ESTAMOS DE LUTO por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

E mais uma vez, das tantas as que já foram e das muitas que hão-de vir…

Os jovens e a violência, ou melhor, a sociedade e a violência.

Sim, nós e a violência!

Todos dizemos, nas escolas, que é possível parar com a violência.

Muitas são as teorias sobre a violência sobre os jovens, sobre as escolas, sobre as famílias…

O fenómeno da violência juvenil é uma questão de importância pública, precisa ser objecto de uma reflexão específica. Seria importante reconhecer que vivemos uma época cujas características mais marcantes estão indissociavelmente vinculadas à velocidade. O mal estar deste século é a angústia decorrente….do nada.

Temos sempre a tentação de “explicá-la” a partir de determinados modelos ou paradigmas, esta é uma época feita de modelos fragilizados, um tempo pós- paradigmático, que envolve uma sociedade angustiada.

A ideia de superação daquilo que está imposto como sociedade, parece, cada vez, mais inatingível. A busca do prazer, a realização dos desejos, encontra na urgência o seu tempo óptimo.

A juventude é, ela própria, uma transição entre o mundo habitado pelas crianças e o mundo da realização vivido pelos adultos. O jovem é aquele que já não é, mas também aquele que ainda não foi.

A nossa sociedade idealizou uma família e uma escola que já não se adaptam à velocidade com que os acontecimentos e os conhecimentos se divulgam.

Viveu-se com o lema de que quem estudasse arranjaria emprego e formava a sua família. Hoje os jovens perguntam “mas que emprego? família? mas como é a minha família, como é que eu quero construir a minha?”

E o vazio instala-se porque não há respostas adequadas e sérias. Instala-se no íntimo dos jovens, nas distâncias entre filhos e pais, entre a escola e o mundo.

Este vazio está a ser preenchido pelo prazer, agora e já; pelo querer tudo; amanhã logo se vê…

A cultura de massas está a fazer heróis onde há delinquência.

A liberdade é fazer o que se quiser, sem a exigida responsabilidade.

As últimas notícias, que têm sido transmitidas pelos meios de comunicação social, são assustadoras. Em nome do prazer e do querer tudo vale, até matar.

Bem, esta é uma explicação um pouco simplista, pois evidentemente, não corre nas veias destes jovens ácido sulfúrico para tudo queimar.

A frieza, ou falta da noção da realidade nasce, também, do que se revela como “então? ele queria…”

Os ditos marginais conseguem o seu tempo de antena, é um grito surdo do “olhem para mim. Estou aqui”

Pois, agora todos te vêem e todos querem libertar-se de ti, esquecendo-se que em ti há algo de nós.

Os jovens, hoje, e sempre, precisam de orientação construtiva em que a liberdade ande de mão dada com a responsabilidade, da noção do bem e do mal, do eu e do outro…

A sanção social, não a repressão, é muito importante para conter comportamentos. Onde está a sanção social?

Os custos ou os benefícios, de quem altera as regras do jogo das comunidades em que se inserem, estão colocados numa outra ordem, pois os benefícios parecem mais do que os custos…

Os comportamentos são aceites ou não pelas comunidades. Se a passividade e a inação se instalam, então, ainda vamos no princípio de uma grande caminhada cheia de pedregulhos e de buracos.

A comunidade devia entristecer-se com as vítimas e, também, com os agressores.

Podemos dizer que estamos de luto.

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