Covid-19: o “consenso” dos negócios? – 3. Ivermectina, ou de como as autoridades sanitárias negligenciam a prevenção do Covid-19. Por Francisco Tavares

3. Ivermectina, ou de como as autoridades sanitárias negligenciam a prevenção do Covid-19 

 Por Francisco Tavares

Em 7 de Abril de 2021

 

O vídeo (longo) que abaixo divulgamos merece que usemos algum do nosso tempo para o ver, e sobre ele refletir.

Trata-se de uma sessão de esclarecimento promovida pela ANF, divulgada em 10 de fevereiro de 2021, moderada por Carlos Enes, diretor-adjunto editorial da revista Saúda, e que integrou as seguintes personalidades:

Dr. Almeida Nunes, especialista de medicina interna no Hospital dos Lusíadas

Dr. António Ferreira, doutorado em medicina, internista do Hospital de São João (do qual foi presidente entre 2005 e 2016), investigador e professor da Faculdade de Medicina do Porto

Dr. António Pedro Machado, médico internista do Hospital Santa Maria

Dr. Germano de Sousa, bastonário da Ordem dos Médicos entre 1999 e 2004, especialista em patologia clínica e professor da Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa

Dra. Helena dias Alves, presidente do Colégio de imuno-hemoterapia da Ordem dos Médicos

Dr. Henrique Carreira, especialista em medicina geral e familiar

Dr. Pedro Ferreira, farmacêutico comunitário e vogal da ANF

Esta sessão destinou-se, fundamentalmente, a responder às “inúmeras dúvidas dos profissionais das farmácias que têm sido confrontados com um número crescente de prescrições médicas a solicitar a venda daquela substância” [Ivermectina].

 

Socorremo-nos do artigo publicado pela Visão em 27/02/2021, da autoria de Teresa Campos (Ivermectina: O que já se sabe sobre os benefícios contra a Covid-19 do medicamento antiparasitário, ver aqui), para dar conta, muito resumidamente, do que se trata.

Embora ainda sem consenso científico mundial, “há cada vez mais médicos convencidos de que aquela substância [Ivermectina] é uma solução segura e barata contra os efeitos do Covid-19 no nosso organismo”.

Germano de Sousa, bastonário da Ordem dos Médicos entre 1999 e 2004 está a usar pessoalmente a Ivermectina como profilaxia, referindo que “há já muitas evidências dos seus benefícios”.

António Ferreira, em Novembro de 2020, já tinha enviado uma carta às autoridades de saúde portuguesas pedindo a disponibilização daquele fármaco em regime de profilaxia e tratamento precoce do Covid-19.

A Ivermectina é um “medicamento antiparasitário aprovado para uso humano desde 1987 e que, em 2015, deu o prémio Nobel da Medicina a dois investigadores, o americano William Campbell e o japonês Satoshi Omura, pelas descobertas sobre o seu uso para combater infeções provocadas por parasitas. Em meados do ano passado, foi apontado em vários estudos clínicos como benéfico no contexto da profilaxia e tratamento dos primeiros sintomas da Covid-19. Disso deram conta também, naquele encontro, os demais médicos que o prescrevem a muitos dos seus doentes – nenhum com registo de hospitalização. “Mas há também resultados de 57 ensaios, todos bastante credíveis”, remata o Dr. António Ferreira”.

Já no final do ano passado um grupo de médicos americanos foi ouvido no Senado dos EUA, médicos esses que elogiaram o uso de Ivermectina e que acusaram o establishment médico e os organismos de saúde de não explorarem e promoverem o uso de medicamentos relativamente baratos previamente aprovados para outros usos como intervenções precoces contra o coronavírus. O senador Ron Johnson, republicano, que presidiu as audições, afirmou que “dezenas de milhares de pessoas perderam a vida” porque as agências governamentais se concentraram em soluções caras de “bala de prata” em vez de medicamentos já em uso para outras doenças”. “O Dr. Pierre Kory, especialista pulmonar do Centro Médico Aurora St. Luke’s, elogiou o Ivermectin como um “medicamento maravilhoso”. É usado para tratar infecções parasitárias, mas os Institutos Nacionais de Saúde recomendaram a sua não utilização para a COVID-19 fora dos ensaios clínicos” (ver aqui).

