CONTOS & CRÓNICAS . Um filme de Gabriel Mascaro, “Boi Neon” – por Marcos Cruz
carlosloures
Poucas coisas há que me comovam tanto como ver flores a nascer do lixo, contrariando a ideia de inevitabilidade, a cuja sombra este país, mero exemplo, hipotecou o seu futuro durante anos de mais. Em boa hora, por isso, me tirei dos meus confortos e fui ontem a Santa Maria da Feira ver o novo filme de Gabriel Mascaro, “Boi Neon”, um objecto de cinema que, como poucos, desnuda uma realidade tapada dos nossos olhos pela obsessão do mercado em alimentar o consumo com a erva de t…udo o resto. Lá onde as cercas limitam o horizonte ao nosso focinho, lá onde a merda é o chão que pisamos, lá onde a claustrofobia dos gestos embrutece, lá onde tudo se encurrala, lá onde nem casa temos e andar sobre rodas não significa prosperar, moram connosco mil sonhos impossíveis, companheiros de vida que atenuam a dureza da gravidade e nos fazem levantar os olhos da aridez para as estrelas. É esta a fantasia de “Boi Neon”, onde Iremar e a equipa que com ele viaja pelo nordeste do Brasil transportando bois para vaquejadas [rodeos] vão assentando as cabeças depois do suor. Uma fantasia que tanto pode esbarrar contra revistas pornográficas, colando as suas páginas, como desenhar-se sobre essas mesmas páginas, uma vez descoladas, na forma (infantil) de cavalos alados ou (adulta) de modelos de roupa para shows eróticos. É das trevas do desterro que nasce a luz do encantamento, e é da mistura de ambos que se compõe a poesia de “Boi Neon”, condensada, aliás, no próprio título. Como Iremar deslumbra a pequena Cacá, filha de Galega, mulher-homem, mulher-cavalo, mulher-tudo que conduz o camião-casa-curral de vaquejada para vaquejada, quando lhe diz que o osso do boi faz sabão e a gordura gelatina, o filme arrebata-nos com a umbilicalidade que estabelece entre bosta e perfume, rijeza e ternura, corpo e evasão, preparando-nos paulatinamente o espírito para vermos sublime beleza onde de outro modo veríamos a mais rematada abjecção. De verbo pouco existe para contar, o cinema de Mascaro não se mascara: com pouco ficamos a saber muito sobre as personagens, as suas incompletudes, as suas fragilidades, e são os silêncios, os jeitos, os esgares que no-lo transmitem. Quase as cheiramos, estão aqui perto, continuam aqui perto. Como perto, ou mais do que isso, bem cá dentro, há de ficar eternamente o bailado final – chamemos-lhe bailado, para não prejudicar quem ainda tenha a sorte de ver o filme -, cujo título poderia ser “As árvores também nascem dos frutos”. Em “Boi Neon” tudo é possível. E isso, numa palavra, é cinema.