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Olhares de um velho professor sobre uma juventude que se quer com futuro
Faro, em 21 de Agosto de 2024
Dizia-me há dias uma figura de proa do tempo de Mário Soares que o que mais o preocupava não era tanto a má situação política, económica e social que atravessamos mas sim o facto de que esta situação nos mostra um país disfuncional, em que nada do que se está a passar parece ser entendível. Nada do que se está a passar parece ter sentido e se assim é, estamos a cair numa situação de caos e, a partir daí, abre-se totalmente o campo à irracionalidade política.
Dois a três exemplos.
- Uma rapariga que sabe fazer contas
Há dias estive num café e somos atendidos por uma rapariga de ar muito jovem. Quando quero pagar chamo-a e faz de cabeça a conta: 5.85 euros. Espantei-me, ver uma teenager a fazer contas de cabeça e contas matematicamente certas! Uma coisa que já se perdeu de vista. Pergunto-lhe: anda a estudar? Sim, passei este ano para o 12ª ano. Humanidades ou Ciências? Ciências, respondeu. E, já agora, com que média? Sorriu e diz-me: tenho a média estragada com a Educação Física. Que nota teve a matemática? Que média tem do 11º ano? A Matemática tive vinte e tenho média de 19 no 11º ano. Volto a questionar: Sabe, já há muito tempo que não vejo uma jovem a fazer contas de cabeça e contas certas! Admiro-me com isso.
A este comentário recebo uma resposta curiosa: faço sempre assim mas costumo confirmar sempre com a máquina. Deixei-me rir e digo-lhe: ao pé do restaurante Vasco da Gama está um velhote, numa loja de material de pintura, que faz a mesma coisa: primeiro faz as contas à mão, depois, confirma-as à máquina. Sabe porquê? Não faço nenhuma ideia, respondeu ela. Simples, é velhote e quer resistir à máquina implacável do tempo, mantendo em exercício máximo possível as suas capacidades intelectuais. Ora, a sua máquina do tempo, ao contrário do que se passa com este velhote, cujas capacidades tendem a diminuir com a idade, está a seu favor pois o seu problema não é o de não deixar diminuir as suas capacidades mentais, mas sim o de as aumentar e isso só se faz, desenvolvendo-as. Por isso, não precisará sempre de confirmar as contas para manter as suas capacidades mentais, precisa, isso sim, é de aumentar a confiança em si-própria. Tem sentido, retorquiu. E a conversa ficou por aqui.
Num outro dia, voltei a ser servido pela mesma rapariga, estava eu com a minha mulher e esta ficou radiante quando ouviu a rapariga dizer que a disciplina que mais gostava era a química, depois a física, depois a matemática.
Como empregada de café tem uma postura física com a bandeja que denota alguma insegurança, com a bandeja sempre segura com as duas mãos e com alguma curvatura física do seu corpo para a frente. Disse-lhe: claramente não passou por nenhuma escola de hotelaria. Porquê, questionou ela? Tem uma curvatura da linha de ombros o andar de quem estuda muito e de que não fez nenhuma ginástica de correção [1]. Na Hotelaria, isso seria retificado. Como reação, o que me fez rir a mim e à minha mulher, endireitou-se toda, empertigada, e atirou o peito para a frente, com o comentário seguinte: não estou assim tão mal como diz, acrescentou. Não vale a pena fazer batota, reagi eu e continuei: colocar a coluna direita, é simples, endireitar a linha de ombros, próprio de quem passa muito tempo a estudar e muito pouco tempo a fazer ginástica, se é que gasta nisso algum tempo, é algo bem mais difícil. Tem razão, sabe, eu fazia Pilates, mas com a pandemia deixei de praticar.
Ouça, minha amiga: isso são vícios, são posturas físicas erradas, que se transportam, em geral, desde a escola primária. A criança é rainha, ninguém a deve obrigar a nada, ela deve fisicamente estar como lhe é mais cómodo. É isto que se diz hoje às crianças. A mesma coisa se passa com a escrita. Ninguém obriga a criança a ter uma postura correta com a caneta na mão. Os resultados são bem visíveis, hoje, na má caligrafia da maioria dos nossos estudantes para além de problemas de destreza manual que se não ganha. Ouça, a pandemia já passou, é tempo de retomar as velhas práticas, é tempo de corrigir erros do passado e de ganhar posturas de estar a estudar mais conformes com o nosso bem-estar presente e futuro. É também uma questão de saúde. Não se esqueça disso, foi a minha longa resposta.
