
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Revisão Flávio Nunes
Caderno de notas de um etnólogo na Grécia. Uma análise social diária da crise grega
Uma colectânea de alguns dos textos publicados por Panagiotis Grigoriou
37. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia-Escroqueria política
O governo de Alexis Tsipras acaba de se demitir na noite da quinta-feira 20 de Agosto. As eleições legislativas antecipadas terão lugar no próximo 20 de Setembro. É muito provavelmente o último acto da fraude política SYRIZA primitivo, face ao tempo de há pouco tempo atrás, e em primeiro lugar da sua equipa dirigente-dirigida. Na sua comunicação transmitida, o Primeiro-ministro do memorando III justificou-se com inaptidão, agarrando-se à Híbris, mentira após mentira. Um pobre espectáculo dos tempos modernos.
Alexis Tsipras demitiu-se, portanto, depois de ter feito exactamente o contrário que pretendia realizar face à nova situação meta-democrática, instaurada pela governança pela dívida em 2010. Uma decisão, a sua demissão, que se impunha, em primeiro lugar porque o governo tinha perdido a sua maioria na Câmara, situação que. É necessário dizê-lo de outra maneira, ficaria insolúvel, e por outro lado, porque não tinha mais nenhuma legitimidade democrática para pôr em obra um programa para o qual… não foi eleito. Salvo que a legitimidade democrática é doravante a última das preocupações para os políticos chegados à maturação de SYRIZA II. O memorando passou por aqui.
Imediatamente, um conselheiro muito próximo de Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, acabou de declarar, via a sua conta Twitter, que “as eleições antecipadas na Grécia podem ser um meio para alargar o apoio ao MEE e ao seu programa de apoio à estabilidade que acaba de assinar o Primeiro-ministro Tsipras em nome da Grécia”. É a sequência lógica, à outra frase doravante bem famosa de Jean-Claude Juncker: “Não pode haver escolhas democráticas contra os tratados europeus já ratificados”.
Sequência lógica que só a sofisticação de Alexis Tsipras pretende então ignorar: “Temos entre as nossas mãos, a democracia e a Grécia” tinha acabado de concluir aquando da sua alocução. Observei que não pronunciou uma só vez a palavra “Constituição”. Aquando do seu discurso de investidura em Janeiro passado, Alexis Tsipras no entanto tinha declarado: “O orgulho e a dignidade do nosso povo não serão postos sobre a mesa das negociações; Somos a carne da carne deste povo, somos cada palavra da Constituição deste país e é ele que serviremos até ao limite ”. Certamente, “somos cada palavra da Constituição deste país a Alemanha”, ironiza-se neste momento na Grécia.
É bem necessário reconhecê-lo. O plano europeísta (e mundialista) assim teria sido bem preparado, ele comportava de resto já no seu seio SYRIZA (a direcção) e isso desde há muito tempo. A sequência é conhecida: calendário das eleições antecipadas em Janeiro, falsas e raramente verdadeiras negociações, ejecção da Plataforma de Esquerda para fora de Syriza e marcação de novas eleições em Setembro de 2015 imediatamente após o choque do memorando III, com o objectivo de constituir um novo bloco memorandista (SYRIZA, Potami, PASOK etc.).
Único imprevisto, este resultado do referendo, os Tsipriotes e os outros “vendidos” da Colónia teriam explicado sem dúvida aos mestre-loucos troïkanos que o “Não” ganharia apenas à justa. É assim que Alexis Tsipras ousou mesmo pronunciar esta frase terrível aquando da sua alocução de 20 de Agosto: “Tenho a consciência tranquila”, copiando assim Antonis Samaras até no grotesco, ignorante como parece ser, desta eventualidade doravante plausível que se relaciona com ele mesmo, nomeadamente a possibilidade de um dia ter de comparecer em frente a um tribunal, assim como os outros líderes da governança memorandista (Papandréou, Papadémos, Samaras), começando pelo iniciador mesmo do anteprojeto, Costas Simítis.
Quinta-feira 20 de Agosto, Alexis Tsipras dissolveu o Parlamento, depois de ter dissolvido a Democracia, a esperança, a Grécia, e mesma SYRIZA, para não dizer toda a Esquerda num certo sentido. Salvo que também havia muito tempo, talvez. Porque quando por último Alexis Tsipras declara “iniciar uma discussão democrática com os nossos parceiros europeus”, mais ninguém acredita nisso na Grécia e isto é um real progresso. E, por conseguinte, numerosos são os que reterão uma sua outra pequena frase “ é necessário que o meu governo possa tirar todo o benefício do apoio popular” enquanto que SYRIZA pela sua direcção tudo tem feito para conseguir curto-circuitar todo e qualquer movimento das bases populares autenticamente a seu favor, sobretudo entre Janeiro e Fevereiro de 2015.

