
Nota prévia
“Algumas reflexões ainda em torno do Joaquim Feio e da NOVA FEUC” é o terceiro texto de uma série de três dedicados à crise na Universidade. Trata-se de uma reflexão desencadeada a partir do meu corte umbilical com a FEUC feito em 28 de dezembro, dia de em que Joaquim Feio faria anos se estivesse entre nós.
Peço aos nossos leitores que vejam estes textos apenas como uma crítica ao sistema de ensino universitário em Portugal e nunca, mas nunca mesmo, como uma crítica pessoal contra alguém.
São textos que me foram muito difíceis de escrever, de reviver enquanto os escrevia, são textos que refletem uma realidade com a qual teremos que nos habituar a conviver, dada a incapacidade de a podermos esquecer. E fazer como o poeta Jacques Brel:
On n’oublie rien de rien
On n’oublie rien du tout
On n’oublie rien de rien
On s’habitue c’est tout
Como nota final devo agradecer aos meus revisores António Manuel Martins, Fernando Ribeiro, António Gomes Marques, Francisco Tavares, a enorme paciência havida em lerem e relerem mais do que uma vez os textos que agora editamos e a quem agradecemos as sugestões feitas.
JM
***
Nota de editor: em virtude da extensão deste texto, o mesmo é publicado em quatro partes, hoje a quarta.
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18 min de leitura
4ª parte
Já escrevi muito sobre o plano do curso de Economia, afinal muito mais do que esperava escrever, é tempo de retomar o ponto da pressuposta doação da biblioteca do Joaquim Feio.
Fiquei atónito quando ouvi o que ouvi na Capela da Universidade.
Tendo em conta as minhas vivências com o Joaquim Feio e aquilo que me dizem as pessoas mais próximas dele, tudo me leva a supor que isto não pode corresponder à verdade, a menos que se admita supor que ele para alguns, enquanto dois, sozinhos, dizia uma coisa, e que para os amigos mais íntimos e para a filha dizia o contrário. O Joaquim Feio não era homem de duas palavras e muito menos em questões de melindre. Não, o que se disse na Capela é impensável e tanto mais quando uma parte da sua biblioteca era vista por ele como um investimento deixado à filha como suporte para o seu futuro e tanto mais que deixava de estar cá para a ajudar, se necessário. Durante dias esta situação martelou-me a cabeça, dia e noite, pode-se crer. Preciso de a entender: como disse atrás, acreditava muito em alguns, mas, como se sabe, o Joaquim Feio tinha o hábito de prever o que não devia acontecer, mas que geralmente acontecia. Vem esta afirmação a propósito de ter ido dizer que a Faculdade ia bem, pois o Tiago Sequeira tinha-se adaptado bem à Faculdade. Deve lembrar-se da resposta pronta e sibilina do Joaquim Feio: está enganado, foi a Faculdade que se adaptou ao Tiago Sequeira. Quando me contou isso, afinei todos os meus sentidos e passei a estar atento aos mínimos sinais do que o Álvaro dizia nos jornais ou nos comunicados da FEUC. Daí o texto produzido a 2 de dezembro sobre a FEUC, em que explicava porque é que não participava nas comemorações dos 50 anos da Faculdade. Avizinhava-se um mundo em que Keynes seria expulso a pontapé pelas traseiras da FEUC e abrir-se-iam alas para Friedrich Hayek entrar pela porta principal [14]. Joaquim Feio tinha razão, a NOVA FEUC aí está sob a batuta dos dois, Tiago Sequeira e Álvaro Garrido, e esta NOVA FEUC não tem nada a ver connosco. Mesmo assim, tão doente como estava, o Joaquim Feio foi à conferência do dia 2 e ao jantar da FEUC dessa noite. Eu não. Poucos dias depois, ele entrava num lar de terceira idade. Não o esqueço.
Deixar de confiar em alguém é uma coisa, ouvir o que ouvi e que nunca esperava ouvir é outra completamente diferente. No entanto, mantenho como prática de vida procurar agarrar os pontos de concordância, à maneira de Claude Roy,e nunca os de separação entre mim e quem quer que seja. Por isso, a discordância pontual sobre o que ouvi na Capela da Universidade e o que o Joaquim Feio me disse penso que se pode dever a um engano puro e simples de uma das partes, a uma situação de confundir o desejo com a realidade sobrepondo-o a esta, o que os ingleses chamam de wishfulthinking, pode dever-se a uma situação de extremo cansaço que possivelmente o terá levado a uma quebra pontual de lucidez. Pode ainda ser devida a uma eventual mudança de posição do próprio Joaquim Feio, de última hora, que eu desconheça, mas que é altamente improvável pelas conversas havidas entre mim e ele. Mas mesmo que tenha sido isto… nunca daria o direito de dizer o que disse em público sem falar primeiramente com a filha. Mas o Álvaro Garrido é um homem culto, muito culto mesmo, logo, nada disto encaixa de modo nenhum com a sua figura. No fundo trata-se de uma situação que a mim me incomodou muito e durante semanas e que gostaria de ver clarificada pelas seguintes razões:
- Pelo profundo dever pessoal de respeitar ao milímetro o que era central nos últimos desejos do Joaquim Feio de que eu e mais alguns amigos próximos temos conhecimento e de um ou outro desses desejos o Álvaro também sabe. Um sentimento de dever que, para mim, advém da cultura judaico‑cristã em que cresci, em que me moldei.
