O DRAMA DOS MIGRANTES NUMA EUROPA EM DECLÍNIO E CAPTURADA POR ERDOGAN E OBAMA – 2. MERKEL – ERDOGAN, O VERDADEIRO PAR QUE DIRIGE A EUROPA. ELIMINADO O PAR FRANÇA-ALEMANHA… por ROLAND HUREAUX

refugiados - I

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Merkel – Erdogan: o verdadeiro par que dirige a Europa. Eliminado  o par França-Alemanha …

Roland Hureaux, ensaista francês, Alto funcionário, Merkel – Erdogan: le vrai couple qui dirige l’Europe. Effacé le couple franco-allemand…

Revista Causeur. fr, 18 de Abril de 2016

Erdogan - Merkel

Recep Erdogan e Angela Merkel, em Fevereiro de  2014, em  Berlim

(Foto  : SIPA.AP21518086_000010)

É claro para quem duvidava que o par “franco-alemão” (uma expressão que os nossos amigos alemães abominam, mas quem é que se se importa com a gente?) já  não orienta  os assuntos da Europa. Agora é a Alemanha que reina suprema, pelo menos aparentemente, e é a  França que deixa de contar. Não em razão da sua fraqueza intrínseca: o PIB francês representa apenas  74% do PIB dos alemães, mas isso não é novo e depois  não é apenas a economia que conta: “A França tem pela primeira vez desde há  dois séculos uma esmagadora superioridade militar sobre a Alemanha “1 e isto deveria  compensar o resto. Não, é por uma falta de vontade que a França se tem  apagado.

Continua a ser um par que na verdade continua a dominar  a Europa: o par Merkel – Recep Erdogan: a  Chanceler da Alemanha e o  Presidente da Turquia; a sua estreita cooperação explica muitas das coisas que estão a acontecer  na Europa, para o melhor e, especialmente, para o  pior.

Convergências sobre os refugiados

Primeiramente, há a questão dos refugiados. É claro que, quando no Verão de 2015  Angela Merkel fez saber que os refugiados sírios e iraquianos seriam bem-vindos na Alemanha, encontrava-se em perfeita sinergia com Erdogan que deixava na mesma altura organizar-se o tráfego consistente, indo  mesmo  procurar os refugiados ao Líbano, frequentemente conduzidos em autocarros até  Damasco e fazê-los passar para a Grécia  ao preço de 5.000 à 10.000 €. Um tráfego muito lucrativo (que não tem a ver com os  refugiados que  já há na Turquia, demasiado  pobres para pagar) para a máfia turca para que o governo turco parece ter um pouco mais que  fraquezas. A coordenação entre Merkel e Erdogan também não é contudo perfeita  como o teriam  desejado certos refugiados: por  170 € e um visto alemão, estes infelizes teriam podido tomar o avião Istambul-Berlim sem estar a tomar o caminho perigoso e sórdido “da rota dos  Balcãs”. A coincidência das datas não é menos desconcertante.

Quando Erdogan se encontrou, no outono, confrontado com uma  eleição legislativa difícil, e recebeu na última semana a visita de Angela Merkel que lhe prometeu tudo o que ele precisa para inverter a situação: o acesso dos  Turcos sem visto ao território da União, o reiniciar  das negociações de adesão e o desbloqueio de 3 mil milhões de euros de ajuda. Graças a este apoio, à detenção de dezenas de jornalistas e a uma enorme trucagem, o presidente Erdogan conservou uma maioria parlamentar.

Um compromisso muito desigual

Merkel comprometia-se apenas ela própria, em principio seria assim,  mas é como por azar que estas promessas se voltam a encontrar  no mandato da negociação de que Merkel se tinha encarregado efectuar  com as instâncias europeias aquando do encontro de  18 de Março passado. E sobre os três capítulos, Erdogan ganhou: aos 3 mil milhões já obtidos em Novembro, vêm agora mesmo acrescentar-se mais 3 outros  mil milhões. As negociações de entrada na EU devem reiniciar-se  e os Turcos devem poder entrar sem visto na União europeia a partir do 1º de Junho. Felizmente, este último ponto foi submetido a  72 condições sobre as quais a França insistiu (François Hollande terá servido ainda para alguma coisa !)  de que nem  todas estão preenchidas.

O que deu Erdogan em troca? Quase nada: depois  de ter feito “um hat-trick” individual de acordo com procedimentos complicados e ainda longe de serem postos em prática, a União europeia poderá fazer voltar para trás até 72.000 refugiados (pensar no milhão que  já entrou), mas a Turquia terá o prazer de os  substituir  por outros supostamente mais autênticos.

Há uma grande discrição sobre a partida dos refugiados a partir da Turquia que este país apenas se comprometeu vagamente a travar. Já se tinha  comprometido   no  fim de 1995; ora o fluxo não  diminuiu: 150.000 entraram  somente no  primeiro trimestre. Ir mais  longe  para a Turquia, seria reconhecer que tem um controlo   sobre estes fluxos e. por conseguinte, provavelmente terá sido  ela que os provocou. Não se discutiu nada disto.

Também não foi questão que se tenha levantado a responsabilidade da Turquia no desencadeamento da guerra prosseguida na Síria e no Iraque, em que tem uma pesada quota  de responsabilidade. Não está na  ordem do dia. E, de resto,   os principais países da União: A França, a Grã-Bretanha e a Alemanha têm também a sua parte de responsabilidade.

As negociações foram cerradas: chegado à Bruxelas, Ahmet Davutoglu, não menos hipócrita que o seu patrão, avisou os líderes europeus que a questão dos  refugiados não era “uma negociação, não era uma transacção,  mas sim uma questão de valores  humanitários, bem como dos  valores europeus”.

