Site icon A Viagem dos Argonautas

A INEXACTA CIÊNCIA DE CALIBRAR A POLÍTICA FISCAL, de BILL MITCHELL – III

Bill_Mitchell_wiki_photo

Selecção, tradução, adaptação e notas adicionais de Júlio Marques Mota

A inexacta ciência de calibrar a política fiscal

Bill Mitchell, The inexact science of calibrating fiscal policy

Billy Blog, 2 de Dezembro de 2014

(CONTINUAÇÃO DO TEXTO de BILL MITCHELL)

A taxa de desemprego agrava-se ou fica na vizinhança do valor actual. A Europa continua na sua absurda abordagem do que deve ser a sua organização socioeconómica.

A propósito do texto editado ontem – The Australian economics media guilty of false reporting – em que escrevi sobre os défices estruturais, penso que este poderia ser útil para explicar o que são essas artimanhas metodológicas e para demonstrar como elas podem ser enganadoras.

Se alguém alguma vez pensou que todas estas regras orçamentais e os bancos de dados de apoio para os implementar são de uma maneira ou de outra de valor científico, pense duas vezes. No mínimo, dizer que é arbitrário é fazer uma descrição bem eufemística para os classificar!

Então vamos tentar manter isto o mais simples que nos for possível.

Servirmo-nos, como preparação técnica sobre este tema, do capítulo de uma publicação da Comissão Europeia – Part III Measuring the fiscal effort – será muito útil.

Outro material de fundo pode ser encontrado nesses blogs – Structural deficits – the great con job! e Structural deficits and automatic stabilisers.

Recordando o texto de ontem (que resume os anteriores dois textos citados acima), a diferença conceptual entre o que é cíclico e o que são  componente estruturais do saldo orçamental  publicado é o seguinte:

Assim, é a isto que se deve chamar de saldo estrutural. A abordagem descendente, “top-down” que é a maneira desde longa data utilizada em calcular o saldo envolve uma série de etapas.

Primeiramente, o nível de actividade de pleno emprego – ou PIB potencial – tem que ser estimado como benchmark contra o que é estimado como sendo as variações da produção imputáveis à posição no ciclo, os efeitos de conjuntura. Na capacidade produtiva potencial, o ciclo da economia é considerado estar no seu pico e neutral relativamente ao saldo orçamental.

Os desvios relativamente ao valor de pico invocam assim os impactos cíclicos não-neutros no resultado orçamental.

O cálculo do défice estrutural gerou um pouco de trabalho dos estatísticos, no passado, com o tratamento e discussão sobre muitas e complexas questões em relação com os ajustamentos relativos à inflação, aos efeitos de termos de troca, às mudanças nas taxas de juro e muito mais.

Muito do debate centrou-se em como calcular o ponto não observado de pleno emprego na economia. Havia uma pletora de métodos usados no período em que verdadeiramente houve pleno emprego, ou seja nos anos 60. Em todos os países se levantaram questões mas tal como todo o trabalho empírico – este é uma ciência suja – assentava-se  em hipóteses e em simplificações. Mas isto é da natureza da vida do economista que trabalha no campo da economia aplicada.

Nos anos 70, uma nova componente ideológica foi incorporada nestes cálculos. Ao mesmo tempo que os governos abandonaram o seu compromisso de trabalhar para alcançar o pleno emprego ( à medida que aumentava o desemprego), o conceito da taxa de desemprego que não acelera a inflação (a NAIRU) era integrado no debate – veja meus blogues – The dreaded NAIRU is still about and Redefing full employment … again!. NAIRU

A NAIRU tornou-se um elemento central na linha da frente no ataque contra a utilização da política orçamental discricionária pelos governos. Argumentou-se, erroneamente, que o pleno emprego não significaria a situação onde haja empregos suficientes para satisfazer as preferências da força de trabalho disponível. Em vez disso, o pleno emprego ocorre quando a taxa de desemprego se situa ao nível em que a inflação permanece estável.

Os teóricos da NAIRU inventaram então um número de razões espúrias (todas elas empiricamente sem nenhum fundamento) para justificar e acentuar de forma continuada a estimativa desta taxa de desemprego a subir com a inflação estável (não observável). Então, na década de 1980, os economistas defendiam que esta taxa rondava os 8%. Agora, os mesmos economistas consideram que esta é de cerca de 5%. Em Espanha as recentes estimativas da Comissão consideraram que a NAIRU subiu de um valor abaixo de 10% para 23 ou 24%. Um cenário semelhante (ridículo) é estimado para a Grécia.

A NAIRU foi severamente desacreditada como um conceito operacional, mas mesmo assim ainda hoje  exerce uma poderosa influência no debate político.

É ainda amplamente utilizada para definir a utilização da capacidade de produção total. Uma economia que está a funcionar ao nível da chamada NAIRU é considerada estar a funcionar ao nível da plena capacidade produtiva.

Claro, os economistas que utilizam estes conceitos continuaram a modificar as suas estimativas da NAIRU, que por sua vez foram acompanhadas por enormes erros-padrão. Estes intervalos de erro nas estimativas significam que as taxas calculadas podem variar entre 3 e 13% em alguns dos estudos, o que torna este conceito inútil para fins de política económica .