- Pelo enorme respeito que tenho pela filha do Joaquim Feio que muitas vezes levei ao colo.
- E não menos importante, pelo respeito que tenho pelo meu próprio passado, uma vez que me tinha habituado a ver o Álvaro Garrido primeiro como amigo, antes das suas posições tomadas como diretor e depois, como um neoliberal no ensino e a respeitar enquanto tal. Isto pode parecer insignificante, mas garantidamente não o é.
Neste contexto, não posso aceitar nenhuma das leituras que o senso comum possa estabelecer sobre o Álvaro a partir do que foi dito na Capela. Não, nada do que o senso comum nos possa dizer sobre o discurso na Capela pode servir aqui de explicação para o que foi dito. Não, não encaixaria na moldura e a moldura é a imagem última que, apesar de tudo, quero manter do Álvaro, não a do amigo com quem muitas vezes joguei ténis, não essa, mas a imagem do Álvaro de antes da Capela, mas já depois de diretor, depois de declaradamente poder ser tomado como um neoliberal, mas só isto. Dito de outra forma mais curta, a imagem que quero manter é apenas a imagem do neoliberal que se enfiou numa monstruosidade chamada Contra reforma da FEUC. E dada essa imagem que tenho, e que quero manter, penso que a única explicação possível é estar o autor do discurso da Capela muito cansado, perto de burnout [15]. Nesta hipótese, deixemos o tempo passar, deixemo-lo recuperar e se de facto é esta hipótese espero então que se tenha a coragem de falar com a filha e pedir-lhe desculpa pela monumental gafe.
A propósito de coragem, lembra-se do combinado entre nós, de um almoço em tempo futuro depois do Joaquim Feio morrer e depois da NOVA FEUC ter entrado em vigor? O Joaquim Feio morreu, a “NOVA” Faculdade nasceu, mas agora lamento dizê-lo, não estou interessado nesse almoço. A razão é simples: lembra-se que esta hipótese de almoço surgiu na sequência de uma história havida entre mim e o Professor Alfredo de Sousa, na qual eu tive a coragem de lhe chamar politicamente burro e em que, mesmo assim, aceitou que “tomássemos café” para eu lhe explicar o porquê dessa incómoda afirmação. No entanto, depois desta “quase impossível” situação, oferece-me duas vezes emprego! Encontrámo-nos frente a frente, um professor de direita e um seu aluno de esquerda, no gabinete que fora antes de Sedas Nunes e, numa discussão serena, acabámos por resolver um difícil problema que o actual ISEG poderia atravessar e que, na minha opinião, não interessaria a ninguém.
Mas agora não é uma questão de direita ou de esquerda, nem de coragem ou de falta dela. Não, mesmo minimizando a gafe monumental cometida, minimizando-a pela explicação possível que encontro e que acabei de expor, retificável com pedido de desculpa junto da filha, tenho que reconhecer que tudo se está a passar como se a criação da NOVA FEUC, a sua Reforma seja ela a Reforma desejada ou a Reforma possível, e esta última por força das suas circunstâncias torna-se a desejada, represente para si o abre-te sésamo para uma carreira futura ainda mais brilhante, que muito deseja e à qual tudo sacrifica, até a sua saúde, daí a minha ideia de burnout [16]. Tem muito tempo pela frente para viver a sua vida e vale mais a pena caminhar com segurança e respeito pelo quadro de valores que se diz assumir à esquerda do que com pressa e deslizar para caminhos a serem percorridos à direita, esta é a minha sugestão.
Lembro aqui um excerto de um poema cantado por Mariza, intitulado – O tempo não pára:
“ Não se andei depressa demais
Mas sei, que algum sorriso eu perdi
Vou pedir ao tempo que me dê mais tempo
Para olhar para [mim]
De agora em diante, não serei distante
Eu vou estar aqui “
Desde quando penso que o Álvaro é assim? Possivelmente é assim depois de uns bons meses após a sua chegada aos comandos da FEUC. Nunca antes eu seria capaz de pensar isto que acabo de lhe expor. É aqui que entronca a sua afirmação de que o Tiago Sequeira se estava a adaptar muito bem à FEUC e que a FEUC estava muito bem, por isso mesmo e entronca também na resposta contundente, já aflorada, do Joaquim Feio, dizendo-lhe, frontalmente, que o senhor estava enganado: era a FEUC que se estava a adaptar muito bem ao Tiago Sequeira. O novo plano de curso de Economia e a anuência de toda a gente a esse mesmo plano mostra claramente que o Joaquim Feio tinha razão [17]! Mas a concordância de toda a gente à Reforma, não é nem uma coisa boa nem uma coisa má: é o sinal dos tempos, como é um sinal dos tempos dizer-me que não há grande distância entre o que eu penso como Universidade e o que o Garrido pensa sobre a mesma e, entretanto, faz-se a Reforma que se faz! Sou velho, tenho 80 anos, sou um descartável desde há vinte anos, a aceitar a tese de Tiago Sequeira de que as pessoas de mais de 60 anos perdem criatividade, são descartáveis direi eu, mas eu não me vergo a estes mesmos sinais dos tempos. Contra eles manifesto o meu sinal de protesto, nada mais do que isso, e este texto é disso um claro exemplo.