Depois, questionei-a sobre se estar ali a trabalhar correspondia a necessidades económicas e se não correspondia, correspondia então a quê? Disse-me que não era por questões de necessidades económicas, acabou o 11º ano, para o ano teria um ano mais desafogado, gostava de fazer uma grande viagem pela Europa e queria juntar dinheiro para isso. Mas acrescentou um outro dado e bem curioso que não estamos habituados a equacionar: por natureza e/ou por arrasto pela pandemia Covid, sentia-se muito tímida em falar com os outros. Vir para aqui seria uma via de desbloqueamento, e está a sê-lo, acrescenta ela. Percebe-se, penso eu com os meus botões. Falar diariamente com gente que nunca viu nem ouviu, sendo-se tímida, não é nada fácil. Está a consegui-lo, e a prova disso mesmo, é o presente texto. Para mim, e muito escrevi sobre isso, este facto levanta um problema que à escala nacional pode ser muito sério: os efeitos da pandemia Covid sobre a nossa capacidade de comunicar uns com os outros, a nossa capacidade de falar, podem atingir níveis preocupantemente graves entre os jovens. As clínicas de terapia da fala começam a estar repletas de crianças e adolescentes.
Chegados aqui, levanto uma questão para mim nevrálgica: não quero ser indiscreto mas diga-me quanto é que ganha aqui? Trabalho 4 horas por dia, 6 dias por semana e ganho 400 euros, respondeu ela. Bom, digo eu, trabalha 24 horas por semana, 96 horas por mês, ganha cerca de 4 euros por hora. Certo, acrescento. Certo, respondeu ela. Mas, minha amiga, façamos um outro cálculo, mais correto: considere que a semana de trabalho completa é de 40 horas vezes 4 semanas igual a 160 horas por mês em quatro semanas. Mas ganha ao mês e o mês tem mais de quatro semanas, com o salário mínimo mensal de 820 euros. vezes 4 euros/hora dá-nos o valor de 704 euros, inferior, portanto, ao salário mínimo nacional que é de 820 euros. A divisão de 820 euros por 160 não lhe dá a remuneração horária mensal, uma vez que ao mês trabalha mais de 160 horas em tempo completo.
Admitamos que a jornada completa é a jornada padrão, que corresponde a 8 horas diárias e 40 horas semanais. Este é o regime de trabalho mais comum e é este que se aplica à grande maioria dos trabalhadores. É também conhecido como “a tempo inteiro” ou “tempo integral”.
Ora o salário mínimo nacional é de 820 euros mensais. Daqui, e de acordo com o Código do Trabalho, artigo 271º temos como fórmula para deduzir o salário mínimo horário a seguinte expressão:
SMH= (Valor do salário mínimo x 12 meses):(52 x n) = (Remuneração base mensal x meses num ano): (52 semanas x número de horas semanais trabalhadas)
Assim, utilizando o mesmo valor base (820€), para um horário a tempo integral (40 horas semanais), o valor hora é calculado da seguinte forma:
Salário mínimo por hora de trabalho = (820x 12) : (52 x 40)= 4,730€
Deste modo, obtém-se o salário mínimo horário que é de 4,73 por hora.
Diz-me que trabalha 96 horas em 4 semanas e que o salário é expresso em termos mensais- 400 euros. Precisamos de saber qual é o número de horas de trabalho mensal, uma vez que o salário é mensal, sabendo que trabalha 24 horas por semana ou 96 horas em quatro semanas. Ora, o ano tem 52 semanas a que corresponde por mês 52/12 semanas, ou seja, 4.333 semanas por mês, e como trabalha 24 horas por semana de sete dias teremos então que o número de horas trabalhadas por mês por si é de 4,3333×24 horas =104 horas por mês. De forma ligeiramente diferente em termos de dedução teríamos as 96 horas x (52/48) = 104 horas [2].
A segunda via deduz-se facilmente a partir do salário mínimo mensal de 820 a dividir pelo salário horário de 4.730 euros por hora. Isto diz-nos que ao mês se ganha 820 euros e se trabalha durante 173,4 horas. Dai pode dizer-se que trabalhar 160 horas em cada quatro semanas corresponde a dizer-se que trabalha 173,4 horas ao mês, da mesma fora que se deve dizer que trabalhar 96 horas em cada quatro semanas significa estar a trabalhar 104 horas ao mês em regime de tempo parcial, como se exemplificou no parágrafo anterior.
Ganha 400 euros por mês, trabalha 104 horas, o que significa que ganha cerca de 3.90 euros por hora, abaixo portanto do salário mínimo nacional. E isto, convenhamos, é socialmente triste, muito triste.
Nunca tinha pensado nisso desta forma, rematou ela. E acrescentou: o senhor continua a ser professor. Ainda dá aulas, espero, diz-me num tom interrogativo.
Não, isso são contas de um rosário que percorri vezes sem conta. Já me deixei disso, o fio partiu-se e as contas do rosário sumiram-se, respondi. E a rapariga continuou ela: ainda está tão novo! Aqui lembrei-me do professor Guido Montani que, perante uma pergunta complicadíssima que lhe coloquei, me pergunta a idade. Diga-lha, 81 anos, e a sua resposta foi: tenho 80 anos, sou um ano mais novo que você!
