CARTA DE BRAGA – “de colts e crenças” por António Oliveira

O jornalista Rafael Nadal conta uma conversa com o general Alexánder Lébed, candidato à presidência da Rússia em 1996, em que militar teria afirmado ‘O mundo era um caos, até Colt ter inventado a democracia’. Perante o espanto dos jornalistas que também participavam na entrevista, o tal general explicou ‘Samuel Colt, o que inventou o revólver mais popular dos filmes do Oeste, onde só mandavam os mais fortes; mas Colt deu uma oportunidade aos mais fracos e igualou as coisas. É indiscutível que ele inventou a democracia!

A acreditar nas palavras do jornalista, publicadas e conhecidas em Espanha pelo livro ‘Los Mandarines’, (acessível por e-book), não posso deixar de trazer para aqui, uma das afirmações mais citadas do apontado como criador da ‘Nouvelle Vague’, o produtor e realizador francês Claude Chabrol, ‘A estupidez é infinitamente mais fascinante do que a inteligência. A inteligência tem os seus limites, a estupidez não’. 

Estamos a atravessar uma época onde as ‘interpretações’ que se fazem da história, potenciadas por todas aquelas aplicações que cada vez têm mais fiéis seguidores na net, aliás consumidores entusiastas das chamadas redes sociais, se constituem como marketing, atribuindo maior importância e rendimentos políticos aos ‘intérpretes’, que a todos os outros que se sentam nos parlamentos nacionais ou internacionais, aliás também descredibilizados ao mesmo tempo, por eles e não só! 

O mesmo tempo em que as consequências sociais e económicas das guerras se vão ampliando, juntando-se à crise climática e à energética, sem podermos fazer nenhum apelo a qualquer ‘herói’ igual ou parecido a Clint Eastwood, ou a um matulão como John Wayne ou a um mal vestido como Trinita, os três peritos no manejo dos colts, para podermos igualar as coisas, de acordo com as afirmações do tal general, que até foi candidato à presidência da Rússia, apesar de lá nem haver um Oeste, com malfeitores a escaparem a cavalo, de xerifes corruptos. 

Se calhar até foi por causa disso, que as coisas só pegaram a ocidente!

Para Manuel Castells, num ‘La Vanguardia’ de Julho passado, ‘As lengalengas a defender a democracia, não chegam para poder calar o descontentamento popular dos cidadãos imobilizados, empobrecidos e assustados, sem entender como tudo isto começou, que logo culpabilizam os políticos de tudo o que lhes acontece’. Um processo de difícil solução, que deve mesmo ser intentada, mas sem recorrer aos colts

O sociólogo alemão Max Weber, que marcou a política europeia entre o século XIX e XX, situou grande parte dos seus ensinamentos no dilema moral existente entre a responsabilidade e a convicção, atribuindo a primazia à responsabilidade, a natureza própria da política, a fim de poder dar respostas a qualquer alteração da realidade, até porque a convicção moral do político, não pode antecipar o combinado das conjunturas com as soluções possíveis. 

Aliás, Max Weber recorreu à ironia para justificar a aparente contradição entre as suas opiniões, ‘Todos os que quiserem salvar a alma, nunca o tentem através da política!’, afirmado quando ainda por estes lados se deviam carregar as armas pela boca, cuido eu, que nem sequer o fui confirmar à Wikipédia! 

De qualquer maneira, acredito piamente no que o filósofo Viriato Soromenho Marques, escreveu um dia numa das suas crónica no DN, ‘Na impossibilidade de estarmos à altura dos desafios do nosso único mundo real, protegemo-nos na consoladora bolha de um mundo ficcional partilhado, e fechamos a porta. Esperando, talvez, que a crença seja mais forte do que a verdade’.

Ámen!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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