
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Obama, Prémio Nobel da Paz mas Imperador em viagem
Olhemos para a sua viagem pela Europa
Roland Hureaux, Obama, Prix Nobel de la paix mais Imperator en tournée. Retour sur son voyage en Europe
Causeur.fr, 11 de Maio de 2016
Ambíguo, ou mesmo frequentemente traiçoeiro, o presidente dos Estados Unidos conduz uma política internacional que não é de fácil leitura. Contudo, isso não o impediu de realizar uma viagem quase imperial sobre o continente europeu em que distribui elogios e críticas …
Considerando a tournée quase imperial que Barack Obama acaba de fazer pela Europa, como é que se pode deixar de ter dificuldades em compreender as críticas dos conservadores americanos contra este presidente que eles têm como responsável do enfraquecimento do poder americano no mundo? Imperial, a tournée europeia do presidente mostrou a força que o Presidente assumia: veio a Londres falar da sua hostilidade ao Brexit, a Berlim defender a aprovação do Tafta e felicitar Merkel pelo seu largo acolhimento dos migrantes, ele, em cada vez que falou, falou como sendo o Chefe. Note-se, de passagem que a etapa de Paris não lhe pareceu necessária: a França de François Hollande já não conta, não passa de um moço de recados..
É a primeira vez de resto que o actual presidente parece interessar-se tanto pela Europa. Estranho Obama: mestiço com um aspecto de patrício que não tem um só antepassado escravo (1), descendendo pela parte de sua mãe de Jefferson Davis, presidente da Confederação sulista durante a guerra da Secessão, de Saint Louis e de Guillaume o conquistador (2) ele ter-se-á mostrado durante muito tempo dar a prioridade ao Pacífico, onde passou a sua juventude. A América começaria a preocupar-se com a deslocação possível da Europa?
No entanto são tantas as acusações feitas pelos conservadores! Obama teria presidido ao enfraquecimento dos Estados Unidos, ou mesmo tê-lo-ia desejado, seria secretamente muçulmano e por aí seria inimigo do seu próprio país. A sua política estrangeira é contudo de difícil leitura. É certo que fez as pazes com Cuba cuja importância estratégica já não é o que era. Mais decisivo: o acordo de Washington com o Irão (14 de Julho de 2015) que faz urrar Israel. Obama evacuou o Iraque como tinha prometido mas não para aí alcançar a paz. Continua a bombardear o Afeganistão mesmo se houve redução dos efectivos. Também não, contrariamente às suas promessas, não fechou a prisão de Guantanamo. Os seus inimigos conservadores põem estes progressos por conta pela sua qualidade de suposta pomba validada aliás pelo seu Prémio Nobel da paz. E também validados pelos seus apoios à esquerda, de resto.
Um mestre da ambiguidade
No entanto quantas acções duvidosas neste mestre da ambiguidade! Vendo bem, o seu passivo é pesado: foi efectivamente o governo Obama que presidiu, com a secretária de Estado Hillary Clinton, às primaveras árabes das quais, hoje sabemo-lo. quanto elas foram manipuladas e é que como deram mal resultado. Houve a destruição da Líbia, há o facto que tentou a destruição da Síria apoiando os rebeldes jihadistas (pretensos democratas) que combatiam o presidente Assad, e que de maneira oculta ajudou à constituição de Daech no Norte do Iraque e no Leste da Síria, apoiando ao mesmo tempo os Curdos. Alimentando estas guerras, incentivou as migrações de refugiados para a Europa surgidas nesta sequência das suas de acções. .
O mundo esteve muito perto da guerra em Agosto de 2013 quando armas químicas foram utilizadas nos subúrbios de Damasco. Os Estados Unidos estavam prontos para bombardear a Síria quando Obama recuou, aceitando a mediação de Putin. Foi o presidente que salvou a paz ou, como ele também o disse, o Estado-maior que o dissuadiu de atacar, sabendo a capacidade de resposta russa? Não podia em nenhum caso ignorar o que todos hoje sabem: que se tratava de um golpe montado pelos rebeldes. (3) .