O Álvaro Garrido já tinha embalado na sua ideia de reforma, como o mostram as suas sucessivas declarações à imprensa. E havia, de facto, muita coisa a reformar, mas não era no sentido de reescrever o passado como o senhor e o Tiago Sequeira fizeram com esta reforma, repetindo-me aqui no que disse antes sobre os vícios supostamente existentes. Cursos novos, NOVA FEUC, é o que temos. Não, não, haveria mesmo outra coisa a fazer que não fosse antes trabalhar no sentido de restaurar o espírito do velho curso, durante anos considerado o mais equilibrado do país, equipando-o com professores à altura da renovação do projeto e impondo disciplinas com profundidade adequada para a compreensão do mundo de hoje e para a criação de ferramentas técnicas e intelectuais que permitissem tornar cada um dos seus diplomados num agente da transformação para um mundo melhor [18] . Dito de forma mais direta, o que havia a fazer seria reabilitar a FEUC dotando-a de um plano de curso de Economia que assumisse hoje e no futuro próximo o mesmo estatuto que assumiu o plano anterior na comunidade universitária portuguesa de outrora, nas décadas dos anos 80 e 90. O que foi feito foi uma Contra-reforma tão perniciosa quanto o caos que se instalou nas Universidades com o PREC ou mesmo um pouco antes, tão perniciosa como o que se praticou no ISEG (então ISE) entre 74 e 75, já com o regime fascista caído. Nessa altura, a esquerda, e a direita também, caiu-se no oportunismo mais puro. E eu saio do ISEG exatamente por contestação a essa degradação. Penso que o Álvaro sabe disso.
Estes dois mandatos na FEUC fizeram de si, caro diretor, um outro homem, um homem bem diferente do que esperava ver. Durante anos jogámos ténis juntos, julgo que se lembra, com vitórias quase sempre a seu favor, mas isso é a vida. Nesse tempo tinha uma profunda estima por si, uma estima que se manteve, até à sua aliança na FEUC com os recém-chegados agentes ativos da Contra-reforma então desencadeada e de cujos resultados há principais responsáveis.
A minha opinião hoje, disse-lho já em março passado, é de que é um homem que tem à frente do seu nariz a imagem da sua carreira futura e vive obcecado com o medo de a não conseguir. Penso isto desde há algum tempo e já o disse antes. Relembro aqui, um email meu, no quadro de troca de opiniões em torno do Joaquim Feio que não vale a pena aqui referir, datado de 29 de março de 2023, onde dizia:
“Relativamente ao que me diz sobre a FEUC estar bem e recomenda-se, fico com uma sensação de amargo de boca e para explicar esta sua euforia vejo duas hipóteses:
- Tem uma noção de escola, o que agora é raro, uma vontade louca de a reformar e… vive pendurado na ideia do seu sucesso futuro, o que lhe permite dizer que a FEUC está bem, recomenda-se. Recomenda-se amanhã, direi eu, mas sem saber quando chega esse amanhã. Ou será que acredita nos amanhãs que cantam? Não me parece.
Nesta ótica, o passado deixa de ter importância, apenas o ”presentismo” do futuro imediato, que está à ponta do nariz [e esse, afinal, é a reforma agora publicitada]
(…)
Nesta obsessão da reforma, o Álvaro está disponível para sacrificar as suas convicções, uma vez que me diz que as suas conceções de escola não são muito diferentes das minhas. E eu, sinceramente, acredito nisso. A minha ideia de escola está nas antípodas de qualquer escola que o Tiago Sequeira possa construir e que o Álvaro esteja disposto, depois, a assumir.
[O Álvaro diz-me:]
“mas o interesse geral da Faculdade impõe que se façam algumas coisas que já deviam ter sido concretizadas”.
Aqui encontramos a figura de Moloch. As suas ideias sobre a faculdade, segundo diz, não serão diferentes das minhas, mas as minhas são opostas ao que se está a fazer e que o Álvaro está a aplicar. Em suma, temo-lo a si, mais um, a ser engolido pelo sistema, a fazer o que o sistema pretende. Talvez o sistema o premeie no fim, mas há a hipótese contrária. Lembra-se de Artur Portela Filho e o semanário O Jornal? (…)
2. Tem um pacto faustiano em torno da Escola em que tudo deve ser feito para o cumprir e nisto está a eliminação dos tempos épicos. Porquê? Talvez porque eram tempos de fraternidade.
[Se nesta minha primeira hipótese estamos no melhor dos mundos possíveis quanto a boas intenções, mesmo se objetivamente erradas, num mundo em que o homem comanda a máquina, está cima do sistema, na minha segunda hipótese, abaixo expressa, a máquina, o sistema, comanda o homem e este funciona como apêndice daquela, a lembrar os Grundrisse de Marx, a cumprir as normas desejadas de desvalorização do trabalho para o tornar adequado às supostas necessidades do capitalismo subdesenvolvido em Portugal
Um comportamento assente em objetivos pessoais e em boas intenções (erradas) é o que representa a minha primeira hipótese, enquanto a minha segunda hipótese representa um pacto faustiano, assente até em objetivos supostamente coletivos, sistémicos nos tempos que correm, são as duas vias de análise que posso assumir para compreender as reformas em curso na FEUC].
