CARTA DE BRAGA – “de livros e confinamentos” por António Oliveira

Estamos fartos. Queremos bibliotecas, não casas de apostas

Pendurado’ neste slogan, um grupo de jovens, carregando sebentas e livros, pertencentes à juventude do ‘Podemos’, invadiu as casas de apostas na capital espanhola para poderem estudar.

Num vídeo passado nas redes sociais, faziam crítica às bibliotecas, por autorizarem apenas cinquenta por cento da capacidade e encerrarem às vinte horas, enquanto as casas de apostas permitem sessenta por cento e estão abertas até à meia noite.

Não há qualquer dúvida de que, se a democracia autoriza a vigência de um inegável relativismo moral e permite a simultaneidade de diversas concepções de sociedade, tal relativismo não pode ser defendido politicamente.

É por isso que assistimos permanentemente aos conflitos entre moral e política, embora, desde Aristóteles, seja perfeitamente estabelecida a diferenciação entre a decisão motivada pela moral privada ou local, da decisão motivada pela decisão política, referente à esfera pública.

Houve alguém que escreveu um dia ‘A moral agita-se sempre quando se está na oposição e a política quando se está no poder’ e este aforismo pode perfeitamente aplicar-se a este ou a outro exemplo qualquer da nossa vida quotidiana, mormente nestes tempos de confinamentos, a incluir dias que nos são particularmente queridos.

E evocando Scott Fitzgerald, ‘O momento mais solitário da vida de alguém é quando vê o mundo inteiro desmoronar e tudo o que você pode fazer é olhar para o nada’.

Tudo porque temos vivido, nestas últimas dezenas de anos, num ambiente em que a cultura está profundamente relacionada com a identidade, com a valorização do individual sobre o colectivo, com o negócio sobre o interesse social, seguindo-se aliás, os princípios e regras do neoliberalismo.

Isto também pode ser encarado como uma versão extrema do utilitarismo, onde uma e qualquer acção é moralmente correcta, quando os seus resultados são superiores, até mesmo aos desejáveis por todos.

Nestes tempos de isolamentos e perante tal cenário, é absolutamente necessária uma cultura do social, do público e da expressão criativa, para se poder fazer face às normas e produtos normalizadores, com que somos ‘agredidos’ cada dia e das mais diversas maneiras.

Na realidade e se pensarmos bem, só a cultura do colectivo e do público como social, nos pode proporcionar como necessidade absoluta, a verdadeira oposição ao caos onde vivemos, onde é evidente que há muita gente que se aproveita das ‘vantagens’ decorrentes da existência de um bicho minúsculo, ‘coronado’ e nojento.

Nota a propósito (dos jornais)

– Os principais bancos destinaram 2,6 biliões de dólares a actividades que destroem o planeta – combustíveis fósseis, deflorestação e indústria mineira;

– As grandes fortunas mundiais, incrementam a sua riqueza em 27,5% depois dos confinamentos, e acumulam um novo máximo de 8,7 biliões de euros.

 

Quem se atreve, agora e com estes números, a pedir para se agarrar um livro, ou rever o número dos leitores numa biblioteca?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

3 Comments

  1. Meu bom amigo, obrigada por prencheres estes minutos do meu dia com algo que me enriqueça e faça pensar e até, ( por que não?) desesperar?Escreves o que constatamos no nosso dia a dia, neste universo global sem rumo, constatamos a nossa impotência, mas se virmos bem, é o pensamento renovado que faz o alerta! OBRIGADA por isso! Xi-coração para vós!

  2. O teu comentário não fugiu, eu é que o tardei a abrir!
    São as pequeninas coisas dos nosso dia a dia, as notas de gente que merece ser lida, que nos voltam a situar outra vez neste nosso ‘pequeno mundo’, o dos que nos são queridos e de quem dependemos e de nós dependem também.
    Que seria de nós sem essas coisas, pequenas embora?
    Abração para vocês!
    A.O.

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