CARTA DE BRAGA – “do movimento e da imitação” por António Oliveira

Os resultados assombrosos da investigação para a Organização Mundial da Saúde, feita por quatro cientistas durante 15 anos e envolvendo mais de um milhão e meio de jovens de 145 países, apontam para medidas apropriadas por parte de pais e educadores.

De acordo com o estudo, 78% dos rapazes e 85% das raparigas, entre os 11 e os 17 anos, não fazem o exercício mínimo recomendado, que não é mais do que uma mísera hora de movimento cada dia.

Não se lhes pede que façam desporto, mas acontece que nem sequer caminham, porque a única coisa que fazem é estar sentados com um ecrã à frente.

Afirma uma jornalista, num comentário a propósito destes números, que tem medo de poder chegar a ver a raça humana, dentro de pouco tempo, com dimensões baleato-elefantinas, gorda e de pernas atrofiadas, com o traseiro maior do que o assento, a mastigar pizas de chouriço artificial, feito com pasta de medusa.

Passando o possível anedótico e caricato da afirmação, não é despropositado relembrar a impagável figura de Mafalda por ter afirmado com a sua ‘sabedoria’ inesgotável, ‘a vida moderna tem mais de moderna do que de vida’.

Esta questão é mais uma a juntar ao actual e grave problema da civilização ocidental, europeia e ‘moderna’, mas a saber e a ver diminuída a sua importância no mundo, até por ter também uma população envelhecida, apesar de sermos apenas cerca de 7% da população mundial e hoje, com o esplendor passado em afundamento progressivo.

Não pretendo envolver-me nestas questões mas, tão só, chamar a atenção para o que aqui escrevo (limito-me a resumir problemas que já outros levantaram) e que a curto prazo, nos podem transformar num museu geriátrico, encostado a outro de gente a precisar de dietas rigorosas, para pôr de lado o fast-food onde foi iniciada ainda no colo dos progenitores.

A crise alarga-se a todas as culturas e sociedades, por ter desaparecido, ou ter sido posta de lado, a maioria dos valores universais, porque, afirma a filósofa norte-americana Martha Nussbaum ‘é provável que as interacções humanas sejam agora mediadas pelas regras frágeis do mercado, no qual as vidas humanas são vistas, acima de tudo, como instrumentos para o lucro’.

E garante o escritor e membro da Academia Francesa, Amin Malouf, ‘Estamos num mundo algo inquietante, sem mecanismos para sair da crise. Ninguém tem autoridade moral. Não há nenhuma grande figura, nem ideologia comum, nem um grande país que imponha verdadeiramente uma autoridade moral’.

Todas as alternativas terão de se basear no conhecimento, tanto quando possível concreto, da realidade, até porque, voltando a Nussbaum ‘o conhecimento nunca é garantia de bom comportamento, mas a ignorância é garantia quase certa de mau comportamento’.

Tudo porque ‘o homem deslizou na direcção de um universo derivado, de um mundo de subprodutos em que a ficção adquire as virtudes de um dado primordial’ garante Cioran e isto é particularmente grave a ver pelos números acima porque, ainda Cioran ‘uma civilização revela-se fecunda pela faculdade que tem de levar outros a imitá-la; se deixar de as deslumbrar, reduzir-se-á a uma soma de fragmentos e vestígios’.

Não me parece muito apropriada a imagem de uma gente com dimensões baleato-elefantinas, gorda e de pernas atrofiadas, mas é o que, brevemente e a continuar assim, se poderá arranjar!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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