Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Revisão de Flávio Nunes
Caderno de notas de um etnólogo na Grécia- uma análise social diária da crise na Grécia
Uma série de Panagiotis Grigoriou

31. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – A Esquerda com um comportamento ilegal
A Grécia enterra-se no seu Verão como nas areias movediças. Entre duas canículas e três memorandos, os Troïkanos estão de resto de grande regresso à Atenas, após seis meses de defecção. O governo faz então todo o seu possível de modo a que a sua presença passe despercebida, o que não é nada fácil.

Desiludidos, os Atenienses deixam progressivamente a sua cidade por uma praia próxima, e muito frequentemente ficam alojadas em casas de família. As muito pequenas férias face a uma n-ésima reentrada [do ano político] próxima de sentido tão impossível de encontrar. “Os cinco próximos meses serão diabólicos”, esta é a previsão da imprensa grega neste mês de Julho que termina, os transeuntes não se demoram mesmo nada a olhar para estes títulos dos jornais, basta.
Praça Omónia, em frente do edifício do banco suficientemente histórico e doravante apenas metade do tempo aberto desde que passou a ser aplicado na Grécia os controlos dos capitais, a vida diária arrasta infatigavelmente consigo o seu lote de dificuldades. Rostos graves, trajectos sem destino e outras travessias do deserto económico de mil e uma… aparências às vezes enganadoras.
Transeuntes e gente que vai estando, que vai andando, mendigos “arrasados ” pelo calor, tal como os reformados massivamente convertidos em vendedores ambulantes de bilhetes da lotaria agora ex-nacional, tais são então as nossas imagens do dia e de cada dia que os nossos muito numerosos visitantes do país podem não sublinhar.

Sobre esta praça de estabelecimentos outrora muito frequentados pelas pessoas das letras, o deslizar habitual e finalmente esgotado é perceptível sobretudo para os mais idosos. Certos hotéis classificados de monumentos históricos estão fechados desde há mais de vinte anos, outros em contrapartida, menos numerosos souberam resistir. A crise redistribuiu igualmente certas cartas do comércio necessariamente não equitativo, as grandes cadeias de restauração e de pastelaria – padarias meta-tradicionais, também dessa redistribuição se aproveitaram.
Esta alimentação, em parte inspirada pela cozinha tradicional “combinando receitas clássicas, as abordagens contemporâneas, da criatividade e uma panóplia de aromas”, segue esta grande moda dos mercados do momento, convidando os seus clientes a uma suposta imersão memorial e histórica própria já à Europa vendedora, salvo que na Grécia do memorando, esta prática está-se a generalizar.




Exemplo com bastante êxito, seja isso claramente dito, o café Néon na Praça Omónia, aberto em 1920 e que esteve fechado desde há vários anos, acaba de ser renovado por uma grande cadeia de restauração e de pastelaria – padaria. As suas paredes estão decorados com fotografias antigas, a imersão memorial participa do conceito de venda.
A Grécia gosta de contemplar os seus antigos clichés porque a época parece bloqueada no ponto morto, o futuro continua a estar escuro, a exemplo dos Tsipriotas signatários do memorando III. Esta semana em todo caso, os novos frequentadores assíduos do café, não tiveram falta de temas para conversa. Há muito para se poder tagarelar, entre a presumida sova que levou Varoufákis, o novo e glorioso regresso da Troika ou as rupturas SYRIZA, toda a imprensa fala disto.
De acordo com o grande diário memorandisto “Kathimeriní” (retomado imediatamente pela imprensa francesa), Yannis Varoufákis tinha trabalhado “para a concepção de um sistema de pagamento paralelo que permitiria ao país, se se desse o caso do BCE lhe cortar a liquidez , de continuar a criar dinheiro sem ter máquina rotativa [ e esta está nas mãos do BCE]. “ Na minha opinião tínhamos reunido uma equipa muito competente, uma equipa reduzida que devia permanecer secreta por razões evidentes’, explica Varoufákis, que começou logo a trabalhar na questão a partir da chegada de SYRIZA ao poder. Concretamente, tratar-se ia de utilizar o sítio da administração fiscal grega (o correspondente ao impots.gouv.fr), onde todos os particulares e todas as empresas colocam as suas coordenadas bancárias para transformá-lo num banco virtual onde cada um poderia depois ter a sua conta creditada de um certo montante. As relações monetárias dar-se-iam através desta plataforma. ”
Problema: para pôr em prática este sistema, era necessário recuperar os dados do sítio dos impostos gregos. Ora, este sítio era colocado sob o olhar mais que atento da Troika – outra informação não negligenciável que se ficou a saber com estas divulgações. Varoufákis por conseguinte autorizou um dos seus amigos de grande confiança, especialista em tecnologias da universidade da Colúmbia, à entrar clandestinamente no sistema informático (do seu) próprio ministério a fim de poder copiar o código do sítio dos impostos para um computador no seu gabinete”.

Seguidamente, um registo sonoro foi publicado sobre Internet por um instituto de investigação de que um dos seus membros participava na discussão de 16 de Julho (em inglês) com o acordo de Yanis Varoufákis, e que confirmou a veracidade dos seus propósitos. Os memorandistas profundos, reclamam desde então a cabeça do ministro e nessa sequência foram desencadeados procedimentos judiciais. No Reino da podridão, os … parasitas de Atenas têm constantemente o hábito da última palavra (obviamente depois dos seus mestres-loucos, troikanos).
(continua)


