Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Glenn Greenwald, Exploiting Emotions About Paris to Blame Snowden, Distract from Actual Culprits Who Empowered ISIS
The Intercept, 15 de Novembro de 2015
(continuação)
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Recuando um pouco mais, para meados da década de 1990, a administração Clinton explorou os medos levantados pelo ataque de Timothy McVeigh a Oklahoma City para exigir o acesso a todas as comunicações de internet. Eis o que o então director do FBI, Louis Freeh, disse ao Comité Judicial do Senado em Julho de 1997 – Há quase 20 anos:
O espectro de aparecimento do uso generalizado de criptografia robusta, virtualmente inatacável, é um dos problemas mais difíceis com que nos iremos debater para aplicar a lei nas próximos séculos. Em causa estão algumas das técnicas mais valiosas e eficazes da nossa investigação na defesa da segurança pública dos nossos cidadãos. Acreditamos que a nossa segurança nacional será gravemente posta em causa, a menos que venha a ser adoptada uma abordagem equilibrada à criptografia que inclua a questão chave que é a gestão de infra-estruturas, quanto à nossa capacidade de aplicação da lei na investigação e na prevenção dos crimes mais sérios e do terrorismo mais perigoso.
Como é possível que as autoridades pensem que as pessoas ficaram mudas para contarem com que elas esqueçam tudo isso e agora acreditarem que os terroristas só aprenderam a evitar telefones e a usarem a criptografia depois de Snowden ter aparecido? Ironicamente, o próprio arquivo de Snowden está cheio de documentos de NSA e do seu homólogo britânico, GCHQ, onde se expressa uma profunda preocupação quanto ao facto que eles não podem penetrar nas comunicações dos terroristas porque os seus métodos para evitarem a vigilância nas suas comunicações são muito sofisticados (obviamente, esses documentos têm data anterior às divulgações feitas por Snowden).
Para dar um exemplo, os arquivos GCHQ contêm o que a agência chama de “jihadista Handbook” das medidas de segurança, datado de 2003, que ensina aos terroristas operacionais a utilização de técnicas sofisticadas para evitar a vigilância – semelhantes às que relatámos quando pela primeira vez falámos no assunto e são muito semelhantes às que o próprio GCHQ ainda diz hoje aos seus agentes para utilizarem:
À luz de tudo isto, como podem ” as autoridades” e os seus estenógrafos dos media tentarem convencer as pessoas de uma mentira tão flagrante, facilmente desmontável: ou seja, que os terroristas aprenderam a esconder as suas comunicações graças às revelações de Snowden? As “autoridades” fazem-no porque pensam que têm muitas vantagens em levar as pessoas a acreditar nisso.
Para começar, as autoridades americanas estão ansiosas para diabolizar muito mais que o próprio Snowden. Eles querem diabolizar a criptografia bem como as empresas que disponibilizam estas técnicas. De facto, como os media nos mostram, eles tinham tentado durante duas décadas equacionar a utilização da criptografia – tudo o que os impeça de invadir as comunicações confidenciais das pessoas – com o auxílio e a cumplicidade dos terroristas. Não é pois apenas Snowden mas também os seus próprios parceiros de longa data da vigilância estatal especial – Apple e Google, particularmente – que agora estão a ser apontados como apoiantes dos terroristas por permitirem às pessoas terem agora privacidade nas suas utilizações da Internet, através de produtos de criptografia.
(continua)
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Glenn Greenwald, Exploiting Emotions About Paris to Blame Snowden, Distract from Actual Culprits Who Empowered ISIS.
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