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Espuma dos dias — “Sobre um país parado, tal como as ambulâncias do INEM, à espera de ser reparado pelo seu próprio povo”.  Por Júlio Marques Mota

Nota prévia:

Depois do discurso do Pontal sobre um país que se diz estar a caminhar para um futuro risonho, na lógica de Luis Montenegro, fico com a sensação de que esse discurso é poeira para os olhos, fico com a certeza de que, ao contrário do que diz Luís Montenegro, somos um país bloqueado à beira dessa estrada, tão bloqueado como as ambulâncias de emergência médica do INEM, paradas algures na zona de Chelote, bem perto do Pontal, à espera que haja tempo e dinheiro para a sua reparação. Uma pequena nota sobre o assunto, uma nota que escrevo por direito e dever de cidadania.

JM


6 min de leitura

Sobre um país parado, tal como as ambulâncias do INEM, à espera de ser reparado pelo seu próprio povo

 Por Júlio Marques Mota

Faro, em 15 de Agosto de 2024

 

Ontem estive em Chelote, na periferia de Faro e perto de uma banal oficina de automóveis. À espera de reparação estavam sete ambulâncias do INEM. Não queria acreditar. Quis tirar fotos, mas a luz solar era tanta que eu não consegui ver nada no ecrã. Adicionalmente o dono de uma outra oficina avisou-me de que não poderia tirar nenhuma foto que mostrasse a matrícula de qualquer das viaturas. Mesmo assim quis tirar as fotos, mas não consegui – não via nada no ecrã. Fiquei por aqui,

Hoje passo num cruzamento de Faro e está uma ambulância do INEM parada, à espera do sinal abrir. Dirijo-me ao ajudante do motorista da ambulância e peço autorização para lhe fazer uma pergunta rápida. Faça-a, foi a resposta pronta.

Ontem estive na zona de Chelote, num espaço entre duas oficinas, com um amigo meu que tem um problema de pintura a resolver. Em frente e um pouco à esquerda da oficina onde eu estou, está uma outra oficina. Olho e chama-me a atenção: estão ao longo da via 7 ambulâncias INEM estacionadas, à espera de serem reparadas.

Vi lá sete viaturas INEM paradas junto a uma oficina. A minha pergunta é: como é isso possível. Será que eu “vi” mal?

Em princípio, viu bem, muito bem mesmo. A maioria das ambulâncias estão avariadas e qualquer dia somos nós mesmos que avariamos nas estradas de Portugal, foi a resposta.

Entretanto, o sinal verde abriu e a ambulância seguiu. Mais tarde encontro a sobrinha de alguém que trabalhou no INEM. Relato-lhe a história acima descrita. O que me conta a seguir é aterrador, partindo eu do princípio que é verdade.

E, em síntese, o que me diz é o seguinte: um operador das ambulâncias do INEM, ditas Ambulâncias de Emergência Médica (AEM) ganha cerca de 800 euros em horário completo. Para levar 1200 euros para casa terá de trabalhar 30 dias mês e muitas vezes a 16 horas por dia (e sem folgas). Imagine o seguinte: antes de fechar o turno, uma hora antes, por exemplo, o meu tio recebia ordem de seguir com a ambulância para Lisboa. Está a ver as horas a mais que teria de fazer! E não se esqueça que nas ambulâncias do INEM não se anda a pisar ovos, anda-se a pisar o risco de vida, e isto dia após dia. A consequência desta situação é que há falta de motoristas. Dou-lhe um exemplo: circula na cidade a ideia de que a ambulância do INEM afeta ao Hospital de Faro está na maior parte do tempo parada por falta de pessoal! É o que ouço dizer, acrescenta.

Adicione a este quadro a questão que me conta das ambulâncias avariadas. E não se esqueça da resposta que lhe deram: qualquer dia somos nós que avariamos nas estradas deste nosso país! E é verdade, também já ouvi essa frase várias vezes.

Chegado aqui, lembro-me do caso do Professor Amaral Dias. A ambulância dos bombeiros do Beato, em Lisboa, veio socorrer o referido professor que estava a sentir-se mal. A ambulância veio, o doente foi transferido para a ambulância e, a seguir, arrancou. Mas tal como muitas outras ambulâncias do INEM, esta avariou e o doente morreu por falta de apoio médico. Nada mais aconteceu. E como ninguém é responsável neste país, nada aconteceu, a não ser que se fez o funeral do prof. Amaral Dias.

Poderíamos dizer de uma outra maneira ainda mais contundente e mais  precisa: aconteceu sim mas ao indivíduo contrário que é o alvo mais fácil, ao operador da central do INEM, que está gerir os distritos de Leiria, Lisboa, Santarém, Évora, Beja, Setúbal e Faro, este é o alvo mais fácil, quando o real responsável era o bombeiro que ali foi com a ambulância do Beato, porque ao avariar a sua viatura, tem que contactar de imediato quem o coordena no momento que mandou sair a ambulância que foi o Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) e não o fez , em vez disso contactou o seu quartel que não tinha viaturas disponíveis para irem ajudar e a vítima morreu por falta de assistência médica avançada.

