FÈLIX CUCURULL – UM AMIGO, UM GRANDE ESCRITOR E UM LUTADOR PELA CAUSA DA INDEPENDÊNCIA DA CATALUNHA – por CARLOS LOURES
joaompmachado
(1919 – 1996) Obrigado a Nova Tàrrega
(1937 – 2022)
O escritor Manuel de Seabra, que parava pelos fins de tarde na cave do Café Martinho, pusera-me em contacto com um grupo de jovens poetas que, em Palma de Maiorca, editava a revista Ponent – dirigida por Llorenç Vidal, poeta e professor maiorquino, acérrimo defensor da não-violência (recente candidato ao Prémio Nobel da Paz). A revista era publicada em catalão, ou melhor, na variante balear do idioma. Os portugueses e luso-falantes, em geral, eram traduzidos por Fèlix Cucurull, escritor que eu conhecia por ter lido O Último Combate na prestigiada colecção “Miniatura”. Ver artigos e poemas meus traduzidos por Cucurull foi um pouco como se Camus ou Hemingway se tivessem dignado vertê-los para francês e inglês.
Foi, salvo erro, no Verão de 1990, que Llorenç Vidal me informou de que Fèlix Cucurull chegaria em breve a Lisboa para, com bolsa da Fundação Gulbenkian, proceder a um estudo sobre o “homem português e o mundo do trabalho”. Os amigos de Palma de Maiorca facultaram-lhe o meu contacto e um dia, após um telefonema, fui visitá-lo ao pequeno hotel da rua Alexandre Herculano. Começou aí uma amizade que perdura na minha memória.
Levámos a cabo muitas iniciativas conjuntas. Quando, em Vila Real, em 1962, fui um dos coordenadores da revista Setentrião (com António Cabral, Eurico de Figueiredo, Eduardo Guerra Carneiro, António Barreto …), a ajuda de Cucurull foi enorme – escrevendo, traduzindo, informando. Em Tomar, onde com Manuel Simões e outros “meliantes” editámos num pachorrento semanário local um suplemento cultural com o elucidativo título de Labareda, Fèlix Cucurull prestou uma inestimável colaboração (fez várias visitas a Tomar, ficando sempre em minha casa).
Claro que os bombeiros do costume extinguiram a Labareda. Nós passámos logo a outra iniciativa incendiária – sessões cinematográficas com filmes escolhidos a preceito, debates com gente de que Salazar não gostava – Vasco da Gama Fernandes, Alves Redol, Fernando Namora, Fèlix Cucurull. Na verdade, nós não queríamos ser candidatos ao Prémio Nobel da Paz.
Com Manuel Simões e com o já falecido Júlio Estudante, fui um dos responsáveis pela colecção Nova Realidade – começámos com uma colectânea de José Afonso – Cantares; mas Cucurull não podia deixar de colaborar. E a colecção integra uma novela sua, Quase Uma Fábula. Surgiu porém um problema: Fèlix cortara relações com Seabra. Dez anos de trabalho solidário, de iniciativas arriscadas e de uma piromania interminável, conferiam-lhe o direito de me exigir que fizesse a tradução. Muito bem. Mas havia um pormenor – eu não sabia catalão!
Provido dos elementos indispensáveis – bons dicionários, gramática histórica… quase todos os dias enviava por correio meia dúzia de páginas. Cucurull elogiava sempre o meu trabalho, não deixando de corrigir os erros. Assinei com pseudónimo e vinguei-me no prefácio, não poupando os primos do nosso João II que, abusivamente, chamaram Espanha à união dos seus reinos.
A cena repetiu-se com Dois Povos Ibéricos. Traduzi muitas dezenas de livros – mas de línguas de que fiz estudos regulares. Esta excelente obra foi o trabalho de tradução mais difícil que fiz. Não podia dizer que não a Fèlix Cucurull. Em 1974, percorri com ele a via sacra dos pequenos partidos, apresentando-o a alguns “líderes carismáticos”. Foi particularmente interessante a conversa que, durante horas, manteve com Carlos Antunes. Mas a partir de então poucas vezes nos encontrámos. Em Agosto de 74, num dia de grande tempestade, fui com os meus filhos a sua casa, em Arenys de Mar. Fomos trocando correspondência, mas a última vez que estivemos juntos foi durante o II Congresso dos Escritores Portugueses, em Março de 1982.
Nas pausas, trocámos opiniões. Partilhámos as reservas e desilusões que tínhamos sobre a “democraticidade” da democracia representativa – quer no Estado espanhol, quer em Portugal, franquismo e salazarismo foram substituídos por oligarquias de duvidosa inspiração democrática. As reservas foram confirmadas pelos consabidos escândalos financeiros. Lembro-me de termos comentado até que ponto a Revolução portuguesa e a “transição” do Estado espanhol tinham resvalado para uma situação moralmente repugnante – basta ler as suas obras finais para perceber que a permanência da Catalunha como “região autónoma” de uma monarquia ridícula, nada tinha a ver com o seu sonho de uma pátria livre e democrática. Quando proferiu a sua palestra em Tomar, terminou-a com as palavras: «A Catalunha espera». Em catalão, em castelhano e em português, esperar significa “ter esperança” – mas enquanto nos outros dois idiomas esta acepção é a mais corrente, em português ‘esperar’ tem como acepção prioritária um significado menos poético – esperar é aguardar. Esperamos que o comboio chegue e temos esperança em que não chegue atrasado. Esperamos o dia em que os catalães decidam ser independentes e temos esperança em que esse dia não esteja longe.
(Texto lido – por doença do Autor – em 20 de Abril de 2017 na Sociedade Portuguesa de Autores, no “Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor” e na apresentação da 2.ª edição de “Dois Povos Ibéricos: Portugal e Catalunha”, de Fèlix Cucurull)