
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Merkel – Erdogan: o verdadeiro par que dirige a Europa. Eliminado o par França-Alemanha …
Roland Hureaux, ensaista francês, Alto funcionário, Merkel – Erdogan: le vrai couple qui dirige l’Europe. Effacé le couple franco-allemand…
Revista Causeur. fr, 18 de Abril de 2016

É claro para quem duvidava que o par “franco-alemão” (uma expressão que os nossos amigos alemães abominam, mas quem é que se se importa com a gente?) já não orienta os assuntos da Europa. Agora é a Alemanha que reina suprema, pelo menos aparentemente, e é a França que deixa de contar. Não em razão da sua fraqueza intrínseca: o PIB francês representa apenas 74% do PIB dos alemães, mas isso não é novo e depois não é apenas a economia que conta: “A França tem pela primeira vez desde há dois séculos uma esmagadora superioridade militar sobre a Alemanha “1 e isto deveria compensar o resto. Não, é por uma falta de vontade que a França se tem apagado.
Continua a ser um par que na verdade continua a dominar a Europa: o par Merkel – Recep Erdogan: a Chanceler da Alemanha e o Presidente da Turquia; a sua estreita cooperação explica muitas das coisas que estão a acontecer na Europa, para o melhor e, especialmente, para o pior.
Convergências sobre os refugiados
Primeiramente, há a questão dos refugiados. É claro que, quando no Verão de 2015 Angela Merkel fez saber que os refugiados sírios e iraquianos seriam bem-vindos na Alemanha, encontrava-se em perfeita sinergia com Erdogan que deixava na mesma altura organizar-se o tráfego consistente, indo mesmo procurar os refugiados ao Líbano, frequentemente conduzidos em autocarros até Damasco e fazê-los passar para a Grécia ao preço de 5.000 à 10.000 €. Um tráfego muito lucrativo (que não tem a ver com os refugiados que já há na Turquia, demasiado pobres para pagar) para a máfia turca para que o governo turco parece ter um pouco mais que fraquezas. A coordenação entre Merkel e Erdogan também não é contudo perfeita como o teriam desejado certos refugiados: por 170 € e um visto alemão, estes infelizes teriam podido tomar o avião Istambul-Berlim sem estar a tomar o caminho perigoso e sórdido “da rota dos Balcãs”. A coincidência das datas não é menos desconcertante.
Quando Erdogan se encontrou, no outono, confrontado com uma eleição legislativa difícil, e recebeu na última semana a visita de Angela Merkel que lhe prometeu tudo o que ele precisa para inverter a situação: o acesso dos Turcos sem visto ao território da União, o reiniciar das negociações de adesão e o desbloqueio de 3 mil milhões de euros de ajuda. Graças a este apoio, à detenção de dezenas de jornalistas e a uma enorme trucagem, o presidente Erdogan conservou uma maioria parlamentar.
Um compromisso muito desigual
Merkel comprometia-se apenas ela própria, em principio seria assim, mas é como por azar que estas promessas se voltam a encontrar no mandato da negociação de que Merkel se tinha encarregado efectuar com as instâncias europeias aquando do encontro de 18 de Março passado. E sobre os três capítulos, Erdogan ganhou: aos 3 mil milhões já obtidos em Novembro, vêm agora mesmo acrescentar-se mais 3 outros mil milhões. As negociações de entrada na EU devem reiniciar-se e os Turcos devem poder entrar sem visto na União europeia a partir do 1º de Junho. Felizmente, este último ponto foi submetido a 72 condições sobre as quais a França insistiu (François Hollande terá servido ainda para alguma coisa !) de que nem todas estão preenchidas.
O que deu Erdogan em troca? Quase nada: depois de ter feito “um hat-trick” individual de acordo com procedimentos complicados e ainda longe de serem postos em prática, a União europeia poderá fazer voltar para trás até 72.000 refugiados (pensar no milhão que já entrou), mas a Turquia terá o prazer de os substituir por outros supostamente mais autênticos.
Há uma grande discrição sobre a partida dos refugiados a partir da Turquia que este país apenas se comprometeu vagamente a travar. Já se tinha comprometido no fim de 1995; ora o fluxo não diminuiu: 150.000 entraram somente no primeiro trimestre. Ir mais longe para a Turquia, seria reconhecer que tem um controlo sobre estes fluxos e. por conseguinte, provavelmente terá sido ela que os provocou. Não se discutiu nada disto.
Também não foi questão que se tenha levantado a responsabilidade da Turquia no desencadeamento da guerra prosseguida na Síria e no Iraque, em que tem uma pesada quota de responsabilidade. Não está na ordem do dia. E, de resto, os principais países da União: A França, a Grã-Bretanha e a Alemanha têm também a sua parte de responsabilidade.
As negociações foram cerradas: chegado à Bruxelas, Ahmet Davutoglu, não menos hipócrita que o seu patrão, avisou os líderes europeus que a questão dos refugiados não era “uma negociação, não era uma transacção, mas sim uma questão de valores humanitários, bem como dos valores europeus”.
Sobre o mesmo registo, Peter Sutherland, secretário associado das Nações Unidas para os refugiados, preocupou-se com o facto de que as condições exigidas pela Europa não sejam legais face aos direitos dos refugiados. Este antigo Comissário europeu para a concorrência gosta muito da livre circulação das mercadorias e dos homens. Pergunta-se-lhe porquê, outra “coincidência”, tinha decidido, sempre no verão passado, a diminuição dos subsídios diários para os refugiados que se encontram nos campos de refugiados.