A razão pela qual que este conceito é utilizado não é pois porque este seja estatisticamente aceitável mas sim porque ele contém todo uma carga ideológica que justifica  o ataque neoliberal contra a intervenção do governo na economia.

Os modelos estatísticos são, na verdade, espúrios e porque eles inflacionam o nível de desemprego que seria consistente com o pleno emprego, [como este se acabou de definir na linha da NAIRU], o que, por sua vez, severamente subestima as receitas fiscais e sobrestima a despesa que seria consistente com o pleno emprego.

Ou seja, estes modelos permitem que os decisores da política económica concluam que o défice estrutural é maior numa situação de défice (menor numa situação de excedente)  do que é na verdade .

Assim, estes modelos sub-avaliam sistematicamente o grau de contracção discricionária que tem origem na política orçamental. [Nota de Tradução: Relembro aqui os multiplicadores muito baixos do FMI e da Comissão]

Isto é a primeira grande questão que resulta da utilização de técnicas ditas descendentes ou de “top-down”.

Como segunda questão, temos que uma vez que o nível do pleno emprego seja aceite, os estatísticos estimam de quanto é que as percepções dos impostos e das despesas sociais são sensíveis às variações do PIB real a partir do nível da plena capacidade produtiva.

Os economistas estimam de quanto é que as receitas fiscais poderão descer/subir por cada variação percentual do PIB real (descer/subir). Eles chamam a isso, elasticidade.

Se, por exemplo, a corrente taxa de imposição fiscal aplicada é igual a 100 e se a receita fiscal varia de 0,5% então por cada variação de 1% do PIB real (como resultado de variações no rendimento) esta resposta é então a elasticidade [ou semi-elasticidade, consoante o caso] .

Então, seja o crescimento do PIB real consistente com o pleno emprego de 3%. O saldo orçamental calculado utilizando as receitas fiscais recebidas e os pagamentos feitos pelo Estado a este nível da actividade seria chamado o saldo estrutural.

O que acontece se o crescimento real do PIB cai para 2%? Nós poderemos esperar que as receitas obtidas pelo Estado caem (para 99,5% do valor anterior), mesmo se as políticas de tributação actuais (taxas, estrutura, concessão de subsídios, etc.) permanecem inalteradas. A descida não tem nada a ver com uma mudança na política – tudo depende da sensibilidade das receitas face ao crescimento real do PIB.

Se nada mais mudou pelo lado da despesa, o saldo orçamental mudará de 0,5% em termos do défice ou em termos de um défice maior. Nós normalmente expressaríamos essa mudança como uma percentagem do PIB nominal, o que significa que a estes 0,5% corresponderia um número diferente, [ou seja a elasticidade seria menor que este valor de 0,5% que é também chamado de semi-elasticidade].

Um exercício semelhante é o do governo se empenhar pelo lado da despesa e estabelecer de quanto é que os pagamentos de apoios de ordem social subirão por cada ponto percentual (p.p.) de descida no crescimento do PIB real (e vice-versa).

A soma dos impostos desce e há aumento de gastos impulsionados pelos desvios das taxas de crescimento do pleno emprego e estas duas componentes são a medida da componente cíclica do equilíbrio orçamental.

Então se o governo está com um pequeno défice orçamental no momento de pleno emprego e como resposta procura corrigi-lo então a economia entra, em seguida, em recessão e o défice aumentará, mesmo se o governo não altera nenhum parâmetro da sua política.

Esta metodologia é a abordagem de ‘top-down’. A Comissão Europeia diz que esta abordagem produz “o saldo orçamental ajustado pelo ciclo” Cyclically-adjusted Balance (CAB)” que:

consiste em remover dos saldos orçamentais verificados o impacto do ciclo de negócios, com base em metodologias estandardizadas… [e]… é interpretado facilmente como o saldo orçamental que prevaleceria se o PIB estivesse ao nível potencial… além disso, a mudança no valor do CAB mede o impacto sobre a posição orçamental, isto é, expressa a mudança no saldo orçamental que não é gerada pela reacção automática do saldo orçamental ao ciclo de negócios. Isto fornece uma medida da impulsão não-automática do saldo orçamental sobre a economia. Um aumento no défice ajustado pelo ciclo fornece um impulso expansivo na economia.

Enfrentam-se diversos problemas com esta abordagem que se somam ao enviesamento ideológico utilizado para calcular o pleno emprego. Que este enviesamento não seja reconhecido pela Comissão Europeia, já não surpreende.

O que a medida das mudanças do saldo estrutural ou no discurso da Comissão que o CAB tenta retratar é a mudança na posição orçamental que é “devida a acções do governo claramente identificadas”.

(continua)

________

Para ler a Parte I do trabalho de Bill Mitchell, publicada anteontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

A INEXACTA CIÊNCIA DE CALIBRAR A POLÍTICA FISCAL, de BILL MITCHELL – I

Veja também as notas de Júlio Marques Mota, publicadas ontem em A Viagem dos Argonautas, em:

A INEXACTA CIÊNCIA DE CALIBRAR A POLÍTICA FISCAL, de BILL MITCHELL – II – notas de JÚLIO MARQUES MOTA

________

Ver o original em:

 

Exit mobile version