Nota de editor: este texto é a transcrição do vídeo do médico Gustavo Carona, noticiado pelo Correio da Manhã. O vídeo é apresentado no final do texto.
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Médico ataca negacionistas da pandemia e lança farpa a Cristina Ferreira
Testemunho de Gustavo Carona, médico intensivista do Hospital Pedro Hispano no Porto e membro da organização Médicos Sem Fronteiras
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Hesitei bastante se se deveria ou não fazer este vídeo. Não gosto de me filmar, não costumo fazê-lo, mas achei que era o momento de transmitir duas ou três mensagens importantes e vou passar a explicar porquê. Hoje convidaram-me do programa da Cristina Ferreira a ver se podia informar as pessoas ou informar um pouco sobre a experiência dos cuidados intensivos do Hospital, ao que respondi, terei todo o gosto em contribuir para a informação dos portugueses.
Acrescentaram que teria de ser no estúdio e eu disse que tenho algumas dificuldades, sou do Porto, estou ocupadíssimo, e por isso é impossível para mim neste momento deslocar-me a Lisboa. Acrescentaram ainda que gostariam que eu levasse a minha mãe para acrescentar à conversa, e eu de imediato percebi, e respondi: eu peço imensa desculpa mas é assim: eu tenho todo o gosto e interesse em informar as pessoas sobre a minha visão da medicina, sobre a minha visão do desafio que estamos a passar, sendo que não estou minimamente interessado em contribuir para telenovelas. Não tenho nada contra a pessoa, o programa, a produção. A minha indignação vem pelo facto de que isto é, de alguma forma, representativo da total desorientação que estamos a ver neste momento e a incompreensão da dimensão do desafio que estamos a passar.
Isto está a acontecer, isto não é tempo para contar historinhas, isto é tempo para informar. Eu acho que a mensagem mais importante em termos de saúde que é preciso fazer passar é aquilo que nós vemos muitas vezes por aí rebatido por pessoas que se dizem competentes para comentar a matéria respeitante a doentes não covid versus doentes covid.
É muito simples explicar isto. É como a teoria do cobertor. O Serviço Nacional de Saúde é um cobertor deste tamanho em que se houver um aumento de procura de doentes de um lado vamos destapar o outro, nós não conseguimos fazer o cobertor crescer a uma dimensão minimamente importante neste momento e o crescimento da pandemia vai destapar uma série de outras doenças. Já morreram 7.000 pessoas em relação ao período homólogo do ano passado, sensivelmente março-outubro de 2020 versus o mesmo período de 2019 e dos anos anteriores, e estas 7.000 pessoas não covid que morreram, morreram porque a pandemia existe, não morreram porque os médicos deixaram de ter interesse em tratá-las, e quem diz os médicos diz todos os profissionais de saúde.
O que é preciso também compreender, é que não só o cobertor se cresce de um lado destapa do outro, como também o Covid faz o cobertor diminuir, porque o consumo de recursos por doente em relação à pandemia é muito maior. É muito mais exigente em termos de estrutura física, é muito mais exigente em termos de recursos humanos, as pessoas não têm a mesma liberdade porque têm de se equipar, de se proteger. Se não o fizerem o que acontece? Ficam doentes, têm de ficar em casa, o cobertor ainda fica mais curto, e muitas têm arriscado a sua vida para virem trabalhar. Só para dar um exemplo, no Reino Unido morreram cerca de 600 profissionais de saúde nos primeiros meses da primeira vaga. Isto não é para dizer que temo pela minha vida, isto é para vos explicar que este desafio tem contornos nunca antes vistos e é preciso acreditar nas instituições e nas pessoas que sabem mais do que nós, eu inclusivé, para se perceber a saúde do ponto de vista global. E se nós desacreditarmos as instituições neste momento, tudo se transforma em caos, em desordem e é impossível conseguirmos o bem comum.
