FIÉIS E INFIÉIS (2) – A PROPÓSITO DO 13 DE NOVEMBRO EM PARIS – por Carlos Loures
carlosloures
(Conclusão)
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Maomé, segundo transparece das biografias que tenho lido, era um homem sensato, que respeitava as outras crenças e defendia uma tolerância que, aliás, diversos versículos do Corão consagram. Portanto, a actual vaga de acções terroristas é algo de externo à essência do islamismo e um produto da interpretação perversa das bases teológicas. Último profeta das religiões abraânicas, teve o mérito de unificar as tribos árabes dispersas e permitir a criação de um império que dominou o mundo mediterrânico, da Pérsia à Península Ibérica; nesta última, o esplendor do Al-Andalus foi um dos pólos de uma exemplar forma de convívio entre crenças – não esqueçamos o exemplo, que já por diversas vezes citei, do poeta e cientista Omar Khaayyam, que defendia a tese de que uma reflexão autocrítica feita com sinceridade numa taberna, diante de um jarro de vinho, valia mais do que as praxes religiosas executadas displicentemente na mesquita; punha mesmo em causa a existência de um ser divino superior – isto, há quase mil anos, o que hoje lhe valeria a execução – forca ou decapitação.
Portanto, no último milénio a religião regrediu. Não quer isto isto dizer que o cristianismo tenha evoluído teologalmente; foi, no entanto erradicando as formas mais bárbaras de organizar a sua estrutura orgânica – o que, não evitando crimes de pedofilia, ligações às máfias, apoio a regimes políticos criminosos, não proporciona espectáculos de crueldade animalesca como os que anteontem, robots humanos, com o cérebro amputado por clérigos que deviam ser submetidos a um tribunal internacional tão ou mais severo do que o de Nuremberga.
Porém, a “aldeia global” tem um dono, funciona como um império – os Estados Unidos têm responsabilidades indeclináveis nos crimes que vão sendo cometidos -quem permite que caças F.16 com a estrela de David estampada nas fuselagens, destrua povoações palestinianas, assassinando os donos de um território que os hebreus, apoiados pelos americanos, roubaram? Quem invadiu o Iraque e bombardeou a Síria, destruindo (em nome da democracia) regimes que, antidemocráticos, mantinham alguma estabilidade? Israel e o estado islãmico – só existem porque de algum modo servem os interesses ianques – a aldeia global é gerida por uma estratégia global. No Pentágono bate o coração das trevas onde crimes como os de anteontem são gerados.