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E ESTE VAZIO QUE NOS EMBALA por Luísa Lobão Moniz

Tempo é preciso…quem vive tem tempo. Mas que tempo? Tempo do relógio? do crescimento? de uma fotografia? Ou tempo para ter tempo…

Vem dia, vem noite, nasce o sol, nasce a lua, não é preciso, tempo, cada um é o que é.

O que faz de nós o que somos, o que queremos ser, quem decide, nós ou a Natureza?

Que diferença faz termos nascido em Portugal, na China, ou em Angola?

O que nos rodeia quando saímos da barriga da mãe?

Quando choramos quem nos conforta? a mão segura de um médico, de uma parteira (a curiosa, como se  dizia há 40 anos atrás) ou a da mãe que tem o seu filho em plena Natureza, no campo onde trabalha?

Quantos de nós sobrevive? Qual a longevidade de cada um?

Quem tem assistência médica? quantos de nós bebemos leite materno? Quem cresce de forma calma e harmoniosa? Quem tem uma pessoa de referência, em termos afectivos, que lhe possa seguir o exemplo, que possa ser a sua fada madrinha?

Quando se nasce num país pobre e nos calha a “sorte” de nascer num bairro periférico rotulado de problemático, que caminhos podemos percorrer, mais do que isso: que acesso temos para entrar no caminho que nos leva a uma vida feliz?

A escolha está selecionada, a sociedade gira em torno do socialmente herdado, o sentimento de pobreza parece ser um círculo vicioso, como vamos rebentar esse círculo alimentado pelos menos pobres e pelos não pobres?

Onde está o tempo quando tenho medo do barulho dos pais que gritam, mesmo à minha frente, ou do barulho mortífero das balas, do desmoronamento dos prédios que se esboroam levando em cada tijolo o tempo vivido quando não havia guerra?

E se tivéssemos nascido no Iraque, na Sírio, que tempo teríamos?

Quantos tempos teriam que ser cosidos, qual manta de retalhos, para se ver que o tempo é aquele que queremos. Cada pedacinho de tempo faz as nossas vidas.

A vida de um emigrante, de um refugiado, de um sem abrigo, de um trabalhador, de um explorador de pessoas, de um criminoso, de uma pessoa de bem, é um tempo.

O meu tempo não tem tempo para agir sobre a minha escolha de vida.

O Bem social deveria estar na linha da frente do meu caminho percorrido.

O Bem social tem que ser construído dentro dos vários tempos que acompanham as nossas vida. É bom ter tempo para sentirmos que tudo e nada é nosso. E nós? vivemos para trabalhar em todos os tempos, para sofrer em todos os tempos..onde está o tempo para a utopia. Tempo é preciso, medo não é preciso!

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