EDITORIAL – QUASE 300 MILHÕES DE FALANTES DE PORTUGUÊS

Imagem2Talvez Camões não tenha feito a escolha mais acertada ao designar o seu poema épico por Os Lusíadas  (Este que vês é Luso, donde a fama/O nosso Reino Lusitânia chama). A Lusitânia começava a sul do Douro, para onde Portugal se prolongou, mas não onde nasceu. Como sabemos, partiu do Condado Portucalense, sensivelmente ocupando o território Entre-Douro-e-Minho; a  língua portuguesa teve o seu berço mais a Norte, na Galiza.  Um milénio depois de tudo ter começado estamos à beira dos 300 milhões de falantes de língua portuguesa. Designar por lusofonia este universo não parece ter sido a melhor opção – pelo “equívoco” geográfico referido e porque nesta imensa massa de falantes os «lusitanos» são uma minoria. Mas as coisas são como são. Não podemos corrigir a história e também não faria muito sentido que a designação fosse mudando ao sabor das circunstâncias.

Anteontem e ontem, realizou-se a 2ª Conferência sobre a Língua Portuguesa no Sistema Mundial. Os trabalhos, reunindo cerca de 200 especialistas, decorreram na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa. Há dias, no quadro da cimeira ibero-americana, houve na Cidade do Panamá um encontro sobre língua espanhola; o os países francófonos também fazem reuniões deste tipo. É bem que o português seja defendido por quem o usa – gerado por galegos, cuidado e espalhado pelo mundo por portugueses, cresce agora ao sabor da explosão demográfica no Brasil, em Angola, em Moçambique. Os nove estados onde é falado situam-se em todos os continentes e o universo de falantes varia consoante se inclua a população total dos países lusófonos, ou só a parte que fala de facto o português ou se contarmos os números das diásporas e que só no caso de Portugal representa 4,8 milhões de pessoas e no caso do Brasil três milhões. A tendência de crescimento é inegável. Há 250 milhões de pessoas a falar português em todo o mundo, a perspectiva é para que sejam 300 milhões nos próximos cinco a dez anos. A população jovem que fala português também explica a conquista do mundo digital – na Internet, o português já é a quinta língua mais usada e nas redes sociais – Facebook e Twitter – a terceira. Também é, terceiro mundial, nos negócios de gás e petróleo, em grande parte graças a Angola e Brasil.

É um universo descontente – os portugueses auto-depreciam-se; os galegos preferiam ter os escandinavos como vizinhos; alguns brasileiros preferiam ter sido colonizados pelosImagem1 holandeses e nos estados africanos diz-se que com belgas, franceses, alemães ou ingleses, a história teria sido outra. Um olhar por novos estados independentes, colonizados por essas potências mais desenvolvidas, desmente este juízo. Uma língua arrancada ao latim, nascida entre fragas, ribeiros e montes, num recôndito limite da Europa, apertada ente o oceano e a pressão de estruturas culturais mais consolidadas, vai pelos mares adentro, implanta-se por todo o planeta e hoje está à beira de ser o veículo de comunicação cultural de 300 milhões de seres humanos. Na passagem do primeiro milénio, quando a aventura desta língua dava os primeiros passos, essa era o número total de habitantes do planeta. Por mais que nos depreciemos, faz sentido a pergunta – quem teria feito melhor?

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