O que gostaria também de explicar às pessoas é que aquilo que está em causa, neste momento, é que nós estamos a começar a falar, a começar, ainda não está a acontecer, mas vai acontecer medicina de catástrofe, triagem em medicina de catástrofe. O que é que isto quer dizer? Conheço bem este conceito. Isto tem até alguma beleza na forma como é descrita, que é fazer o máximo pelo maior número de pessoas. Isto é bonito, não é? E é lógico, nós temos que pensar assim, principalmente em relação à saúde. Mas tem outra mensagem, que é: ao fazermos o máximo pelo maior número de pessoas estamos também a dizer que não vamos conseguir fazer tudo, estamos a querer dizer que há pessoas que vão morrer que não precisavam de morrer, nós vamos ter que fazer escolhas, quer Covid, quer não Covid, porque as estruturas de saúde, os profissionais de saúde, nomeadamente as pessoas mais diferenciadas, não se formam em dois dias, o seu número não vai crescer. Isto é um problema global, que está a acontecer em todo o mundo, não dá para ir fazer contratações a outro lado. Por isso, acontece que isto não só destrói psicologicamente as pessoas que têm de fazê-lo, e repito, sei do que estou a falar, como também nos obriga a tomar decisões que são impraticáveis quase para a saúde mental daquilo que nós queremos para a saúde dos portugueses e dos profissionais de saúde.
Isto vai acontecer. Se olharem para a curva, e a curva dos doentes internados não mente, os critérios são os mesmos, nós já estamos largamente à frente da primeira vaga, os cuidados intensivos vão certamente atrás, têm sempre um atraso porque esta doença é muito lenta, mas neste momento já é evidente que nós vamos para o dobro daquilo que foi o máximo da primeira vaga. Neste momento, se tomássemos medidas agora. Eu não tenho nenhuma posição política, nunca tive e espero nunca ter, porque não é essa a minha intenção. Eu sou médico, estou a pensar na saúde das pessoas. Não votei no primeiro-ministro, nem na primeira, nem na segunda vez, não tenho nenhuma simpatia especial pelas duas senhoras que têm representado a saúde em Portugal, mas tenho-lhes todo o respeito do mundo e, mais ainda, eu percebo que ninguém quereria ser decisor político, nomeadamente na área da saúde, neste momento.
É preciso uma grande coragem para estar a ser atacado permanentemente por ignorantes que não sabem rigorosamente nada e que querem transformar isto numa questão política, que não o é. Não é o momento para falar de esquerda ou de direita, a mim não me interessa quem está a mandar. Interessa-me, sim, respeitar as instituições porque nós demoramos muito tempo a construir a democracia, a construir um estado de direito, a construir a ordem que nos protege a vida a tantos, porque não queremos regressar ao tempo das cavernas. Por isso, se não respeitarmos as instituições, não estamos a respeitar a democracia, não estamos a respeitar a ordem, não nos estamos a respeitar a nós próprios. Isto não é uma apologia do medo, não estou a dizer às pessoas para ficarem com medo, para ficarem em pânico.
Isto é uma apologia da seriedade, isto é uma apologia do realismo, isto está a acontecer. Se nós não percebermos isto, se nós quisermos contar historinhas e ir atrás dos imbecis dos negacionistas e dos relativistas, e das teorias da conspiração, se nós quisermos ir atrás destes anormais, nós vamo-nos arrepender. Isto está a acontecer neste momento. Nomeadamente no norte do país, de onde estou a falar, mas isto vai acontecer em todo o país, mais tarde ou mais cedo. Se não levarmos isto a sério, isto vai rebentar. Isto é muito sério, não é tempo para questionar as autoridades de saúde, é tempo para respeitar as pessoas e as instituições que mais sabem sobre o assunto. Isto não se resolve nos hospitais, isto resolve-se a montante dos hospitais, antes dos hospitais.
Não há nada que possamos fazer nos hospitais para controlar a pandemia. É um problema de saúde pública, um problema da sociedade civil, é um problema do nosso comportamento coletivo. Nada que se possa fazer nos hospitais vai conseguir minimizar, apenas podemos amparar o enorme impacto que estamos a ter. Prometo-vos que tudo farei da minha parte, estou exausto, assim como os outros profissionais de saúde também estão cansados, física e psicologicamente, e é inacreditável que as pessoas não percebam a seriedade do desafio que temos à nossa frente neste momento, que, repito, é de todos nós. Não há nada que se possa fazer nos hospitais que substitua aquilo que tem que ser feito na sociedade civil, nas ruas, nas casas, nas escolas, nas empresas, que para funcionarem, e nós queremos que a economia funcione, têm que respeitar as regras, têm que ser mais rígidos que nunca, senão é certo que vamos todos para casa. Porque a última medida será o confinamento.
Torna-se óbvio que se a curva continuar com esta inclinação como está agora [subida em flecha] iremos todos para casa se não fizermos, já, tudo aquilo que temos que fazer para diminuir o impacto, que será sempre enorme, que esta pandemia está a ter na saúde e dos danos colaterais que está a ter.