Conheço-o o suficiente para dizer que rejeito liminarmente esta segunda hipótese. Fico-me apenas na primeira e muito convictamente. Não será por acaso que jogámos ténis muitos anos, o Álvaro como um [jogador] quase semiprofissional e eu como um pobre [jogador] amador que mal podia com as pernas. Por isso retomo a primeira hipótese, a de o Álvaro querer reformar a Escola e na urgência.
De resto, só na base da rejeição desta segunda hipótese, colocada apenas no plano lógico, é que se pode compreender porque mantenho sempre a proposta num almoço quando tudo isto tiver passado [Fim de citação do meu email enviado em março de 2023]
O novo plano de curso de Economia, para quem como eu não se arrepende de nada do que fez como professor, salvo as inevitáveis insuficiências humanas, e a questão da doação, levantada com tanta clareza na Capela e enquanto não corrigida junto da filha, são para mim coisas graves, muito graves, tão graves que me levam a esta desagradável conclusão, por isso mesmo, deixei de estar interessado em qualquer almoço consigo para falar da Universidade [19]. Também é esta a razão pela qual me alonguei na crítica ao plano de curso. Esta era a última ponta que me ligava à FEUC, o dito almoço que, infelizmente, não há condições para ter lugar. Anulado este vetor fico, porventura – mas indesejavelmente, de costas voltadas para a NOVA FEUC e sigo em frente. Relembro aqui o poeta Jacques Brel:
On n’oublie rien de rien
On n’oublie rien du tout
On n’oublie rien de rien
On s’habitue c’est tout
E é tudo
Júlio Marques Mota
PS n.º 1.
Já com este texto terminado e na minha pesquisa sobre as análises ao Orçamento, vejo uma tomada de posição feita pelo professor catedrático Tiago Sequeira, apresentado pela entrevistadora como um especialista que é ouvido pelos diversos governos portugueses e pelo presidente da República depois da Troika e da crise do Covid-19, onde esse, em substância nos diz o seguinte:
O aspeto mais positivo do Orçamento é o de ser excedentário. O Orçamento representa um conjunto de escolhas e nele está, por exemplo, a escolha não necessariamente muito amiga da produtividade que é o aumento das pensões de reforma (…) O Orçamento beneficia os pensionistas em detrimento das pessoas que estão na vida ativa.
Sobre isto sublinho duas características desta posição, típica nos neoliberais, jovens contra velhos, em austeridade em tempo de crise. Temos o país a romper pelas costuras, na saúde, no trabalho, na justiça, na educação e fico por aqui, mas dizem-nos que o aspeto mais positivo do Orçamento é ficar excedentário, ou seja, para sermos mais diretos, o mais positivo é o país não abandonar a linha austeritária. Por outro lado, implicitamente é para mim claro que Tiago Sequeira defende o sistema de pensões por capitalização, ou seja, defende que se rebente um dos pilares fundamentais do Estado Providência, e mais uma vez, na pura linha do neoliberalismo puro e duro. Aliado a estas duas caraterísticas adicionemos uma terceira característica: a pobreza intelectual que significa estar a defendera existência de uma ligação inversa entre a variação da produtividade e a variação dos níveis de pensões. Aqui relembro Hayek a entrar pela porta principal da FEUC, ou até, e porque não, relembrar Malthus, para quem era necessário acabar com a lei dos pobres porque havia pobres a mais, o que não será muito diferente de que em nome da produtividade se possa defender a perda real de poder de compra dos pensionistas.
No quadro das afirmações anteriores, pobreza ideológica, pobreza científica, pobreza intelectual, é o que posso antever como realidade na FEUC dentro de muito pouco tempo com as suas novas licenciaturas, tomando como referência o novo plano de curso de Economia, as suas múltiplas declarações como diretor, assim como as várias tomadas de posição públicas do catedrático Tiago Sequeira, um catedrático jovem, muito jovem mesmo.
PS n.º2
Hoje, quando estava para regressar de uma esplanada em que habitualmente tomo café, na esplanada em que já me cruzei várias vezes com o Álvaro, depois de ter passado parte da tarde a ler o livro Histoire de la pensée économique, de Ghislain Deleplace, e acompanhado pela minha neta de 9 anos que ia fazendo desenhos na mesa do café, encontrei-me com um antigo aluno meu de quem sou amigo desde a sua passagem pela FEUC, e já vão décadas. Tinha ido comprar pão. Como vínhamos no mesmo sentido esperei por ele e regressámos, relembrando tempos idos. Falou-se da morte do Joaquim Feio, ele que esteve no velório, na Capela e no Crematório, questionou-me sobre uma eventual homenagem ao Joaquim Feio, a que respondi não me parecer estar neste momento debaixo do radar de ninguém, referiu-se à doação da Biblioteca do Joaquim Feio à Faculdade, acrescentando ele que esta iria receber uma grande Biblioteca. São cerca de 15.000 livros, foi o que acrescentei. Disse-lhe ainda que quanto a essa questão da doação eu era levado a admitir que não deve ser verdade, tudo leva a entender que seja uma afirmação incorreta. Mas foi o que disse o diretor no seu discurso, foi o que ouvi, disse ele com ar sério. Não, nem tudo o que se ouve pode ser considerado verdade e mudou-se de assunto.
