EDITORIAL – O «brasileiro» é um idioma autónomo ou uma variante do português europeu?
carlosloures
Não é possível ignorar as diferenças entre o português europeu e o que é falado no Brasil; mas também não é sensato exagerá-las. Diferenças vocabulares existem dentro de Portugal e em todos os outros países – e o Brasil, grande como é, não escapa essa regra. No português formal as diferenças são mínimas; é na linguagem corrente que elas se tornam mais evidentes; é natural que, com um oceano de permeio, sem ligações telefónicas, sem televisão ou internet, a matriz implantada no século XVI tenha sofrido um desenvolvimento próprio. Uma deriva.
Note-se, no entanto, que os portugueses compreendem e aceitam sem hesitações o “sotaque”, as expressões populares que chegam do Brasil e adoptam muitas delas. Mesmo pessoas com a escolaridade mínima (principalmente essas), desde que as telenovelas brasileiras começaram a ser exibidas, passaram a usar termos brasileiros, substituindo o vernáculo europeu. Portugal não assume a arrogância do Estado espanhol que impõe as regras que a Real Academia Española estabelece para o idioma (verdade seja dita – mexicanos, argentinos, uruguaios, marimbam-se para o que Madrid estabelece).
Ouvimos dizer que filmes portugueses exibidos no Brasil, são legendados. Custa a acreditar que pequenas diferenças de sintaxe ou de ortografia impeçam os brasileiros de compreenderem a sua língua falada ou escrita de maneira um pouco diferente diferente. Esse é um dos motivos da inutilidade do Acordo Ortográfico. A ortografia pode ser unificada – fonética e sintaxe são imunes a acordos. Quanto a nós, trata-se de um falso problema – na linguagem e escrita formais as diferenças são mínimas e nem nos parecem maiores do que as existentes entre o inglês britânico e o falado nos Estados Unido. Aliás, o inglês é um bom exemplo – não existe nenhuma instituição reguladora do idioma. Oxford vai publicando os seus dicionários e são eles que estabelecem a maneira correcta de usar a língua.
Os brasileiros ou melhor, uma certa casta superior da sociedade brasileira, sempre conviveu mal com o facto de descender de um país pobre e, de uma forma geral, pouco desenvolvido. O Brasil é, em termos de rendimento per capita e de escolaridade bastante mais pobre e menos desenvolvido – mas é grande, um planeta e quase 200 milhões de falantes da variante brasileira, transformam-no no maior país onde o idioma é falado. Segundo dados fornecidos à agência Lusa pelo Instituto Camões, o português é falado por 244 milhões de pessoas em todo o mundo, sendo a sexta língua mais falada do globo, a quinta mais usada na Internet e a terceira nas redes sociais Facebook e Twitter. No site do Observatório da Língua Portuguesa, é explicado como se chega aos 244 milhões de falantes. Sendo a língua oficial de oito países: Angola (19,8 milhões de habitantes), Brasil (194,9 milhões), Cabo Verde (496 mil), Guiné-Bissau (1,5 milhões), Moçambique (23,3 milhões), Portugal (10,6 milhões), São Tomé e Príncipe (165 mil) e Timor-Leste (1,1 milhões). Porém, só em Portugal e no Brasil é contabilizada toda a população como falante de português. Em Timor-Leste, apenas 20% dos habitantes falam português, na Guiné-Bissau 57%, em Moçambique 60%, em Angola 70%, em Cabo Verde 87% e em São Tomé e Príncipe 91%, Os galegos, os criadores da língua não são considerados como seus falantes. Porém, deve contabilizar-se os emigrantes. As diásporas, somam quase 10 milhões de falantes de português, incluindo os 4,8 milhões de emigrantes portugueses e três milhões de brasileiros, segundo dados de 2010.
A língua portuguesa é ainda falada em locais por onde os portugueses passaram ao longo da História como Macau, Goa (Índia) e Malaca (Malásia). Segundo o Observatório da Língua Portuguesa, o português é a língua mais falada no hemisfério sul, com 217 milhões de falantes em Angola, Brasil, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. É a terceira mais falada e um estudo da Bloomberg considera-o a sexta língua do mundo mais utilizada nos negócios. Na Internet, a importância do português tem vindo a crescer, sendo hoje o quinto idioma mais utilizado, por 82,5 milhões de cibernautas. O número de utilizadores da Internet em português aumentou 990% entre 2000 e 2011. Nas redes sociais, no Facebook, o português é a terceira língua mais usada, por 58,5 milhões de utilizadores, a seguir ao inglês (359 milhões) e ao espanhol (142 milhões). A língua portuguesa foi a que mais cresceu naquela rede social, com um aumento de mais de 800% entre 2010 e 2012.
Segundo estimativas do Governo português, tendo em conta a evolução demográfica, com grande margem de progressão em Angola e em Moçambique, até 2050 o número de pessoas no mundo a falar português deverá aumentar para 335 milhões de falantes. Isto, se o Brasil não decidir deixar de chamar português ao idioma que um povo de gente burra lhe legou.