Estes profissionais de saúde portugueses que participaram no painel da ANF não são contra a aplicação de vacinas ou paladinos anti-ciência. Pelo contrário, como se pode observar no painel da ANF, são reputados profissionais médicos. Como diz o Dr. Almeida Nunes, este curto painel integra “vários locus daquilo que é o médico não só no nosso país, mas também no mundo: temos o clínico prático, temos o indivíduo que tem conhecimentos científicos mais do que outro, temos um bastonário … icónico da Ordem dos Médicos (…) não sou propriamente aquilo que se possa chamar uma besta científica, do ponto de vista médico. (…) Todos estamos aqui por uma razão essencial e primeira que é o bem-estar do doente, evitar esta mortalidade impressionante que o nosso país está a ter (..) estamos aqui [neste painel] porque somos humanistas e médicos e queremos salvar pessoas (…) nós não estamos aqui [par] a negar a ciência (…) eu não sou o Zé Maria pincel, também estudo as coisas (…) Obviamente que nenhum de nós que está neste painel sofre de feitiçaria nem é daquele género de indivíduo que faz uma mezinha lá no canto para conseguir tratar não sei o quê. Nós não somos imbecis! (…) Eu acredito que através da utilização precoce deste fármaco [Ivermectina], por um lado não vamos ter efeitos colaterais … e corremos um sério risco de evitar muita morbilidade e alguma mortalidade.”

Diz o Dr. António Ferreira na sua intervenção que de todos os estudos publicados ou em pré-publicação, se tem “o conhecimento de 37 estudos, dos quais são 19 são ensaios clínicos aleatorizados, e em todos esses ensaios, que abrangem todas as fases da doença, desde a prevenção antes da exposição ao vírus, passando pelo tratamento precoce, e chegando ao tratamento dos estados graves da doença em regime hospitalar, a ivermectina apresenta resultados positivos, perfeitamente coerentes entre todos os estudos, que são mais intenso, isto é, provocando maior redução dos outcomes, da mortalidade por exemplo, nas fases de menor gravidade e apresentando uma relação dos efeitos com a dose, dentro do intervalo terapêutico. Ora, isto são as características que tem um tratamento eficaz. Um tratamento eficaz para uma doença é mais eficaz nas fases precoces que nas fases tardias, sendo eficaz também, e muito, nas fases tardias, e tem habitualmente uma relação dose-efeito.(…) Mais, a probabilidade de haver 37 estudos (19 ensaios clínicos aleatorizados e os outros estudos observacionais) a apontarem todos no mesmo sentido é de um sobre muitos biliões. Portanto, a probabilidade de este conjunto de dados nos induzir em erro é baixíssima. E a que estamos a assistir simultaneamente? Estamos a assistir a um conjunto de diletantes, alguns nunca publicaram um artigo científico, ou têm um curriculum científico miserável, que evocam a evidência científica para se contraporem à evidência científica existente para a ivermectina. Ainda recentemente, o Instituto de Saúde publicou uma newsletter, a 4 de fevereiro, que defende que não há evidência científica para poder-se recomendar a ivermectina, mas que na sua análise inclui só 9 estudos. Em 4 de fevereiro havia 37 estudos publicados, 19 eram ensaios clínicos aleatorizados (…) É preciso termos a coragem de dizer: somos profissionais de saúde e somos cidadãos, temos o direito e o dever de exigir que a Direção-Geral de Saúde (…) e o Infarmed, autoridade do medicamento, … analisem os dados e se pronunciem sobre eles. Não chega, não chega a omissão covarde e negligente de fazerem de conta que não há dados disponíveis e não se pronunciarem. Porque isso configura negligência. A Senhora Ministra da Saúde, o Senhor Secretário de Estado Adjunto e da Saúde, a Senhora Diretora-Geral da Saúde e a Senhora Presidente da Comissão Parlamentar da Saúde, têm desde 15 de Novembro, enviado formalmente, … já lá vão 3 meses, toda a evidência disponível para se discutir a utilização da ivermectina em quimioprofilaxia e em tratamento domiciliário precoce. E continuam a recusar-se e a recusar promover que as entidades oficiais discutam este assunto. Se os responsáveis pelo Infarmed e pela Direção-Geral de Saúde não querem assumir com coragem esta discussão e tomarem a decisão que muito bem entenderem, (…) se são suficientemente covardes, negligentes e omissos neste aspeto, então só têm uma possibilidade, que é demitirem-se. Porque não estão a cumprir aquela que é a sua obrigação estatutária, formal e profissional. (…) Estamos a assistir à morte de 200 a 300 pessoas por dia, resultado de erros das autoridades de saúde, é claro, … e não estamos sequer a discutir medidas terapêuticas que podem evitar essas mortes. E isto configura omissão de dever e negligência”.