Deste aluno que, enquanto aluno, era mais empenhado nas lides associativas do que em gastar horas a estudar, ainda me lembro de uma oral brilhante, com nota final de 15 valores, a concluir uma licenciatura. O rapaz tinha-se empenhado e aproximava-se do que devia ter sido se outros afazeres, mesmo que válidos, o não tivessem desviado da sua principal missão: estudar!
Ao chegar à rotunda de Celas, dispara-me uma pergunta que me deixou atónito, tanto ou mesmo mais atónito do que quando ouvi o que ouvi na Capela da Universidade. Constava-se-lhe que havia alunos a acabar a licenciatura em Economia com dispensa de disciplinas obrigatórias. Isso nunca poderia acontecer, foi a minha reação. Expliquei-lhe que uma disciplina obrigatória era uma disciplina obrigatória e que ninguém podia ser licenciado sem ter tido aprovação nas mesmas. É sobretudo isso que as distingue das opções. Não é assim hoje, hoje não é como no nosso tempo, professor. Falaram-me de casos em que saíram licenciados sem terem passado a todas as disciplinas obrigatórias. Mais lhe digo: em dois dos casos sei que se referem à cadeira onde o professor ensinou muitos anos. Não acredito, respondi. Era uma disciplina obrigatória no plano de curso antigo, mantém-se como obrigatória no atual plano de curso. Enganaram-te, meu caro, não pode ser de outra maneira. Não, professor, conheço as pessoas em causa. Reajo a esta afirmação e a terminar uma conversa que me estava a dar vómitos digo: a menos que… os bárbaros, ou um conjunto de ignorantes, tenham tomado de assalto o poder na FEUC. Mas não, não, não posso acreditar, tudo isto deve estar a ser validado por instâncias superiores como a A3ES (Agência de Avaliação e de Acreditação do Ensino Superior), como a Reitoria, logo, não pode ser verdade. Professor, fique-se com a sua crença nas instâncias superiores que eu me fico com a minha quase certeza do que estou a dizer. Acredito em quem mo disse. E, de repente, ele que é um homem um pouco sisudo dispara uma última pergunta que nos animou aos dois, com uma franca gargalhada da minha parte: não será isso um efeito colateral da vinda do Papa, libertam-se os presos das prisões, libertam-se os incapazes das Faculdades? Qual é a diferença? Professor, dá-se assim um bodo aos ignorantes, olhe lá! Rimo-nos, deixa-te de brincadeiras, acrescentei. Separámo-nos depois, eu segui pela Alameda Manuel Gonçalves, ele seguiu em frente.
Duas semanas depois deste diálogo encontro-me com um antigo aluno meu, um aluno da velha guarda, licenciado no início dos anos 90 e com dois filhos, um também licenciado pela FEUC e o outro a estudar na área de ciências. Foi um aluno brilhante e tem tido também uma carreira não menos brilhante. Falámos de muitas coisas, entre as quais reproduzi a história dos licenciados com dispensa de disciplinas obrigatórias em qualquer dos dois planos de curso. Fez um ar de espanto e diz com vivacidade: agora percebi, pensei que era um engano, mas não, é uma política deliberada.
Falas de quê, perguntei.
O meu filho que, como sabes, é formado pela FEUC contou-me uma história estranha que terá ouvido num café: um estudante contava a outro que um seu amigo ou amiga, não percebeu bem, que não conseguia passar a matemática recebe um telefonema da FEUC a dizerem-lhe que estava licenciado (a) pois tinham-lhe dado equivalência a Matemáticas Gerais e tinha pois concluído a licenciatura.
Equivalência?
Acho que sim, respondeu. Pelo que o meu filho terá percebido o estudante a que se referia na conversa teria feito uma disciplina que tem um nome esquisito, uma letra, será? Deram-lhe equivalência a Matemáticas Gerais e com nota elevada!
Não se terá o teu filho referido a uma disciplina que tem o nome R, perguntei?
É isso mesmo, respondeu. E continuou: sei o que passei, sei as dificuldades que tive. Naquele tempo não era nada fácil. Com o meu filho já foi diferente, mas nada comparável como que se pode pensar com estas facilidades. Só vejo uma explicação para isto.
Qual?
As contas certas do Mário Centeno e de António Costa transpostas para a Universidade. Trata-se de alunos que só a muito custo seriam licenciados, são, no plano científico e pedagógico, pesos mortos. A Faculdade liberta-se deles, põe-nos a andar, reduz os seus custos, estes transferem-se e diluem-se depois na sociedade.
Queres tu dizer que somos todos, todos, cúmplices deste tipo de comportamentos, de práticas, questionei.
O meu amigo, bloquista dos sete costados, olha-me com atenção diz-me: acho. No caso em presença e segundo o relato ouvido pelo meu filho a família foi festejar a licenciatura a um restaurante de luxo desta cidade. Poderia o pai fazer outra coisa que não ser estar solidário com a alegria de passar a ter um descendente seu licenciado, mesmo que pudesse considerar que algo poderia estar a não bater certo neste diploma agora obtido? Uma cumplicidade por paternidade, é o que posso considerar.
