FÈLIX CUCURULL «DOIS POVOS IBÉRICOS, PORTUGAL E CATALUNHA» – UMA LEITURA POR MANUEL SIMÕES

 

A recente reedição desta colectânea de ensaios de Fèlix Cucurull (1919-1996), cuja primeira edição portuguesa, com excelente tradução de Carlos Loures – agora também reproduzida -, data de 1975, dá-nos ensejo para algumas reflexões sobre um livro que aborda as relações culturais entre Portugal e a Catalunha, estudando as características comuns aos dois povos ibéricos.

 

Fèlix Cucurull foi um escritor e político catalão. A sua actividade política ficou marcada pela luta no sentido de recuperar o catalão como língua de cultura e de reivindicação dos direitos políticos do povo catalão. Residiu em Portugal, com bolsa da Fundação Gulbenkian, entre 1963 e 1965, para investigar sobre “o homem português através da literatura e na sua realidade quotidiana”. Parte da sua obra foi publicada em Portugal, designadamente as novelas O Último Combate, O Silêncio e o Medo, O Deserto ou Quase uma Fábula, e o livro de poesia Vida Terrena.

 

Dois Povos Ibéricos (1.ª edição catalã, 1967) reúne vários trabalhos que elaborou essencialmente durante a investigação em Portugal, e diga-se desde já que Fèlix Cucurull se revela um estudioso que fundamenta o seu discurso nos textos que pacientemente consultou: basta referir as 294 notas elucidativas da enorme bibliografia utilizada. De particular interesse é o capítulo sobre “Portugal, a Catalunha e o Iberismo”, evidenciando o papel de Joan Maragall (1860-1911) a favor do íntimo convívio de todas as nacionalidades ibéricas, e que, do lado português, encontrou a empatia de personalidades como Antero de Quental, Magalhães Lima ou Teófilo Braga, provavelmente porque a ideia federalista parece encobrir, sobretudo do lado catalão, a aspiração latente do separatismo. A mesma forma de resistência que motivou os simpatizantes portugueses do iberismo ainda na segunda metade do século XX, visível em textos publicados na revista A Península nos anos 60/70, por exemplo. Mas outras vozes, talvez menos conhecidas, são aqui evidenciadas, como as dos lusófilos Ignasi Ribera i Rovira, que organizou a antologia de poetas e prosadores portugueses (Poesia i Prosa, 1901), e Julio Navarro y Monzó, que publicou em Lisboa o volume de 643 páginas, Catalunha e as Nacionalidades Ibéricas (1908), concebido para chamar a atenção dos portugueses para o problema nacional catalão.

 

Capítulo deveras importante, pela amplitude da investigação, é o que tem por título “Considerações acerca da saudade”. É um estudo bem documentado em textos literários desde a lírica galego-portuguesa (a “cantiga de amigo”) até ao século XX, com maior atenção aos conceitos de sebastianismo e de saudosismo e às propostas de Teixeira de Pascoais, sobretudo quando escreveu: «o Portugal de Camões, a Galiza de Rosalía, a Catalunha de Maragall, são os três reinos da saudade». Fèlix Cucurull, baseado nas informações que colheu, afirma, em síntese, que «durante alguns séculos se acreditou que a saudade era um sentimento sem equivalência fora do âmbito galaico-português. Portanto, a palavra saudade não era susceptível de tradução» (p. 133).

Este lugar-comum prevalece ainda nos nossos dias, produto de um empirismo nacionalista (e alguma ignorância), embora Carolina Michaëlis de Vasconcelos tenha apontado como equivalentes, a Sehnsucht alemã e a enyor / enyorança catalã. Na sua investigação, Cucurull encontra o testemunho de Jacint Verdaguer, o qual, num poema de 1884, introduz a ideia de que «enyorança é uma palavra intraduzível que corresponde a um sentimento tipicamente catalão» (p. 134), o que representa uma atitude igual à dos portugueses relativamente à saudade. O autor de Dois Povos Ibéricos advoga, com razão, uma identidade de conceitos entre os dois termos, limitando, é claro, a sua análise a Portugal e à Catalunha. Na verdade, alargando a investigação, o mesmo se poderia dizer do francês nostalgie, do italiano nostalgia ou do russo nostalghia, por exemplo, só que nestes países estes termos não encontraram um veículo de transmissão como o fado e instrumentos paralelos (tradicionalismo, decadentismo, etc.) que fazem da saudade a palavra mais banalizada no uso quotidiano da língua portuguesa.

 

One comment

  1. Carlos A P M Leça da Veiga

    Ibéricas, nunca. Hispânicas, sim. Todos somos hispânicos e nenhum é espanhol. CLV

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