Tal como a raiz do salgueiro bebe a água do regato, bebo vinho.
Alá apenas é Alá. Dizes que Alá tudo sabe?
Quando me criou sabia que eu ia beber vinho.
Se eu fosse abstémio seria imperfeito o saber de Alá
Omar Khayyam – Rubayat
Omar Khayyam, um poeta nascido no actual Irão, no século XI, era crente no Islão e bebedor de vinho. Alguns dos seus maravilhosos rubayat são dedicados ao vinho e ao prazer de beber. Como conciliava a crença com o gosto pela bebida, sabendo-se que o Corão proíbe o consumo de álcool, porque não foi emitida uma fatwa perante as suas heresias? Mas terá, de facto, o profeta proibido o vinho aos crentes?
Não. Só pôs reticências ao vinho de tâmara. E o desajustamento entre o que o profeta terá determinado e aquilo que os clérigos dizem que determinou, dá que pensar. Não acredito na santidade nem na infalibilidade dos profetas. Mas, se ao marketing espiritual de Cristo ou de Maomé, juntamos a manipulação dos teólogos, temos estruturas clericais que traem cada palavra dos livros sagrados para servir interesses que nada têm de espirituais. O Vaticano é o exemplo mais acabado desta perversão.
Acresce que, enquanto Maomé quis formar uma nova religião, tudo indica que Cristo se limitou a defender os valores da religião hebraica. O cristianismo parece ser coisa inteiramente criada com intenções políticas e económicas. Os teólogos ligados ao aparelho da Igreja, manipularam os textos, moldando-os às suas seculares conveniências – o Concílio de Trento parece ter sido fértil em ajustamentos dos textos sagrados à práxis de Roma. A maior parte dos dogmas e do aparato litúrgico, valem tanto como o Pai Natal da Coca Cola.
Pergunto se, como sucedeu com a Bíblia, que foi sendo “aperfeiçoada” pelos concílios, o Corão não estará a ser manipulado teologicamente? Os islamistas encontram no seu livro sagrado todas as justificações para o integrismo e para a sua acção fanática. Há mil anos, quando uma grande parte da bacia do Mediterrâneo estava submetida ao Islão, a tolerância era muito maior. Leia-se a poesia de Omar Khayyam, atente-se no esplendor cultural muçulmano. Nessa época eram os cristãos quem instrumentalizava as palavras que Cristo terá dito, pondo-as ao serviço da sua brutal tentativa de destruir o Islão.
A crença islâmica é a mais recente das três religiões de Abraão – judaísmo, cristianismo e islamismo. São três religiões irmãs, baseadas em princípios muito semelhantes, embora a organização do Corão, dividido em 114 capítulos («suras») seja diferente da que orienta quer a Bíblia cristã, quer a Torah hebraica. A primeira perplexidade de um ateu é a seguinte – como pode haver, desde há séculos, tanto ódio entre três crenças tão semelhantes, como puderam os príncipes das três religiões não ter estabelecido uma plataforma ecuménica, baseada no que é comum, que me parece ser tanto), e secundarizando o que é específico de cada uma delas, que é mais litúrgico do que essencial?
Como é possível que quatro ou cinco séculos depois de Maomé ter divulgado a sua palavra, houvesse uma compreensão «do outro» muito mais aberta por parte dos islamitas do que acontece agora, um milénio depois. A nós, ocidentais, a visão do mundo actualmente revelada pela cleresia islâmica é semelhante à da cristandade medieval. O que se terá passado para os muçulmanos terem regredido?
Como disse, não aprovo o terrorismo para resolver questões políticas. Não aceito a violência sobre pessoas inocentes (embora quem defende esse tipo de intervenção política afirme que «ninguém é inocente», o que constitui uma inaceitável falácia). No entanto, esse tipo de acção deve ser devidamente contextualizado – os Estados Unidos praticam o mais odioso dos terrorismos, arvorando-se em polícia do Mundo, destruiram uma ditadura no Iraque, deixando, no entanto, florescer outras ditaduras ou «democracias musculadas», inclusivamente no seu continente. O Irão não tem o direito de ter armas nucleares, mas o minúsculo estado de Israel, uma artificialidade baseada em textos ditos sagrados mas de duvidoso rigor histórico, tem esse direito.
Não seria mais aceitável que os Estados Unidos usassem o seu imenso poderio para acabar com um tipo de armas de consequências incontroláveis e que pode, inclusive, conduzir à extinção da vida sobre o planeta?
A intolerância islâmica e o fanatismo dos islamistas são inaceitáveis. Porém, o terrorismo é a bomba atómica dos pobres. É criminoso e mata inocentes? Claro que é. E as trezentas mil pessoas que morreram em Hiroxima e em Nagasáqui eram todas culpadas da arrogância e das ambições imperialistas dos senhores da guerra japoneses?
Os muçulmanos têm sido espezinhados, espoliados, humilhados… Cria-se o Estado de Israel em território com donos – os Palestinianos que são acantonados em campos de refugiados. Que povo não ficaria enraivecido? Sadam Hussein era um ditador? Era. Não competiria então aos iraquianos combatê-lo se queriam a democracia? Por que razão foram os americanos ao Iraque, destruindo o poder ditatorial, mas mostrando-se incapazes de o substituir, deixando o país num estado muito pior do que estava quando o invadiram.
O fanatismo dos islamistas é intolerável. Como ousam querer impor a sua crença, por mais verdadeira que entendam que é a outros povos? Os clérigos islamitas são uma caricatura carregada dos padres cristãos da Idade Média. Roger Garaudy, na obra que referi, afirma «O islamismo é uma doença do Islão, tal como o integrismo é uma doença de todas as religiões.»(…) «O integrismo é a pretensão de se possuir a verdade absoluta e, por conseguinte, de possuir não só o direito mas também o dever de a impor a todos, sem olhar a meios. O primeiro integrismo é o colonialismo ocidental.»
Boa explicação.