Incomodei-me e sugeri que mudássemos de assunto. E assim foi.
Mas este detalhe do jantar num restaurante de luxo nesta cidade é para mim um detalhe muito importante e por duas razões: a primeiro confirma a validade da afirmação de Ben Fine sobre o rolo compressor que é o neoliberalismo. É preciso ter muita força para lhe resistir, diz-nos ele, é preciso ter condições para lhe resistir direi eu, o que se confirma aqui, com este jantar, com uma festa assente num equívoco, assente num eventual duplo bónus: bónus pela disciplina obrigatória oferecida, onde não conseguia passar, bónus por ter sido trocada por uma cadeira optativa onde as notas são geralmente bem mais altas que a média. O segundo detalhe, diz-nos, o que já presumíamos, que 2+2=4, ou seja, que haverá muita gente a sair licenciada desta forma, que há um vendaval de neoliberalismo a atravessar toda a Faculdade e com isso há muita ética que se esfarela no ar arrastada pelos ventos fortes, fortíssimos que por lá passam. O que fica depois desse vendaval? Fica o que temos estado a descrever.
Tenho quase quarenta anos de ensino e não foram anos a brincar, como se pode pressentir nos diversos pormenores relatados ao longo deste texto, passei por vários planos de transição, sei o trabalho que dão, mas nunca passei por isto. Seria curioso ter conhecimento da nota obtida pelos alunos na última prova feita na disciplina obrigatória a que não terão sido aprovados e que agora lhes é magnanimamente oferecida por troca ou mesmo sem troca com uma optativa, geralmente de nota elevada. Não sei, como é evidente, mas tenho o direito de presumir que a diferença entre a nota obtida graciosamente por concessão e a nota obtida na reprovação é enorme e isto levando em conta todos os alunos beneficiados cujo número também desconheço, mas que também sou obrigado a presumir que será elevado.
Caro Diretor, claramente isto não é nada consigo, conheço-o bem para garantir que é uma realidade que lhe escapa, mas tem a ver com a sua equipa de direção que se abriga debaixo do seu chapéu intelectual. Não pode, a partir de agora, dizer que não sabe e sabendo-o só tem uma solução possível: a de estancar esta realidade de estranhas equivalências, de disciplinas objetivamente oferecidas. Do meu ponto de vista não é só a sua dignidade como diretor que está em jogo, é também a dignidade de todos os docentes que está em jogo neste jogo de facilidades
Uma quase certeza me atravessa a alma, a de que é verdade o que se acabou de relatar, que os ”reformadores” estão a dispensar os alunos de disciplinas obrigatórias no seu próprio plano de curso. Bom, que significa isto, questionei-me? E a primeira ideia que me veio à cabeça foi a de que os Bárbaros estão a chegar à Cidade, a quererem matar a cultura, ao quererem generalizar a ignorância sem rei nem roque, pela via do facilitismo. Esta ideia fez-me lembrar Ana Cristina Leonardo [20], que subscrevo quando diz que vivemos ”numa época em que a ignorância deixou de ser motivo de embaraço e o irracionalismo (…) invade o espaço público a uma velocidade superior ao derretimento do gelo marinho da Antártida”, e admitir como verdade o que o aluno me disse. Ao ser assim, tudo indicia que um plano de licenciatura ainda agora iniciado e tomado como inovador e como negação de supostos VÍCIOS do passado, mal é posto em prática, começa logo a ser conceptualmente desfeito pelos seus criadores com dispensas de disciplinas obrigatórias, dispensas sem qualquer princípio de base entendível. Isto é bem mais grave do que aquilo que ouvi na Capela da Universidade, porque o que se passou na Capela pode claramente ser entendido como uma monumental gaffe, facilmente corrigida e depois esquecida.
Assim, tudo é então possível, pensei eu, mas quando tudo é possível é, pois, a ideia de Deus que é impossível e essa impossibilidade traduz-se na ausência de respeito pelo outro, de organização social, de projeto coletivo, inclusive, de tudo o que se pode pensar como sociedade ou como missão da Universidade como uma das suas instituições de referência. Esta impossibilidade traduz-se no caos e qualquer aluno de Relações Internacionais sabe que, entre a desordem e a má ordem, prefere-se sempre a má ordem. A história prova-o igualmente. A continuarmos assim, são os novos ditadores (não esqueçamos Hitleres, Mussolinis e Estalines) que se devem esperar num futuro não longínquo, de que o Chega e a Iniciativa Liberal são já um sinal anunciador do que se pode esperar, ou seja, dos novos Bárbaros, como aconteceu na primeira metade do século passado. Não aprendemos nada com a História e confirma-se: o filósofo John Gray tem razão ao lembrar-nos que é bem mais fácil esquecer do que aprender.
Anexo
O ciclo de vida e morte do Joaquim Feio terminou. Duas vias se podem agora verificar e em alternativa: a do esquecimento puro e simples e a da recordação e de muitas coisas que nos podem servir de exemplo. Esquecer é sempre mais fácil que recordar, sobretudo quando o tempo passa e recordar pode estar associado a alguma dor. Pela minha parte opto pela segunda via e, a edição de uma série longa de textos que lhe é dedicada, tem como objetivo fazer com que o seu nome continue a ser lembrado por aqueles que se interessam pelos temas de economia tratados nesta longa série de cinco grandes temas.
