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CARTA DE BRAGA – “Mafalda e os dramas actuais” por António Oliveira

 

Li, há já alguns dias, que Jean-Luc Godard afirmava frequentemente que, cada enquadramento da câmara era uma lição de moral, referindo, penso eu, a toma e a dimensão do plano, a iluminação e a atenção dada a todos aqueles pormenores, os que fazem um realizador, e não um perito do ‘corta e cola’, que apesar da sua especialização, terá sempre a presença do realizador, para conseguir a validade das tais lições de moral.

Outro grande mestre da realização cinematográfica, o realizador italiano Ettore Scola, também dizia uma outra frase por muitos considerada até como uma enorme charada, ‘O cinema é um espelho pintado’, talvez por revelar e reflectir as coisas boas e menos boas da vida, mas sempre com as cores da caixa de tintas do realizador.

O malogrado filósofo Walter Benjamin, atribuía o mesmo efeito ao modo como se olha um mapa, por nunca se poder olhar para ele inocentemente, e talvez por isso, quando visitou a União Soviética, pouco tempo depois de ela ter nascido como realidade política, não se esquivou comentar que o único rival da imagem de Lenin, infinitamente repetida, teria sido o mapa da nova URSS.

Sabemos aliás, que quando um país se atribui um mapa, pretende apenas marcar e definir ‘a sua verdade política’ e, se em frente de um Atlas, considerarmos esta a maneira como se olha o nosso mundo, também veremos na presença de um grande fornecedor de histórias políticas, mas acima de tudo, humanas.

Histórias que as diferentes ‘verdades’, sempre dependentes dos líderes, que cada país ou comunidade se vêm obrigados ou se impõem seguir, também estão a transformar aquele Atlas num repositório de histórias dramáticas e sinistras, que os Anais Históricos de cada povo, podem mostrar à saciedade. Aliás o escritor e jornalista Garrido Pascual escreveu há uns dias no Diario16, ‘Estamos a assistir ao extermínio de milhares de homens, mulheres e crianças em directo, mesmo à frente dos nossos olhos. Os números são insuportáveis, monstruosos, e ante tal horror acabam-se os adjectivos. Não há palavras’.

E, na reportagem de um canal lá de fora, mostrando os ‘comboios’ de gente a fugir desses sítios e de mais alguns com outra, mas igualmente poderosa, carga dramática as inundações provocadas pela alteração climática alguém perguntava ‘Como podem fazer-nos isto, se são nossos irmãos?’, pergunta a que a afirmação do director de uma organização internacional de ajuda humanitária, serviria bem como resposta, ‘Convertemo-nos num rebanho que só segue, sem saber a quem nem porquê’.

Enquanto tudo isto nos está a afectar, ‘Aqui, nesta bem pensante e confortável Europa, solidária, diplomática e carregada de boas intenções, espreitamos o horror durante um poucos minutos, entre um serviço informativo e um jogo de futebol, ou o último episódio de uma qualquer série, que não podemos perder’, afirma também Garrido Pascual, mesmo sabendo, que o mais perigoso da violência, é a sua utilização para conseguir mais violência ainda.

São inúmeras as vozes que se levantam em todo o mundo, contra quem estará atrás destes tristes espectáculos, augurando futuros de iguais ou maiores dimensões. A este propósito, escreveu o filósofo e sociólogo Daniel Innerarity num grande jornal europeu, ‘Como o ofício de profeta está desacreditado, são precisas as imperativas consciências vivas de um bom contemporâneo, que na academia, nos media, na política e nos mais diversos ofícios, veja as ausências, escute os silêncios, assinale as carências e se adiante ao que poderá acontecer’.

Havia, já lá vão uns anos, uma deliciosa e simpática menina, Mafalda, que ‘analisava’ os problemas sociais, com sentenças que se tornaram universais, uma criação do cartoonista argentino, Quino. Talvez este pequeno conjunto de desenhos me dê a deixa para fazer também um pergunta

Um senhor bem vestido, olha para um jovem hippie, cabelo a barba grande e calças boca de sino, e exclama em voz  bem alta, ‘Isto é o acabou-se!’ e a Mafalda, no último dos bonecos, responde calmamente ‘Não exagere. É só o continuou-se do vosso começou-se!

Quem, nesta crise mundial, se atreverá a fazer de Mafalda, e quem terá a coragem e a honestidade de a enfrentar?’

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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