Mais grave: a presidência Obama coincide com a subida dos perigos na Europa do Leste. Os acontecimentos da Praça Maïdan em Kiev (22 de Fevereiro de 2014) foram, na verdade, e de acordo com a expressão de Valéry Giscard de Estaing, “um golpe de Estado da CIA” contra um presidente, Viktor Ianoukovitch, regularmente eleito mas que tinha o defeito de ser pró-russo em benefício de um poder insurreccional pró-americano. A guerra que rebentou imediatamente no Leste da Ucrânia e a tensão que aí se verifica é muito forte é uma das suas consequências. Ninguém duvida que esta operação não poderia ter sido realizada sem a luz verde do Prémio Nobel da paz. O acordo com o Irão, que passa para uma obra de paz, não tem ele também como objectivo principal cercar a Rússia?
Mesmo se a substituição em 2013 de Hillary Clinton por John Kerry, muito menos belicista, permitiu um certo apaziguamento, a NATO de resto decidiu no início de 2016, aumentar sensivelmente a sua presença militar na Europa de Leste. E apelando ao mesmo tempo a uma larga coligação contra o Daech, o presidente Obama continua clandestinamente a fornecer armas se não ao Daech, que tinha ajudado desde os seus inícios, pelo menos a outros movimentos jihadistas, com a vontade deliberada de não permitir aos Russos de chegarem à uma vitória total, único meio para restabelecer a paz neste infeliz país.
O método que consiste em estabelecer cada semana uma lista de pessoas a mandar matar r sem processos em todos os quatro cantos do mundo – Ben Laden terá sido a vítima mais espectacular – tornou-se de uso corrente à Casa Branca sob a Administração Obama.
A América paga o preço dos seus equívocos
Os conservadores têm contudo razão em denunciar uma perda de prestígio dos Estados Unidos, no Médio Oriente e no mundo. Mas esta perda de prestígio não é precisamente devida a estes métodos que logicamente devemos chamar de hipócritas?
A América de Obama actua sobre quase todas as frentes com um duplo jogo: apela ao mundo muçulmano para se orientar pela via da democracia e apoia os Irmãos muçulmanos, organiza coligações contra o jihadismo e arma-os em segredo, entende-se com o Irão pretendendo ao mesmo tempo continuar a apoiar Israel e a Arábia Saudita, apoia os Turcos e os Curdos, entende-se directamente com Moscovo ao mesmo tempo que põe óleo nas brasas, ô quanto eles são perigosos, da Europa do Leste, empurra os Europeus a punir os Russos ao mesmo tempo que os Estados Unidos desenvolvem o seu comércio com os russos.
Diz-se que a fraqueza de Obama abriu as portas do Médio Oriente a Putin. Mas não será antes este duplo jogo que, fazendo do Médio Oriente um vasto inferno em chamas, tornou necessária a intervenção de uma potência terceira de que muitos esperam que com ela se consiga a paz sobre a única base realista: a vitória unilateral sobre os islamitas e por conseguinte a manutenção Assad? Os Russos terão eles feito outra coisa que levar à letra, quase sozinhos, o apelo de Obama à uma coligação contra o Daech em Agosto de 2015 para voltar em toda a legalidade sobre a cena do Médio Oriente.
Um Império tem muitos inconvenientes para os povos amantes da liberdade mas, ao menos, espera-se dele que preserve a paz: pax romana outrora, pax americana ontem. É aqui que está a sua legitimidade. Para isso, o Império deve falar alto e ser claro, estilo Trump se quisermos. Com a América de Obama, está-se longe disto.
Não excluímos seguramente que as contracções aparentes da política americana sejam devidas a conflitos entre os seus serviços: o rumor de acções divergentes no terreno entre o exército americano de um lado, a CIA do outro, no Norte do Iraque não é talvez sem fundamento. Seria portanto, não o resultado do jogo duplo mas uma autêntica fraqueza do executivo que seria necessário pôr em causa.
Seja como for, o resultado é o mesmo: contra os esquemas simplistas que opõem sumariamente falcões e pombas, Barack Obama mostrou que, pela combinação de que é talvez com efeito uma fraqueza e certamente um jogo duplo quase sistemático, uma política demasiado sofisticada podia constituir uma verdadeira ameaça para a paz
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Obama descende pelo seu pai de uma linhagem de chefes do leste africano e pela sua mãe descende da aristocracia sulista. ↩
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http://www.capedia.fr/
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Dois estudos independentes vão no mesmo sentido: https://www.rt.com/news/study-challenges-syria-chemical-attack-681/ e
http://www.comite-valmy.org/spip.php?article6837
Roland Hureaux, Revista Causeur, Obama, Prix Nobel de la paix mais Imperator en tournée -Retour sur son voyage en Europe. Texto disponível em :
http://www.causeur.fr/obama-etats-unis-europe-otan-russie-38121.html
