
Após mais de 30 anos de presença continuada, de ações, reivindicações, protestos, publicações, polémicas, interferências no espaço académico espanhol, português, brasileiro e também no internacional, com uma marcante presença nas redes sociais e nos jornais eletrónicos, o pessoal deveria saber ou ter notado que há alguma cousa aí, na malta galega, para além da imagem cordial e para além do intercâmbio autorizado e correto entre os discretos representantes do mundo académico, político, cultural e artístico galego com alguma presença nos campos semelhantes da República das Letras no universo (ou universos) da lusofonia.
O reintegracionismo, numa definição rápida, é um estratégia que visa a inclusão e reconhecimento da língua da Galiza (o galego) no esquema da língua portuguesa.
O reintegracionismo postula que o galego, o português e o brasileiro som variantes da mesma língua. Esta tese foi a defendida tradicionalmente polo galeguismo.
A palavra reintegracionismo deriva de reintegrar que quer dizer ‘integrar novamente‘. O reintegracionismo é uma estratégia para a língua da Galiza que se baseia num facto histórico, uma análise e uma hipótese razoável.
Do ponto de vista dos que defendemos isto, a integração seria em realidade uma reintegração no tronco e conjunto histórico da língua chamada internacionalmente como portuguesa; e que na Galiza, uma vez superado o esquema promovido de dialectalização no castelhano, chamamos de Galego.
O reintegracionismo como noção, reivindicação e objetivo é contemporánea das principais reivindicações linguísticas do movimento nacional galego desde o século XIX. Porém interesses diversos, conveniências e oportunidades foram definindo encontradas discrepâncias. Se bem o objetivo é assumido como horizonte, os debates radicam no cronograma, na intensidade, na definição de fases necessárias e na profundidade em que essa convergência futura com o Português tenha interesse ou seja urgente de necessidade.
Podemos encontrar desde um filo-reintegracionismo discursivo, consistente em frequentar a língua, a literatura, a música, a cultura os manuais técnicos e científicos em português, incorporando no galego dele neologismos, expressões, conceitos, mas considerando na prática a necessidade do Galego manter uma estrutura linguística, morfológica e especialmente ortográfica diferente e independente (incorporando nela elementos da própria tradição e do castelhano na que por séculos andou submersa).
Podemos também encontrar quem defende na lógica pragmática, na falta de tempo por causa da degradação da língua e da destruição da comunidade galego falante na Galiza e na necessidade, a ideia de tomar diretamente algum dos modelos da língua portuguesa (nomeadamente o Português de Portugal nas suas variantes regionais nortenhas por questões de proximidade ou o padrão brasileiro, neste caso por questões de tamanho e presença internacional) e o reformular incorporando nele a tradição literária galega, modismos, léxico, expressões e alguma outra variante morfológica para dar sabor e autenticidade.
No meio diversas gradações ou práticas, já grupais, já individuais que visam todas elas a restauração de um galego auténtico, orgulhosamente nacional, mas também incorporado e reconhecido no espaço lusófono.
Daquela, que é o reintegracionismo hoje, perguntará o leitor atento se chegou até este parágrafo? Uma corrente linguística? uma série de propostas filológicas para entender sem desculpar a situação do galego no conjunto das línguas romances ocidentais? um conjunto de associações e vozes com reivindicações de reformas ortográficas? Um movimento político, social? uma algaravia ou balburdia de vozes? cousas dessas da galegagem sempre confundente, cansativa e por vezes até irritante?
Não sabemos bem. Talvez é isso tudo ao mesmo tempo. O que podemos assegurar é que não parece um movimento uniforme, com objetivos claros e alvos concretos e centrados. E isso é assim porque por baixo destas perguntas hoje encontramos em realidade diversas capas ou fases, evoluções diversas: respostas e propostas a uma lógica de situações diversas nas que o reintegracionismo ou os reintegracionistas têm evoluído.
As origens do reintegracionismo moderno solidificam em forma de oposição (ou oposições) e contra-propostas à ortografia promovida no quadro institucional que tinha de ter a língua galega no momento (1982) em que esta ia fazer parte do ensino primário e do uso administrativo na Autonomia.
Forjado como movimento de guerrilha linguístico cultural e oposição na margem, foi evoluindo na própria dinámica da sociedade e da cultura galega, até se converter num possante e ativo movimento social e cultural que mantém, por meio do voluntarismo e das achegas económicas individuais, diversas plataformas culturais autogestionadas, associações, projetos educativos e editoriais. Iniciativas, que desde a humildade conseguiram ir ocupando – com o discurso reintegracionista – um espaço referente na cultura galega e na cultura independente.
Nos últimos 25 anos, por mais que o reintegracionismo fosse um movimento combatido e excluído do espaço institucional, educativo e académico tem incorporado mais e mais (especialmente na última década) seguidores.
Porém, não todos os cultores de modelos reintegracionistas se incorporaram na mesma altura, nem pelas mesmas vias e também não coincidem numa prática comum, definição e objetivos. Antes bem dependendo da via ou espaço de incorporação esta aconteceu de jeito gradativo e imitativo de mestres, manuais ou contextos sociais; de jeito fulminante e definitivo numa das vias; ou a base de ensaios e erros diversos com hesitações ou mudanças dentro do leque possível.
Convivem pois, não sempre pacificamente, dentro da estratégia comum, e por causa da própria lógica temporal, uma ampla diversidade de fases, tendências, aprendizados, escolas, individualidades e práticas. Agrupadas ou não arredor de várias organizações, orientações, ou normas que por outra banda também não apresentam um caráter estanco.
A tendência nos últimos anos foi a priorizar os espaços construtivos e os projetos, retirando a um segundo ou mais afastado plano, a questão da unidade, ou da formulação de um modelo único comum. Esta tendência em fase expansiva foi ampliando-se aos contextos e projetos não (hostilmente) reintegracionistas.
Disto o proveito coletivo tem sido evidente. Dentro e fora atualmente, por via de relações interpostas e pessoais, o reintegracionismo conseguiu converter-se (ou recuperar) o seu sentido de objetivo e alvo, de elemento conformante do conjunto do discurso do movimento nacional de reivindicação linguística do Galego.
