EDITORIAL – O «brasileiro» é um idioma autónomo ou uma variante do português europeu?

Imagem2Não é possível ignorar as diferenças entre o português europeu e o que é falado no Brasil; mas também não é sensato exagerá-las. Diferenças vocabulares existem dentro de Portugal e em todos os outros países – e o Brasil, grande como é, não escapa essa regra. No português formal as diferenças são mínimas; é na linguagem corrente que elas se tornam mais evidentes; é natural que, com um oceano de permeio, sem ligações telefónicas, sem televisão ou internet, a matriz implantada no século XVI tenha sofrido um desenvolvimento próprio. Uma deriva.

Note-se, no entanto, que os portugueses compreendem e aceitam sem hesitações o “sotaque”, as expressões populares que chegam do Brasil e adoptam muitas delas. Mesmo pessoas com a escolaridade mínima (principalmente essas), desde que as telenovelas brasileiras começaram a ser exibidas, passaram a usar termos brasileiros, substituindo o vernáculo europeu. Portugal não assume a arrogância do Estado espanhol que impõe as regras que a Real Academia Española estabelece para o idioma (verdade seja dita – mexicanos, argentinos, uruguaios, marimbam-se para o que Madrid estabelece).

Ouvimos dizer que filmes portugueses exibidos no Brasil, são legendados. Custa a acreditar que pequenas diferenças de sintaxe ou de ortografia impeçam os brasileiros de compreenderem a sua língua falada ou escrita de maneira um pouco diferente diferente. Esse é um dos motivos da inutilidade do Acordo Ortográfico. A ortografia pode ser unificada – fonética e sintaxe são imunes a acordos. Quanto a nós, trata-se de um falso problema – na linguagem e escrita formais as diferenças são mínimas e nem nos parecem maiores do que as existentes entre o inglês britânico e o falado nos Estados Unido. Aliás, o inglês é um bom exemplo – não existe nenhuma instituição reguladora do idioma. Oxford vai publicando os seus dicionários e são eles que estabelecem a maneira correcta de usar a língua.

Os brasileiros ou melhor, uma certa casta superior da sociedade brasileira, sempre conviveu mal com o facto de descender de um país pobre e, de uma forma geral, pouco desenvolvido. O Brasil é, em termos de rendimento per capita e de escolaridade bastante mais pobre e menos desenvolvido – mas é grande, um planeta e quase 200 milhões de falantes da variante brasileira, transformam-no  no maior país onde o idioma é falado. Segundo dados fornecidos à agência Lusa pelo Instituto  Camões, o português é falado por 244 milhões de pessoas em todo o mundo, sendo a sexta língua mais falada do globo, a quinta mais usada na Internet e a terceira nas redes sociais Facebook e Twitter. No site do Observatório da Língua Portuguesa, é explicado como se chega aos 244 milhões de falantes. Sendo a língua oficial de oito países: Angola (19,8 milhões de habitantes), Brasil (194,9 milhões), Cabo Verde (496 mil), Guiné-Bissau (1,5 milhões), Moçambique (23,3 milhões), Portugal (10,6 milhões), São Tomé e Príncipe (165 mil) e Timor-Leste (1,1 milhões). Porém, só em Portugal e no Brasil é contabilizada toda a população como falante de português. Em Timor-Leste,  apenas 20% dos habitantes falam português, na Guiné-Bissau 57%, em Moçambique 60%, em Angola 70%, em Cabo Verde 87% e em São Tomé e Príncipe 91%,  Os galegos, os criadores da língua não são considerados como seus falantes. Porém, deve contabilizar-se os emigrantes. As diásporas, somam quase 10 milhões de falantes de português, incluindo os 4,8 milhões de emigrantes portugueses e três milhões de brasileiros, segundo dados de 2010.

A língua portuguesa é ainda falada em locais por onde os portugueses passaram ao longo da História como Macau, Goa (Índia) e Malaca (Malásia). Segundo o Observatório da Língua Portuguesa, o português é a língua mais falada no hemisfério sul, com 217 milhões de falantes em Angola, Brasil, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. É a terceira mais falada e um estudo da Bloomberg considera-o a sexta língua do mundo mais utilizada nos negócios. Na Internet, a importância do português tem vindo a crescer, sendo hoje o quinto idioma mais utilizado, por 82,5 milhões de cibernautas. O número de utilizadores da Internet em português aumentou 990% entre 2000 e 2011. Nas redes sociais, no Facebook, o português é a terceira língua mais usada, por 58,5 milhões de utilizadores, a seguir ao inglês (359 milhões) e ao espanhol (142 milhões). A língua portuguesa foi a que mais cresceu naquela rede social, com um aumento de mais de 800% entre 2010 e 2012.

Segundo estimativas do Governo português, tendo em conta a evolução demográfica, com grande margem de progressão em Angola e em Moçambique, até 2050 o número de pessoas no mundo a falar português deverá aumentar para 335 milhões de falantes. Isto, se o Brasil não decidir deixar de chamar português ao idioma que um povo de gente burra lhe legou.

3 Comments

  1. Se, no Brasil, os filmes portugueses são legendados isso fica a dever-se à péssima qualidade dos actores intervenientes que, infelizmente, dum modo muito geral, têm uma dicção abaixo de cão, CLV

  2. Calma lá, violento! Nossos sotaques são muito diferentes, não há como compreendê-lo facilmente! Sem guerras de egos e certezas absolutas, por favor.
    Não sei se boas ou ruins, mas as mudanças já aconteceram e são uma realidade, como dizem por aqui: “Aceita que dói menos!” 🙂
    Se você não é capaz de compreender isto, convido-o a conhecer as periferias de São Paulo, só então entenderá estas muitas realidades, necessidades e, o pior, a utilização de uma ótima legenda.
    Fique em paz!

Leave a Reply