), e em que se apelou ao reforço dos controlos das comunicações marítimos com a Coreia do Norte, não terá servido para desanuviar a tensão.

Apesar de não tão grande como o dos Estados Unidos ou o da China , o potencial do Japão, que foi a potência dominante no Extremo Oriente em quase toda a primeira metade do século XX, e é uma das principais economias mundiais, também deve ser tido em conta. As tendências conservadoras e nacionalistas em ascensão no país poderão dificultar as relações com os outros países da região, que, tanto a China como a Coreia, e outros países, conservam más memórias da ocupação pelo exército japonês. Sempre tendo em conta os problemas resultantes da propaganda, será também de recordar que o primeiro líder da Coreia do Norte, Kim Il-Sung, terá sido líder da luta contra a ocupação nipónica.

A margem de liberdade de actuação dos líderes da Coreia do Norte e da Coreia do Sul não será grande. O encontro entre Moon Jae-in, presidente da Coreia do Sul,  e o russo Vladimir Putin, em Setembro de 2017, em Vladivostoque, em que foram discutidas matérias políticas e económicas  que também diriam respeito à Coreia do Norte, poderá ser indicativo de um caminho a seguir (ver artigo de Joseph Essertier, no Counterpunch, clicando no sétimo link abaixo), mas também encontrará resistências de vários quadrantes. Mas a liberdade de actuação dos líderes do Norte e do sul poderá ser o factor decisivo. Mesmo quanto a Kim Jong-un, comentadores de diferentes orientações têm opinado que as suas bravatas e os disparos de foguetões poderão ser um prenúncio para posições mais maleáveis e concessões. Oxalá tenham razão. E que não venha outro actor (não vamos citar nenhum) estragar o cenário.

Propomos que cliquem nos links abaixo:

 

https://www.msn.com/pt-pt/noticias/coreia-do-norte/putin-diz-que-líder-da-coreia-do-norte-é-maduro-e-absolutamente-competente/ar-AAuzlJ5?ocid=spartandhp

https://www.publico.pt/2018/01/15/mundo/noticia/uma-so-coreia-a-solucao-impossivel-1799302

https://www.jn.pt/desporto/interior/coreia-do-norte-e-do-sul-nos-jogos-olimpicos-sob-bandeira-unica-9054292.html?utm_source=Push&utm_medium=Web

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/geral/48712/coreia+do+norte+enviara+delegacao+de+mais+de+300+pessoas+para+olimpiadas+de+inverno+no+sul.shtml?utm_source=akna&utm_medium=email&utm_campaign=boletim_OM_17_01

http://expresso.sapo.pt/internacional/2018-01-18-Coreia-do-Sul-diz-que-vai-continuar-a-negociar-com-o-Norte-com-clarividencia

https://aviagemdosargonautas.net/2017/09/09/editorial-onde-fica-a-coreia-do-norte/

https://www.counterpunch.org/2018/01/08/north-korea-the-deafening-silence-around-the-moon-putin-plan/

https://www.theguardian.com/commentisfree/2018/jan/03/north-korea-kim-jong-un-us-winter-olympics

https://www.theguardian.com/us-news/2018/jan/17/trump-accuses-russia-of-violating-sanctions-to-aid-north-korea

http://www.lemonde.fr/asie-pacifique/article/2018/01/17/coree-du-nord-washington-veut-renforcer-les-controles-maritimes_5242654_3216.html?xtmc=coree&xtcr=8

 

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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