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CONTOS & CRÓNICAS – O Escritor da Semana – A IDADE DO GELO – por Carlos Loures/2

(1937 - 2022)

Será muito difícil a um jovem nos dias de hoje compreender o papel importante que os cafés desempenharam em grande parte do século passado, não apenas no campo da cultura como noutras áreas, nomeadamente na dos negócios, Diz-se que Manuel Boullosa, que,  nascido em Lisboa,foi com a sua família para a Galiza com cinco anos, regressando depois a Lisboa – portanto um português de origem galega, vindo de uma família que, fugindo da fome que uma grande crise agrícola provocou, levaram à criação de numerosas colónias galegas em Madrid e em Lisboa (penso que também em Barcelona), andou, diz-se que descalço, pelas ruas da capital portuguesa vendendo petróleo porta a porta. Pois já na segunda metade do século XX era uma das cinco maiores fortunas do mundo. Parava pela Brasileira do Chiado e um criado trazia-lhe um telefone – os telemóveis ainda vinham longe – comprava e vendia petroleiros, fechava negócios de milhões de contos. Amigo de um grande amigo meu, o administrador delegado da filial portuguesa da grande empresa, foi  a pedido de Boullosa que Juan José Deiros aceitou ser administrador da Bertrand e conhecíamos-nos embora sem intimidade. Um sábado  no mercado de Cascais, na banca do peixe luzia uma pescada magnífica. Um velhote de boina basca perguntou qual o peso e o preço. A minha mulher olhou, e pesarosa, pois tencionava comprar aquele magnífico exemplar. Pois o senhor da boina, depois de me cumprimentar, despediu-se comentando: +é muito cara».

Há cinquenta anos, nas cidades portuguesas, os cafés eram bastiões de cultura e local de encontro de grupos de intelectuais, as chamadas tertúlias. Nos cafés, principalmente nos de Lisboa, do Porto e Coimbra, gizavam-se planos para a publicação de revistas, criaram-se editoras, estabeleceram-se acordos entre escritores e editores, em suma, os cafés eram plataformas culturais de grande valor na logística literária – O Café Gelo, no Rossio, que fora ponto de reunião dos carbonários que executaram o Regicídio de 1908, era um desses locais onde escritores e artistas se encontravam, davam largas ao tédio, mas criavam também – no Café Chiado, na Brasileira, no Chave d’Ouro, nasceram revistas, criaram-se grandes obras – Fernando Pessoa escreveu parte significativa da sua obra no Martinho da Arcada. […] A Idade do Gelo, constitui uma homenagem ao Café Gelo e a todos os outros onde se discutiam, criticavam, demoliam ou incensavam as novidades literárias, as edições recentes, muitas delas de obras criadas nas mesas dos cafés. A Idade do Gelo antecedeu a transformação desses locais onde se discutia literatura, onde se criavam revistas literárias – A Águia, Orpheu, Nova Renascença, Presença, Vértice, O Tempo e o Modo, Pirâmide… e onde se sonhava com a queda da ditadura e por vezes se organizavam revoluções. As agências bancárias ocuparam depois esses espaços que constituíam o habitat natural desse bicho bizarro a que se chama poeta.

(de A Idade do Gelo, obra inédita)

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