37. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia-Escroqueria política

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão Flávio Nunes

 

Caderno de notas de um etnólogo na Grécia. Uma análise social diária da crise grega

Uma colectânea de alguns dos textos publicados por Panagiotis Grigoriou

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Quinta-feira, 20 de Agosto de 2015

37. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia-Escroqueria política

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O governo de Alexis Tsipras acaba de se demitir na noite da quinta-feira 20 de Agosto. As eleições legislativas antecipadas terão lugar no próximo 20 de Setembro. É muito provavelmente o último acto da fraude política SYRIZA primitivo, face ao tempo de há pouco tempo atrás, e em primeiro lugar da sua equipa dirigente-dirigida. Na sua comunicação transmitida, o Primeiro-ministro do memorando III justificou-se com inaptidão, agarrando-se à Híbris, mentira após mentira. Um pobre espectáculo dos tempos modernos.

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Atenas, Agosto 2015

 

Alexis Tsipras demitiu-se, portanto, depois de ter feito exactamente o contrário que pretendia realizar face à nova situação meta-democrática, instaurada pela governança pela dívida em 2010. Uma decisão, a sua demissão, que se impunha, em primeiro lugar porque o governo tinha perdido a sua maioria na Câmara, situação que. É necessário dizê-lo de outra maneira, ficaria insolúvel, e por outro lado, porque não tinha mais nenhuma legitimidade democrática para pôr em obra um programa para o qual… não foi eleito. Salvo que a legitimidade democrática é doravante a última das preocupações para os políticos chegados à maturação de SYRIZA II. O memorando passou por aqui.
Imediatamente, um conselheiro muito próximo de Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, acabou de declarar, via a sua conta Twitter, que “as eleições antecipadas na Grécia podem ser um meio para alargar o apoio ao MEE e ao seu programa de apoio à estabilidade que acaba de assinar o Primeiro-ministro Tsipras em nome da Grécia”. É a sequência lógica, à outra frase doravante bem famosa de Jean-Claude Juncker: “Não pode haver escolhas democráticas contra os tratados europeus já ratificados”.
Sequência lógica que só a sofisticação de Alexis Tsipras pretende então ignorar: “Temos entre as nossas mãos, a democracia e a Grécia” tinha acabado de concluir aquando da sua alocução. Observei que não pronunciou uma só vez a palavra “Constituição”. Aquando do seu discurso de investidura em Janeiro passado, Alexis Tsipras no entanto tinha declarado: “O orgulho e a dignidade do nosso povo não serão postos sobre a mesa das negociações; Somos a carne da carne deste povo, somos cada palavra da Constituição deste país e é ele que serviremos até ao limite ”. Certamente, “somos cada palavra da Constituição deste país a Alemanha”, ironiza-se neste momento na Grécia.

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Expressão do momento. Atenas, Agosto de 2015

É bem necessário reconhecê-lo. O plano europeísta (e mundialista) assim teria sido bem preparado, ele comportava de resto já no seu seio SYRIZA (a direcção) e isso desde há muito tempo. A sequência é conhecida: calendário das eleições antecipadas em Janeiro, falsas e raramente verdadeiras negociações, ejecção da Plataforma de Esquerda para fora de Syriza e marcação de novas eleições em Setembro de 2015 imediatamente após o choque do memorando III, com o objectivo de constituir um novo bloco memorandista (SYRIZA, Potami, PASOK etc.).

Único imprevisto, este resultado do referendo, os Tsipriotes e os outros “vendidos” da Colónia teriam explicado sem dúvida aos mestre-loucos troïkanos que o “Não” ganharia apenas à justa. É assim que Alexis Tsipras ousou mesmo pronunciar esta frase terrível aquando da sua alocução de 20 de Agosto: “Tenho a consciência tranquila”, copiando assim Antonis Samaras até no grotesco, ignorante como parece ser, desta eventualidade doravante plausível que se relaciona com ele mesmo, nomeadamente a possibilidade de um dia ter de comparecer em frente a um tribunal, assim como os outros líderes da governança memorandista (Papandréou, Papadémos, Samaras), começando pelo iniciador mesmo do anteprojeto, Costas Simítis.
Quinta-feira 20 de Agosto, Alexis Tsipras dissolveu o Parlamento, depois de ter dissolvido a Democracia, a esperança, a Grécia, e mesma SYRIZA, para não dizer toda a Esquerda num certo sentido. Salvo que também havia muito tempo, talvez. Porque quando por último Alexis Tsipras declara “iniciar uma discussão democrática com os nossos parceiros europeus”, mais ninguém acredita nisso na Grécia e isto é um real progresso. E, por conseguinte, numerosos são os que reterão uma sua outra pequena frase “ é necessário que o meu governo possa tirar todo o benefício do apoio popular” enquanto que SYRIZA pela sua direcção tudo tem feito para conseguir curto-circuitar todo e qualquer movimento das bases populares autenticamente a seu favor, sobretudo entre Janeiro e Fevereiro de 2015.