O bombeiro terá ficado atrapalhado com a situação, é possível, mas no seu quartel ninguém poderia ter ficado atrapalhado. Deveria ter sido feito o contacto ao CODU a partir do quartel. No fundo, aquilo que o bombeiro singular não fez deveria ter sido feito a partir do quartel. É aqui que reside a responsabilidade, mas mais uma vez é mais fácil tocar no operador singular da central do INEM que está a gerir 7 distritos com milhares de ambulâncias e tudo ao mesmo tempo do que tocar na Instituição Bombeiros. Em síntese, o bombeiro deveria ter contactado o CODU referindo que a ambulância avariou e o CODU enviava de imediato outro meio mais próximo. Isso não foi feito e a referida vítima morreu.

Tudo isto faz-me lembrar uma outra história mais antiga. Por volta de 2010, apanho um táxi. Quero ir para a Urbanização Quinta S. João, em Coimbra. E é para aí que o motorista me leva. A umas centenas de metros diz-me desculpe, enganei-me, estou a levá-lo para o Alto de S. João. Não, não está. Esteja descansado, está a levar-me para o sítio certo. Desculpe-me, repete, estou nisto há pouco tempo.

Não havia GPS, sublinho. Espanto-me com a confusão do motorista, confusão que, afinal, nem sequer existia. Espanto-me ainda quando me diz que anda nisto há muito pouco tempo. E pergunto: está nisto há quanto tempo? Há cerca de um mês, respondeu.

Não posso acreditar, digo. Como é possível que você tenha o mapa de Coimbra na cabeça no intervalo de um mês? Repare: o senhor ouviu bem a direção e traz-me ao sítio certo. Portanto, é uma reação de instinto sobre o que já tem na cabeça. Depois admite que se enganou, uma confusão apenas de nomes parecidos, mas isto só confirma que o mapa está presente na sua cabeça. Já agora, o que é que fazia antes?

Trabalhava na empresa DHL, respondeu-me. Fazia entregas de média e longa distância.

E saiu, porquê?

Sabe: os nossos tempos para a distribuição estão programados e se calhar ao segundo. Andamos sempre no limite da velocidade permitida. Acidentes? A fasquia que a DHL assume quanto ao seguro contra acidentes é muito alta. Conclusão: parte do meu ordenado, grande parte mesmo, fica retida para pagamento dos custos dos pequenos acidentes. Abaixo do alto valor da fasquia, as custas dos pequenos acidentes eram da minha inteira responsabilidade. Vim-me embora.

Depois, conversámos muito tempo com o táxi parado. Foi comovente, direi, a noção havida quanto às condições de trabalho destes nossos entregadores, quanto à exploração intensiva a que estes entregadores de profissão estão sujeitos. Possivelmente, condições de trabalho não muito diferentes das empregues por outras grandes multinacionais, como Amazon, por exemplo.

No dia seguinte dei uma aula de Economia Internacional e o tema de abertura da aula foi exatamente o que aprendi na viagem de táxi: a intensificação do trabalho por hora de relógio, por um lado, a que Marx chamaria mais-valia absoluta, por comparação com a ideia de intensidade média do trabalho socialmente aceite no tempo e na sociedade em análise. Chamei-lhes a atenção para a importância da leitura dos grandes clássicos, Smith, Ricardo e Marx até para perceberem uma coisa tão simples como a formação do salário. Um elemento histórico, diz-nos Ricardo, um elemento moral e histórico, diz-nos Marx, onde seria necessário perceber a diferença entre produtividade do trabalho e intensidade do trabalho. Nada disto fazia parte do universo plano dos neoliberais – dos Samuelson, dos Lerner, dos Stolper -, da ideia de produtividade marginal, da sociedade sem classes destes três últimos autores. Quanto à ideia de mais-valia absoluta de Marx, repare-se que para o mesmo salário monetário por hora relógio teríamos agora, pela maior intensidade de trabalho obtida por hora de relógio, a prestação de maior quantidade de bens e serviços produzidos, o que à intensidade média de trabalho corresponde a mais do que uma hora e para o mesmo salário nominal. Mais valia-absoluta diria Marx. No fundo, o que está bem presente na história do entregador da DHL é a contradição de classes que caracteriza o capitalismo e que se expressa na luta pela repartição e pelas condições de trabalho, uma luta que está sempre eliminada da análise da teoria neoclássica, dita ainda economia neoliberal.

Garantidamente, nesse início de aula falei ainda de uma outra particularidade deste entregador, que muito me impressionou: a enorme capacidade mental de se transpor das entregas de média e longa distância para entregas de curta distância, no fundo, impressionou-me a sua capacidade de fixar o mapa da cidade sem precisar de muito tempo a estabelecer as rotinas sobre a mesma. Em termos de equivalência com o ensino de matemática, diríamos que a diferença é a mesma entre quem aprende a teoria para poder fazer todo o tipo de problemas a ela ligados e aquele estudante que aprende apenas a fazer problema a problema sem saber a teoria subjacente, decorando-os um a um. Há disciplinas nas Faculdades de hoje que são feitas assim: decorando os problemas! E fiquei-me por aqui, passando imediatamente à matéria de Economia Internacional.