Segundo o Dr. António Pedro Machado (internista do Hospital de Santa Maria) “os médicos não devem e os doentes não podem esperar pela evidência perfeita quando mais de 1.000 portugueses morrem a cada quatro dias… A Ivermectina é um medicamento seguro, com uma experiência de quase meio século na sua utilização em crianças a partir dos 5 anos, faz parte dos 100 medicamentos essenciais da OMS. Ahh, mas é um antiparasitário… [mas] eu contraponho: tratei e trato os meus doentes com Varfarina, um anticoagulante, é um medicamento para matar ratos! (…) é sempre assim, quando algo aparece contra o conhecimento vigente ou opinião dominante, é um outsider. Nós temos dados de segurança e de eficácia da Ivermectina, de um enorme, enormíssimo potencial terapêutico que suportam a sua utilização na prevenção e no tratamento dos doentes que já estão com uma expressão significativa da doença [Covid-19]. O grande ganho não é tratar os indivíduos quando eles estão em cuidados intensivos … a linha da “frente” dos hospitais tem que ser a retaguarda, a linha da frente está sempre na prevenção, e nós não estamos a fazê-lo. Este processo em torno do dossier da Ivermectina é grave, até porque viola alguns princípios éticos que se aplicam às atividades forenses. Primeiro, viola o princípio da beneficência que é a obrigação moral de atuar em benefício dos outros. Nós avaliamos os benefícios e pesamos com os riscos. Quais são os riscos da Ivermectina? O risco é de não a dar. Benefício potencial, isto faz-me lembrar aquela história de dois amigos que estão na praia e está um adulto a afogar-se. E há um indivíduo que vai buscar uma boia de criança que pretende lançar ao adulto que se afoga. E os amigos dizem-lhe: não, não pode lançar essa boia! Não posso porquê? Porque não está provado que uma boia de criança salve um adulto, precisamos de evidência, precisamos de fazer uma avaliação, precisamos de mais informação. E o indivíduo afogou-se. (…) Mas o que está por detrás não é a procura de evidência perfeita, eu penso que há outras coisas por detrás. Não quero chamar interesses, mas isto para mim não é muito claro (…). Também estamos a violar o princípio da não-maleficência, mas aqui por omissão. Eu tenho um medicamento que tem um potencial de prevenir a doença e até de tratar quando já estão doentes. Ao não usá-lo estou a causar mal aos meus doentes (…) Relativamente à minha experiência (…) tenho imensos utentes a fazer profilaxia com Ivermectina e até agora não tive um único caso (…) que tenha adoecido e infetam-se naturalmente, estou a falar de dezenas (…). Porque é que digo que é bom [a Ivermectina]? Eu dou-me ao trabalho de ler os ensaios, acompanho. O mecanismo de ação da Ivermectina é fantástico. A Ivermectina tem três mecanismos de ação: um pelo qual tem o efeito antiparasitário… que não tem nada a ver com o mecanismo de ação pelo qual inibe a multiplicação do vírus, a replicação viral; e depois tem um terceiro pelo qual previne esta resposta inflamatória inadequada, exagerada, a tal tempestade de citoquinas… que é o que está na origem, na base da pneumonia. Não é o vírus que causa diretamente a pneumonia, como uma bactéria causa a pneumonia bacteriana. É uma resposta anormal de indivíduos que têm fatores de risco para ter essa resposta anormal. As crianças não fazem, felizmente a maioria dos adultos não faz (…). Nós temos que atuar a montante… E o que é atuar a montante? Fazer a profilaxia com a Ivermectina. Ahh, mas não há grandes certezas. É a história da boia… Atuar tão precocemente quanto possível…