 

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Grécia, Verão 2015

SYRIZA II, navega já longe, muito longe das preocupações dos Gregos. Os Tsipriotas esperaram em todo caso manter-se ao poder, sob os efeitos do choque e na medida em que a nova Frente de esquerda organizado em redor do “NÃO” (Plataforma de esquerda que deixa SYRIZA, movimento do Plano-B e outros ainda), já demorou demasiado tempo para ganhar corpo. Suficientemente demorado porque esta aceleração do tempo histórico significa para nós todos que vivemos na Colónia, algumas semanas apenas e, no entanto (…)
Neste momento, numerosos eleitores desgostados com a fraude SYRIZA, encaminham-se já para a abstenção, a exemplo do meu vizinho Costas: “Depois de tantos anos de luto votei SYRIZA. Estou profundamente desgostado, ou mesmo perturbado. Nós Gregos, somos bem incorrigíveis. Retiro-me de todo, nunca mais acompanharei os noticiários e nunca mais irei votar. Farei esoterismo, construirei a minha visão do mundo de forma bem diferente”.
Outros pelo contrário, eleitores de direita e antigos do PASOK, sentem-se mais livres para poderem votar em prol do partido instrumentalizado pelos dirigentes Tsipriotas, agora que SYRIZA é um partido do memorando exactamente como os outros, além do falso alibi. Alexis Tsipras torna-se assim o mais jovem cadáver político do país desde há muito tempo. Mesmo no caso de reeleição, governará de concerto com os restos do nepotismo ateniense bem compatível com Bruxelas e, sobretudo, não irá governará durante muito tempo.

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Outros navios. Museu da Acrópole. Atenas, Agosto de 2015

Porque as vinhas da ira grega estão já maduras. Desde a sua ilha, Naxos, Manólis Glézos avisa já Alexis Tsipras: “O governo do Palácio do Primeiro ministro, decidiu levar a eleições prematuras e antecipadas para o dia 20 de Setembro, ignorando SYRIZA, o que explica porque é que nenhuma grande reunião foi convocada. O objectivo é evidente: a submissão aos credores (Troika) e à oligarquia. Nesta sequência, todos os fundadores de SYRIZA, como todos os que não defendem a repetição de um novo Líbano (acordos nefastos para a Resistência de Esquerda em 1944), estão motivados para formar uma Frente de Resistência Unida, popular, beneficiando da cooperação partidária e patriótica para evitar a hemorragia imposta ao nosso povo e à destruição do país, o povo é o único competente tanto para julgar tudo isto como para decidir do seu futuro”, “Diário dos Editores” do 20 de Agosto à noite.
A poucas horas apenas da dissolução do Parlamento eleito a 25 de Janeiro e de Zoé Konstantopoúlou (a sua Presidente), os deputados da Plataforma de Esquerda formarão muito provavelmente um grupo independente, assim o terceiro grupo parlamentar, atrás SYRIZA e da Nova democracia. Isto dar-lhes-á em tal caso, uma melhor presença.

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Uvas sob a Acrópole. Agosto 2015

Os tempos galopam, o verão grego decididamente prolonga-se.

Em Creta, “o presidente da câmara municipal da cidade de Siteia, referindo-se “a uma lacuna” que existe na lei grega, retoma e o abate dos animais ditos “sem vigilância”, a sua carne é depois distribuída através da mercearia social municipal às famílias confrontadas com graves problemas financeiros. Como o declarou o presidente da Câmara Municipal Theodoros Paterakis: Só na última semana, 37 cabras e bodes foram transformados em alimento para as populações necessitados de Siteia, mais de 500 Kg de carne foram distribuídos! ”, diário “Kathimeriní” do 20 de agosto.

Tudo é dito através da pequena frase: “animais ditos ‘sem vigilância’”, de que nós somos em certa medida a carne da carne, e a Grécia já não é a sua primeira mutação da meta-democracia galopante.

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Outra categoria de animal adéspota (sem dono) . Grécia, 2015
Tradução Júlio Marques Mota
Revisão Flávio Nunes
Texto original publicado pelo sítio greek crisis
Panagiotis Grigoriou, Carnet de notes d’un ethnologue en Grèce, une analyse sociale journalière de la crise grecque. Texto disponível no site greekcrisis, cujo endereço é: http://www.greekcrisis.fr/

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