Ninguém queira estar na pele de refugiado. Se é refugiado e vem por acolhimento na União Europeia (UE), é melhor desistir, antes de se fazer ao mar. Tudo começa mal, logo à partida. Os gangs que lhes garantem um lugar num dos frágeis botes são os primeiros ladrões e assassinos com que qualquer candidato a refugiado se depara. Ainda é só candidato e já está a ser roubado da sua dignidade humana e da sua carteira. Os custos da arriscadíssima travessia são exorbitantes. São vampiros mascarados de seres humanos. As práticas ou frutos que produzem são a negação do humano.
O que nem é de estranhar, porque é assim este tipo de mundo ocidental século XXI, concebido, gerado e alimentado pelo cristianismo, filho do judaísmo, os quais, como um só, ainda geraram o islamismo. Aparentemente, três sistemas distintos de poder religioso, político, moral, financeiro, na verdade um só. Com múltiplas cabeças, múltiplos agentes.
Desde os que vestem de papa e de bispo residencial, de chefe de estado e de padrinho-benfeitor, aos que vestem de “terrorista” e de chico-esperto. Quanto mais do topo, mais criminoso. Mas também mais respeitado, idolatrado, até, pelas suas vítimas.
Basta ver o que sucede nestes dias de páscoa judaico-cristã 2016, em Roma, a do papa, e paralelamente na pequena ilha de Cuba, a de Fidel, ainda vivo. Com o presidente do império USA a passear, descontraído, mai-la mulher, as filhas e a sogra nas ruas de Havana. Numa visita oficial. Portador de um sopro ideológico-teológico que envenena e mata as mentes onde entrar e se alojar. Habilmente mascarado de marido exemplar, pai exemplar, genro exemplar, chefe exemplar de uma família do império. Como se, de repente, tudo o que vem do império, a começar pelo seu chefe supremo, fosse bom e se recomendasse.
É tratado como o messias ou cristo que vem para salvar Cuba do diabo da Revolução e do comunismo. Pôr fim ao famigerado embargo e implantar a democracia. Precisamente, a mais recente máscara com que hoje se veste a ditadura financeira, a única que mata selectivamente a mente-consciência das populações e as converte em mercadorias, ou em consumidores compulsivos. Também a única que sobreviverá a todas as revoluções armadas que ela própria promove. Só não suporta a revolução desarmada, protagonizada por seres humanos ao jeito de Jesus Nazaré, o filho de Maria. Porque esta é uma revolução plena e integralmente antropológica-teológica.
Só quem muda verdadeiramente de ser e de Deus pode protagonizá-la e desenvolvê-la na história. Em lugar de decapitar o grande capitalista ou grande rico, decapita o Capital. Antes de mais, em cada uma das mentes-consciências de quantas, quantos a protagonizam na história. Uma postura própria de muito poucas, muito poucos. Os bastantes para levedar toda a massa humana organizada em rebanho.
É sabido que a plena Liberdade tem um preço. Elevado preço. A submissão por toda a vida também, só que aparentemente menor. Quando não há nada pior do que ser filha, filho de mulher e acabar depois o resto da vida na história súbdita, súbdito do Poder, o assassino da Liberdade.
Nenhuns dos que servem o Poder, estadistas ou “terroristas”, têm ponta por onde se lhes pegue. Deles diz Jesus, o do Evangelho de João (cap. 10) que nasceram e vieram ao mundo só para roubar, matar e destruir os povos. Mascaram-se de humano, para melhor se infiltrarem entre as vítimas da guerra, dos bombardeamentos, da fome de pão, de paz, de dignidade, as quais, em lugar de buscar!em dentro de delas e no seu país natal a solução para os seus quotidianos de inumanidade, optam pelo estigma de refugiado, rumo a uma UE sem alma, sem identidade, sem entranhas de humanidade.
Já se sabia que a Europa de raízes judaico-cristãs é assim. Mascarada de Civilização. As sucessivas levas de refugiados que conseguem chegar vivos às suas fronteiras vêm agora gritá-lo ao mundo. Somos bem filhos do império romano e do seu primeiro papa, o imperador Constantino. Com as sucessivas levas de refugiados caiu-nos de vez a máscara.
Somos piores do que lobos. E os piores dos piores são precisamente os que vestem de papa e de bispos residenciais, que nas suas solenes e pomposas liturgias, apresentam-se com semblantes tristes, falas vagarosas, a simular misericórdia e compaixão pelos refugiados, mas que, depois, nem com um dedo tocam nas causas estruturais e circunstanciais que os obrigam a fazer-se refugiados. Hipócritas até dizer chega.