Tinha razão o meu antigo aluno Pedro Pinto, empresário bem conhecido na cidade de Coimbra, que considerava como o mais importante das minhas aulas, não as aulas em si-mesmas mas a abertura que eu fazia em muitas delas: Parecia que estava a falar de nada, disse-me ele um dia, mas estava a centrar a importância da disciplina para a nossa visão sobre o mundo real. E relembra-me a queda do Presidente do Perú, Alan Garcia. Nesse tipo de início de aula e ao falar da América Latina, disse numa aula em que ele estava que a pressão sobre o Perú era de tal forma forte que o governo teria de cair. A direita não gosta de reformas sociais e a América Latina é o quintal dos Estados Unidos, terei eu acrescentado O Pedro Pinto levanta o braço e diz: professor o governo caiu há cerca de uma hora.

O taxista de ontem, o operador do INEM hoje. As condições de trabalho não terão mudado nada e quanto a isso ninguém quer saber. Perguntem aos socialistas o que é que eles fizeram quanto à salvaguarda das condições de trabalho de quem trabalha. Perguntem às gentes da AD o que fizeram sobre o mesmo tema. A resposta será sempre, Nada. Mas com uma diferença de fundo: geralmente as condições de trabalho são estabelecidas pelos teóricos da AD no poder e estas condições são depois consentidas pelo PS em nome da competitividade das empresas ou em nome das contas certas. Quase que sistematicamente tem sido sempre assim.

As ambulâncias do INEM de que falo, estas não são de ontem, são de hoje, e não haverá grande diferença entre o operador da DHL com quem andei de táxi há cerca de 15 anos e os operadores do INEM de hoje. Passaram-se anos e anos para estar tudo na mesma, exceto o discurso em que nos dizem que estão a trabalhar no duro para o bem-estar dos portugueses. Veja-se o discurso de Luís Montenegro no Pontal, de ontem. Perguntem então aos motoristas do INEM se ele fala verdade.

Perguntem, perguntem! E entretanto relembro aqui que na transição de Sócrates para a Administração Passos Coelho nomearam um novo presidente do INEM através de um concurso público e ganhou no concurso o Dr. Paulo Campos, médico de carreira e major-general do exército. À sua chegada terá encontrado um instituto público disfuncional, mandou muitos processos para o DCIAP e também mandou instalar muitos processos disciplinares e a consequente medida do governo foi mandar embora este incómodo presidente do INEM. Suspenso pelo ministro Paulo de Macedo e mais tarde demitido por Adalberto Fernandes na sequência do processo instaurado com Paulo de Macedo como ministro de tutela, tendo como base a deslocação de uma doente de Cascais para o hospital de Abrantes. Sobre esta deslocação relatava o Diário de Notícias na época:

“Em conferência de imprensa na tarde desta terça-feira, Paulo Campos, demitido da presidência do INEM, garantiu que vai contestar na justiça a decisão de ser afastado do cargo, que classifica como um saneamento político do anterior governo, sublinhando que não conhecia a doente que foi transportada para Abrantes e que se limitou a assegurar a sua transferência de forma adequada”.

Convenhamos, se se trata de uma demissão que aparece justificada pela deslocação de alguém que Paulo Gomes não conhecia sequer, diremos que é uma demissão estranha, a conferir credibilidade à ideia de que a sua demissão seria política e tanto mais estranha quanto no caso do Prof. Amaral Dias, em que houve uma morte, nada disto se passou. Depois disto, fez-se um silêncio total sobre a questão. No entanto, como se sabe o INEM tem sido alvo de sucessivas críticas nestes últimos anos e as sete ambulâncias paradas na periferia de Faro à espera de reparação não abonam em nada a qualidade de gestão do INEM. Pessoalmente soube apenas que anos depois, uma alta figura responsável pela saúde em Portugal se terá referido numa aula de mestrado em saúde lecionado em Lisboa, à gestão caótica que estava a ser praticada do INEM, mas disso não sei nada.

Mas o discurso de Luís Montenegro do Pontal aí está para toda a gente o ler e entender. Se as ambulâncias do INEM tivessem ouvidos ouviriam o troar dos tambores a anunciar as promessas mas as ambulâncias paradas dizem-nos que nos situamos nas antípodas daquele discurso, que somos um país avariado, tal como as ambulâncias, à espera de um concerto que o povo há‑de um dia fazer. Esperemos que não leve muito tempo a fazê-lo.

Dizem-nos que estão a trabalhar no duro para o bem-estar dos portugueses, dizem-nos isto, mas perguntem se isso é verdade, perguntem-no a todos os trabalhadores, incluindo os do INEM, que trabalham no duro e que ganham menos de 1500 euros por mês. Perguntem-lhes também se estes não se acham com o direito ao mesmo bónus que os reformados beneficiados no discurso do Pontal. Perguntem-lhes, então.

 

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