Segundo o Dr. Pedro Ferreira “somos todos homens e mulheres de ciência, mas acima de tudo somos todos humanistas e pessoas de causas… não se resolve uma pandemia com uma panaceia, a Ivermectina é um dos instrumentos que nos vai sem dúvida ajudar a resolver esta pandemia, há felizmente mais fármacos a caminho…(…) Como é que se aprova um medicamento? São 3 fases, … a primeira diz quantas vezes e em que doses é que tenho que administrar um medicamento, a frequência… chama-se fármaco-cinética. A segunda fase é a fase da eficácia. O que quero tratar… estudos de eficácia. A fase três são os estudos de segurança. Por norma, na medicação crónica, pelo menos 1.500 doentes ao longo de um ano, ano e meio. As pessoas que falam de evidência científica, falam utilizando uma margem estreita que lhes é permitida, que é a margem da eficácia. Porque a segurança da Ivermectina está mais do que estabelecida (…) Falta o quê? Falta estabelecer a eficácia da Ivermectina na infeção por SarsCov-2. E porque é que não se estabelece? Porque não há evidência suficiente. E porque é que não há evidência suficiente? Porque não se fazem ensaios clínicos. E porque é que não se fazem ensaios clínicos? Porque não há dinheiro para os sustentar e os pôr em prática. E andamos aqui com uma pescadinha de rabo na boca (…) com argumentos … que são quase marginais ao centro da discussão, que é atacar um problema gravíssimo de saúde pública a nível mundial que se transformou num problema económico, e que traz, não só a morte, mas também a pobreza às pessoas. É neste contexto que eu aceito um nível de incerteza que é mais do que suficiente para utilizar de forma massiva um fármaco que, por acaso, não teve ainda o tempo, infelizmente o investimento humano, técnico-científico, monetário, não teve a sorte de outros medicamentos, como por exemplo o Remdisivir ou outros, que têm laboratórios com muitíssimo dinheiro para rapidamente se fazer o que se fez com esse medicamento, ou com as vacinas. Porque as vacinas foram aprovadas num ano e meio. Portanto, o que falta aqui é vontade, dinheiro, e motivação suficiente para se chegar com a Ivermectina aos estádios onde se chegaram com outros medicamentos. (…) A única coisa que falta, muito sinceramente, é vontade.

Também não podemos de deixar de prestar atenção aos seguintes factos:

  • O laboratório Merck, fabricante da ivermectina, emitiu um comunicado em Fevereiro afirmando “a ausência de provas de quaisquer mais-valias na prevenção ou tratamento da Covid-19”.
  • Este fabricante já não tem direitos de patente sobre o medicamento, que expiraram em meados dos anos 1990.
  • Em Dezembro último foi divulgado que a Merck assinou um acordo com o governo dos Estados Unidos para o fornecimento de entre 60.000 e 100.000 doses de um medicamento experimental a ser testado como tratamento de pacientes gravemente doentes hospitalizados com COVID-19, a troco de 356 milhões de dólares (ver aqui) .

 

Viajando pela internet a propósito do uso, ou não uso, da Ivermectina na profilaxia e tratamento do Covid-19, rapidamente se constata a inexistência de consenso, nomeadamente por parte das autoridades de saúde, sobre o assunto. A polémica centra-se essencialmente em torno da sua eficácia. Aliás, o artigo acima citado da jornalista Teresa Campos, da Visão, relata várias das posições divergentes, assumidas por profissionais e autoridades dos EUA.

Todavia, a Eslováquia já aprovou formalmente, em Janeiro passado, a utilização da Ivermectina para a profilaxia e tratamento do Covid-19 (ver aqui).

Como referi na introdução a esta mini-série de textos, estamos “perante uma matéria que ainda não é consensual e gera polémica entre os especialistas e profissionais de saúde, e em torno da qual também não se pode ignorar que se movem poderosos interesses da indústria farmacêutica”.

Há que dizer que a acusação, por parte de especialistas, de que os estudos até agora realizados sofrem de informações incompletas e limitações metodológicas significativas ou graves, não parece ser objeto de suficiente clarificação no debate apresentado no vídeo.

No entanto, o vídeo que aqui deixamos com reputados profissionais portugueses é largamente sugestivo. Se a aplicação deste medicamento em centenas ou milhares de doentes se tem revelado totalmente segura e com resultados bem positivos, até quando devemos esperar pelas evidências ditas suficientes ?

Dito de outra forma, porquê o silêncio das autoridades perante a dúvida pública com uma análise científica sobre o tema? Demonstrando um sim ou um não ou uma ausência de conclusão. É tão grave esse silêncio como é grave a oscilação à volta das vacinas que mais cheira a manipulação política, o Brexit, a pressão de lóbis, a AstraZeneca custa um décimo da Pfizer, e isto mais cheira a pressão financeira do que a outra coisa. E já agora quais foram os testes científicos que levaram à aprovação do famoso Remdesivir da Gilead? E qual era a sua eficácia? São os resultados entre Remdesivir e Ivermectina semelhantes? E houve o mesmo rigor extremo que se verifica com a Ivermectina? Seria então conveniente que tudo sito se esclarecesse. É a saúde pública que está em jogo.

 

Eis o vídeo (disponível em : https://youtu.be/9McHuPksE0o)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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