A série de textos dedicada toda ela ao Joaquim Feio estava completamente arranjada, com exclusão do tema sobre a teoria da renda em finais de julho. Ainda ando à procura de dois livros sobre a renda absoluta. Os quatro temas já totalmente definidos foram concebidos num espírito que nada tem a ver com a FEUC ou com o novo plano de curso de Economia que entrou em vigor em setembro último e que só agora tive conhecimento dos seus contornos.
Simplesmente o contraste é imediato entre a forma simples como dadas disciplinas são tratadas, 3 horas e, por vezes, 3 horas e em opção, contra a profundidade temática que a série mostra relativamente a temas ligados ou ligáveis às referidas disciplinas.
Daí que, quanto às críticas formuladas relativamente a algumas disciplinas do plano de curso de Economia, sugiro-lhe, caro diretor, que acompanhe a publicação em data próxima da série de temas que serão publicados em homenagem ao Joaquim Feio.
Com efeito, para perceber a minha posição quanto às disciplinas de História do Pensamento Económico, Política Económica, Responsabilidade Ética e Sustentabilidade, por exemplo, veja-se na série dedicada a Joaquim Feio o tratamento dado para:
A) História do Pensamento Económico, no tema Dos Clássicos a Sraffa, de Sraffa aos neo-ricardianos.
Por aqui passam nomes como Ricardo, sobretudo ele, Marx, Dostaller, Ronald Mem, Pasinetti, Ajit Sina, Ghislain Deleplace, Giancarlo De Vivo, Ben Fine, entre muitos outros.
B) Política Económica, nos dois seguintes temas:
- De Sraffa à necessidade de romper com o pensamento económico dominante de algumas grandes questões de macroeconomia. Por aqui passam nomes como Olivier Blanchard, Lawrence Summers, Emiliano Brancaccio, Analisam Rosselli, Carlo Clericetti, Robert Skidelsky, Heinz D. Kurz e Neri Salvadori, Massimo Amato, Roberto Ciccone e Antonella Stiratientre muitos outros, ou ainda o tema
- A quem servem os modelos atuais de macroeconomia? A política macroeconómica e os impasses da esquerda americana. Por aqui passam nomes como Meg Jacobs, Joseph Stiglitz, Elizabeth Warren, Rakeen Mabud, David Dayen, Jarod Facundo, Nick Hanauer, Robert Kuttner.
C) Responsabilidade ética e sustentabilidade, no tema Da harmonia universal decretada pela Escola de Chicago à violência das crises reais. Por aqui passam nomes como John Cassidy, John Cochrane, Brad De Long, James Crotty, Paul Krugman, James Heckman, Kevin Murphy Richard Thaler, Hyman Minsky, Randall Wray, Richard A. Posner, Robert Pollin, entre muitos outros
E, já que falamos de Ética, ignorando o que foi dito na Capela que, por razões anteriormente indicadas, pode ser considerado irrelevante, uma gaffe apenas, como se explica então esta história, se verdadeira e dou-lhe o benefício da dúvida, das disciplinas obrigatórias que os alunos não precisam de fazer e onde teriam sido já reprovados, trocadas estas por disciplinas acessórias? E tudo leva a crer, o quadro de funcionamento é o mesmo, que a mesma débâcle ética e científica se poderá passar nas outras Licenciaturas, com L maiúsculo, mas que por estes comportamentos são assim transformadas em licenciaturas com l minúsculo. Será uma questão de desonestidade intelectual, ignorância da ideia do que é uma licenciatura ou, pior ainda, incapacidade intelectual para organizar planos de transição, sendo certo que a organização destes dá muito trabalho e exige que se tenha uma visão global dos dois planos de curso, do plano antigo e do que entra agora em vigor?
Notas
[14] O economista inglês Ben Fine caracteriza a situação da seguinte forma: “o meu receio é que [enquanto professores] sejamos uma espécie em extinção com a neoliberalização do ensino”.
[15] Note que escolho a leitura mais favorável, não por comodismo, mas por sentimento de ser esta a única explicação possível, para explicar esta sua gafe monumental.
[16] Esta ideia de burnout leva obrigatoriamente a que devo minimizar o que se passou na Capela como irrelevante, ou até a ignorá-lo completamente se houver uma explicação dada à filha.
[17] Terei lido algures que não há pior inimigo que o amigo que nos dá sempre razão. Ora, não lhe dou razão, logo, nesta lógica não posso nem devo ser considerado seu inimigol E, não sou, discordo é frontalmente de si no que diz respeito à missão da Universidade. Esta anuência ao novo plano de curso, dir-me-ão, significa o ar dos tempos, o tempo da submissão aos poderes mas, pela parte que me toca, direi que há uma linha divisória entre os que fabricam o ar dos tempos e os que a estes ares resistem. O Álvaro e a sua equipa da direção fazem parte destes fabricantes, eu faço parte dos que lhes são resistentes. Não posso deixar de reproduzir aqui, por extenso, o que me disse Ben Fine numa troca de correspondência sobre o” conundrum” da renda absoluta: “Receio que, dada a neoliberalização do ensino, sejamos uma espécie em extinção. Tratam-se as pessoas como se as movesse o interesse pessoal e [como se] estas tivessem que opor uma grande resistência para que assim não seja.”. Resistir é difícil, é o que nos diz Ben Fine, resistir é o que faço e este doloroso texto é disso mesmo um sinal.