Sobre o mesmo registo, Peter Sutherland, secretário associado das Nações Unidas para os refugiados, preocupou-se com o facto de que as condições exigidas pela Europa não sejam  legais   face aos direitos dos refugiados. Este antigo Comissário europeu para a  concorrência gosta  muito da livre circulação das mercadorias e dos homens. Pergunta-se-lhe porquê, outra “coincidência”, tinha decidido, sempre no verão passado, a diminuição dos subsídios diários para os refugiados que se encontram nos campos  de refugiados.

Diz-se que Angela Merkel tinha  subido muito de popularidade durante estas negociações. Há uma razão, mas com  que sinceridade? Que  nos façam crer  que a poderosa  Alemanha não tinha meios para obter mais se o tivesse pretendido ?

Porquê  tanta timidez?

Podemos-nos interrogar sobre as relações surpreendentes entre Recep Erdogan e Angela Merkel, um Irmão muçulmano, a outra protestante liberal influenciada pelo marxismo. A  chanceler   teria nele  encontrado o seu mestre? Tudo indica que, ao contrário do “par (l) ” franco-alemão,  não é ela que tem as rédeas.

A Turquia beneficia, como país  candidato à União europeia, de um livre acesso ao mercado e de  subvenções importantes. Quase que se poderia  dizer que tem as vantagens de estar na  União sem os seus inconvenientes. Os meios de pressão sobre ela não lhe  faltam,  por conseguinte.

Porquê então tanta  timidez por parte da chanceler, porquê  esta cegueira voluntária que  a impede de  ver a responsabilidade directo de Erdogan nos conflitos do Médio Oriente e a passagem de mais de  um milhão de refugiados? Erdogan que não escondia outrora o seu desejo der islamizar a Europa pela imigração, a fim de vingar a derrota de  Lépante. É a questão  mais importante para a Europa, decisiva para a sua evolução, e é uma questão que permanece sem resposta evidente

As relações entre a Alemanha e a Turquia são antigas: os dois países mais povoados da Europa — se aceitarmos os Turcos na Europa e eles já dela fazem parte sob vários aspectos — pode conjugar o seu peso para imprimir um destino a todo o continente: a culpabilidade e o ódio de um deles, o expansionismo e o militantismo islâmico do outro podiam apenas reencontrar-se. Tanto quanto ao primeiro país faltam crianças e operários.

Estas relações são antigas: no tempo do Kaiser o projecto de comboio Berlim-Istambul-Bagdad constituía um dos eixos da política alemã. A cooperação militar alemã assistiu desde a primeira alinha  ao massacre dos Arménios que, Hitler dixit, inspirou   mais  tarde   o massacre  dos judeus (Hitler ao qual Erdogan recentemente se comparou).

A sombra de Washington

Estas relações não explicam tudo. O mesmo acontece com as   relações pessoais da chanceler  e o novo  sultão. Os dois países são membros da NATO e estão ambos sob a  tutela estreita dos Estados Unidos, sobretudo Berlim.  Certas correntes de opinião em Washington não escondem o seu desejo de ver a entrada maciça de muçulmanos dobrar de uma vez para sempre a soberba europeia, mergulhar assim o nosso continente  em  grandes dificuldades civis que o colocaria  definitivamente afastado da cena mundial. Em  Davos, o processo migratório recebeu os incentivos do FMI e da OCDE, prova que existem  padrinhos altamente colocados. Washington e Ancara têm ambos a Rússia de Putin  na ponta da mira. Outros contudo querem-nos fazer  pensar que Obama está cansado das manigâncias de  Erdogan e preferiria acalmar o jogo.

A ameaça dos atentados

Em  todos os casos, Berlim seria bem  recompensado pela sua  compreensão muito específica no que diz respeito a Ancara escapando, de  momento pelo menos, aos atentados islamitas. Assim como em Outubro, aquando de uma viagem eleitoral junto dos Turcos da Europa apelando ao voto, Erdogan tinha atacado violentamente a França em Estrasburgo e a Europa em  Bruxelas, mas não a Alemanha. Se acreditarmos  em  certas fontes, nomeadamente gregas, evocadas por Mediapart, os atentados de Paris e de Bruxelas teriam sido organizados pelos Turcos inquietos pelo  apoio da França e da Europa aos Curdos. Ameaças contra a França e a Europa na imprensa turca, nos dias que precederam os dramas, atestá-lo-iam. A proximidade de Erdogan e de Daech é bastante grande para o explicar e o rei Abdallah de Jordânia  tê-lo-ia confirmado. É demasiado cedo contudo para alguém  se pronunciar  de forma segura. A Alemanha foi poupada certamente pelos atentados sangrentos, mas teve direito ao  atentados ao pudor, igualmente coordenáveis.

Em política internacional, se a força puder conduzir aos excessos, a fraqueza é frequentemente criminosa: os anos 30 tinham-nos dado uma grande lição sobre esta matéria . Pode acontecer que o apagamento da França, cuja razão evocamos acima  tenha consequências bem mais desastrosas do que o que se pode imaginar : não somente o desequilíbrio e, aí, o desaparecimento da parceria franco-alemã que constituía um eixo de razão e controlo da Europa por si mesma , mas também a emergência de novas forças e de novas tendências extremamente inquietantes para o futuro do continente; é tempo que o nosso país hoje em interregno, retome o seu lugar no concerto das nações!

________

  1. Le mur de l’Ouest n’est pas tombé, Hervé Juvin, Ed. Pierre-Guillaume de Roux, 2015, page 28. 

 

Roland Hureaux, Revista Causeur, Merkel – Erdogan: le vrai couple qui dirige l’Europe, Texto disponível em:

http://www.causeur.fr/erdogan-merkel-turquie-allemagne-europe-migrants-37719.html

 

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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