Diz-se que Angela Merkel tinha subido muito de popularidade durante estas negociações. Há uma razão, mas com que sinceridade? Que nos façam crer que a poderosa Alemanha não tinha meios para obter mais se o tivesse pretendido ?
Porquê tanta timidez?
Podemos-nos interrogar sobre as relações surpreendentes entre Recep Erdogan e Angela Merkel, um Irmão muçulmano, a outra protestante liberal influenciada pelo marxismo. A chanceler teria nele encontrado o seu mestre? Tudo indica que, ao contrário do “par (l) ” franco-alemão, não é ela que tem as rédeas.
A Turquia beneficia, como país candidato à União europeia, de um livre acesso ao mercado e de subvenções importantes. Quase que se poderia dizer que tem as vantagens de estar na União sem os seus inconvenientes. Os meios de pressão sobre ela não lhe faltam, por conseguinte.
Porquê então tanta timidez por parte da chanceler, porquê esta cegueira voluntária que a impede de ver a responsabilidade directo de Erdogan nos conflitos do Médio Oriente e a passagem de mais de um milhão de refugiados? Erdogan que não escondia outrora o seu desejo der islamizar a Europa pela imigração, a fim de vingar a derrota de Lépante. É a questão mais importante para a Europa, decisiva para a sua evolução, e é uma questão que permanece sem resposta evidente
As relações entre a Alemanha e a Turquia são antigas: os dois países mais povoados da Europa — se aceitarmos os Turcos na Europa e eles já dela fazem parte sob vários aspectos — pode conjugar o seu peso para imprimir um destino a todo o continente: a culpabilidade e o ódio de um deles, o expansionismo e o militantismo islâmico do outro podiam apenas reencontrar-se. Tanto quanto ao primeiro país faltam crianças e operários.
Estas relações são antigas: no tempo do Kaiser o projecto de comboio Berlim-Istambul-Bagdad constituía um dos eixos da política alemã. A cooperação militar alemã assistiu desde a primeira alinha ao massacre dos Arménios que, Hitler dixit, inspirou mais tarde o massacre dos judeus (Hitler ao qual Erdogan recentemente se comparou).
A sombra de Washington
Estas relações não explicam tudo. O mesmo acontece com as relações pessoais da chanceler e o novo sultão. Os dois países são membros da NATO e estão ambos sob a tutela estreita dos Estados Unidos, sobretudo Berlim. Certas correntes de opinião em Washington não escondem o seu desejo de ver a entrada maciça de muçulmanos dobrar de uma vez para sempre a soberba europeia, mergulhar assim o nosso continente em grandes dificuldades civis que o colocaria definitivamente afastado da cena mundial. Em Davos, o processo migratório recebeu os incentivos do FMI e da OCDE, prova que existem padrinhos altamente colocados. Washington e Ancara têm ambos a Rússia de Putin na ponta da mira. Outros contudo querem-nos fazer pensar que Obama está cansado das manigâncias de Erdogan e preferiria acalmar o jogo.
A ameaça dos atentados
Em todos os casos, Berlim seria bem recompensado pela sua compreensão muito específica no que diz respeito a Ancara escapando, de momento pelo menos, aos atentados islamitas. Assim como em Outubro, aquando de uma viagem eleitoral junto dos Turcos da Europa apelando ao voto, Erdogan tinha atacado violentamente a França em Estrasburgo e a Europa em Bruxelas, mas não a Alemanha. Se acreditarmos em certas fontes, nomeadamente gregas, evocadas por Mediapart, os atentados de Paris e de Bruxelas teriam sido organizados pelos Turcos inquietos pelo apoio da França e da Europa aos Curdos. Ameaças contra a França e a Europa na imprensa turca, nos dias que precederam os dramas, atestá-lo-iam. A proximidade de Erdogan e de Daech é bastante grande para o explicar e o rei Abdallah de Jordânia tê-lo-ia confirmado. É demasiado cedo contudo para alguém se pronunciar de forma segura. A Alemanha foi poupada certamente pelos atentados sangrentos, mas teve direito ao atentados ao pudor, igualmente coordenáveis.
Em política internacional, se a força puder conduzir aos excessos, a fraqueza é frequentemente criminosa: os anos 30 tinham-nos dado uma grande lição sobre esta matéria . Pode acontecer que o apagamento da França, cuja razão evocamos acima tenha consequências bem mais desastrosas do que o que se pode imaginar : não somente o desequilíbrio e, aí, o desaparecimento da parceria franco-alemã que constituía um eixo de razão e controlo da Europa por si mesma , mas também a emergência de novas forças e de novas tendências extremamente inquietantes para o futuro do continente; é tempo que o nosso país hoje em interregno, retome o seu lugar no concerto das nações!
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Le mur de l’Ouest n’est pas tombé, Hervé Juvin, Ed. Pierre-Guillaume de Roux, 2015, page 28. ↩
Roland Hureaux, Revista Causeur, Merkel – Erdogan: le vrai couple qui dirige l’Europe, Texto disponível em:
http://www.causeur.fr/erdogan-merkel-turquie-allemagne-europe-migrants-37719.html