[18] Seria assim levar a que o estudante aprenda a repensar o papel da economia na sociedade e do economista no mundo como, aliás, o fizeram os grandes clássicos. Como assinala Heinz D. Kurz, do Departamento de Economia, Universidade de Graz, com quem concordo plenamente, numa crítica frontal contra Marx:
“Em Marx, encontramos relativamente pouco sobre o que constitui uma “boa sociedade” e quais instituições, leis, regulamentos e estruturas poderiam ajudar a construí-la. Uma preocupação com os pré-requisitos institucionais, legais, etc. de uma tal sociedade formou o centro das obras de autores como David Hume e Adam Smith. Eles elaboraram as suas respetivas análises desenvolvendo primeiro uma antropologia empiricamente apoiada para entender os lados, claro e escuro, do homem. Na sua base, eles então estabeleceram princípios que eram considerados ideais para promover os lados claros e conter os escuros. O resultado desse esforço foi, por exemplo, o conceito de Smith de uma “sociedade bem governada”. Na sua opinião, a economia política – como uma parte importante, e talvez até a mais importante, de uma espécie de ciência política chave, abrangendo a “ciência do legislador” – tem a tarefa de ultrapassar a superstição e as falsas crenças em questões de política económica, desmascarar pontos de vista que apresentam interesses individuais como estando sempre a promover o bem geral e propor marcos regulatórios para mercados e instituições que ajudem a afastar os perigos que põem em risco a segurança da sociedade como um todo e fornecer incentivos tais que a procura de auto-valorizarão individual também tenha efeitos socialmente úteis para todos. É lamentável que Marx, para além de observações incidentais, não tenha também retomado e desenvolvido esta parte da contribuição dos economistas clássicos.
[19] Com este texto acabado desde o início de outubro, em 7 de dezembro encontro-me consigo na Pastelaria Vénus, onde me faz entrega do luxuoso volume Os 50 anos da FEUC. A nossa conversa sobre Universidade, sobre a FEUC, que passo a resumir, confirma o que está aqui escrito: não vale a pena irmos almoçar, uma vez que no plano dos factos estamos perante posições antagónicas e irredutíveis mesmo que me diga que em termos de visão e de missão da Universidade não estejamos muito distantes. Com efeito nessa conversa rápida, falou-se da Faculdade, de si e levemente das suas perspetivas de vida. Recomendei-lhe, o que está neste texto, que deixe de fazer coisas a mais, que pare, olhe, reflita para dentro de si-mesmo. Diz-me que estou mal informado ou que ignoro a evolução brilhante da Faculdade dos últimos tempos, que a Faculdade está muito bem, que os alunos estão contentes com os novos cursos, que os planos de transição estão a correr muito bem. E repete-me o discurso que a sua perspetiva de Universidade não é muito diferente da minha.
Nesta conversa, e em termos gerais, apenas em termos gerais, sintetizei o que está escrito neste texto, com exceção de que não falei no Joaquim Feio. Quanto às suas opiniões proferidas sobre a Faculdade respondi que me estava a dar a visão do mainstream quando eu estou do outro lado. E levemente agressivo disse-lhe: por este caminho estamos a transformar a Universidade numa fábrica de ignorantes com bons professores, mas com o andar da carroça e daqui a uns anos mais, seremos todos, alunos e professores, ignorantes, uns, incultos, outros, com estes outros a saberem cada vez mais de cada vez menos, até saberem quase tudo de quase nada. E por esse canal é que a cultura desaparece na carreira docente.
E terminei dizendo: terás tempo de ver por escrito as minhas críticas de forma detalhada à tua reforma. Minha reforma não, a reforma de um coletivo, foi a sua reação. Não irás gostar do que escrevi e que será publicado no dia em que o Joaquim Feio faria anos, se estivesse connosco, continuei eu. É certo, como se vê, que continuas com essas tuas lentes cor-de-rosa de ver a realidade universitária. Eu, Júlio Mota, prefiro no tempo presente as minhas lentes escuras, prefiro a incomodidade de ser incómodo. O meu antigo colega João Tolda, presente na conversa e muito amigo de nós os dois, vira-se com ar interrogativo e diz: não quererás antes dizer que vives na comodidade de ser incómodo? Olhei para ele, com ar de espanto e reagi: podes ter razão, Tolda. Nunca tinha pensado assim.
E o João Toda poderá ter razão, pois se a situação universitária atual nos gera alguma incomodidade, não é menos verdade que cumprir o nosso dever de cidadão e de economista heterodoxo e pluralista, expondo as nossas críticas ao que achamos incorreto no ensino universitário, é uma atitude que nos confere alguma comodidade. Mas também não é menos verdade que esta posição como constante gera incomodidade na convivência com os outros e a convivência é fundamental para qualquer ser humano.
[20] Público, 22 de setembro de 2023.