Levantei-me, paguei e dizendo até logo, virei-lhe as costas repentinamente. Lembrei-me de Charles Chaplin em Os Tempos Modernos ou Claude Lelouch em Os 400 golpes enquanto me dirigia a casa. Penso ter deixado para trás uma jovem espantada a ver-me pelas costas e a pensar: que professor curioso. E não se quer esquecer nem como se devem fazer as contas nem de que é sempre necessário descobri-lhes o sentido. Sem isso são as próprias contas que deixam de ter sentido!
- Um jovem que quer ser professor universitário
Ouvi falar à mesa de um café num outro caso bem curioso. Trata-se de um jovem universitário que anda em História, no segundo ano da Faculdade de Letras em Lisboa. Senta-se na mesa ao meu lado com os amigos e amigas e pela conversa soube que esteve a trabalhar num restaurante, de onde saiu porque não aguentou a carga de trabalho: 10 horas de trabalho por dia e no duro. Ouço falar da Faculdade de Letras e questiono se o estudante referido conhece VSL na Faculdade de Letras. Não conhece, mas a ligação entre mim e o grupo ficou feita com esta pergunta. Passo a fazer parte do grupo, um velho no meio de gente jovem e tive que fazer algum esforço para não me sentir muito deslocado. Foi um bocado de tempo agradável em que sobretudo se falou das questões deles em termos das suas ocupações temporárias. No caso do jovem que me chamou a atenção, fico a saber que o pai trabalha numa oficina de automóveis e que mãe tem, com mais duas colegas, um gabinete de esteticista. Dito de outra forma, o dinheiro por aqui não abunda. O pai completa o fim do mês da casa com múltiplos biscates, como por exemplo, lavar montras ou levar automóveis à inspeção, mas uma coisa é certa, não quer que em tempo de aulas o filho trabalhe seja no que for, seja em que condições for. É tempo de preparar o futuro, cabe-me a mim e à tua mãe garantir os meios para o construíres. Depois de licenciado, o problema passa a ser teu, agora é meu e da tua mãe, o que me diz por palavras que julgo serem suas. Acrescenta que depois de fazer mestrado e doutoramento, aspira a ser professor universitário.
Há um fulgor espantoso nesta sua expressão de firmeza quanto ao desejo como futuro que muito me enterneceu. Oxalá muitos jovens se expressassem com tanto empenho como este jovem que nunca tinha visto até aqui. Mas há neste seu relato algo que não posso deixar de sublinhar: a firmeza de um pai a assumir-se com tal, com um dever, o de financiar o filho, e com um direito, a exigência de que o filho lhe corresponda. Em contraponto, temos o filho a assumir a obrigação correspondente, ao querer doutorar-se e de modo a poder vir a ser professor universitário [3].
Pergunto-lhe mas sendo assim porquê estar a trabalhar em parte-time em tempo de férias, em Faro? Sabe, em Lisboa também faço algumas despesas pessoais correspondentes a opções pessoais e acho que os meus pais não têm que as pagar- O dinheiro ganho serve assim para os meus alfinetes, como ir jantar com uns amigos, ir ao cinema, a um concerto, etc. Coisas de jovens, remata.
Puxo-lhe a conversa do restaurante. Não me disse o nome, também não lho perguntei. O que me incomodou foi que fiquei com a sensação de que se tratava de um restaurante de luxo. Neste restaurante, o número total de horas seria então mensalmente de 6 dias por semana x10 horas por dia x4 semanas= 240 horas/mês. Com o salário mensal de 800 euros, isto significa 3.30 euros/hora de remuneração horária. Diríamos, isto é uma vergonha. Ora, sendo um restaurante de luxo tem uma estabilidade de funcionamento e, sendo assim, terá pois pessoal sempre assegurado e a conclusão é imediata: servem-se de pessoal migrante. Por aqui, por Faro haverá sempre gente imigrante disponível. De resto, isto verifica-se em muitos lados. Porém, isso levanta-me uma outra questão a que não sei responder. Por onde andam então os muitos milhares de jovens que não continuam a estudar, se não os vemos neste tipo de empregos indiferenciados e indiferenciados não significa que tenham de ser precários? Alguém me sabe dizer?
Comentei com este jovem universitário um texto de Dayen que tinha lido sobre a restauração nos Estados Unidos e sobre a pouca vergonha que são as remunerações neste setor, um texto que passo a reproduzir:
“Restaurantes do Arizona querem reduzir os salários dos seus empregados
Enquanto ambos os candidatos presidenciais apoiam a eliminação dos impostos sobre as gorjetas, no Arizona as empresas procuram reduzir o salário mínimo para esses mesmos trabalhadores que recebem gorjetas.
A campanha de Harris-Walz anunciou um discurso na sexta-feira em Raleigh, Carolina do Norte, que será “focado no seu plano para reduzir os custos para as famílias de classe média e enfrentar a manipulação de preços empresariais ”. Os números da inflação de hoje, que caíram abaixo de 3% ano após ano pela primeira vez desde 2021, sugerem que uma versão disso é “continuar a fazer o que estamos a fazer”.
Mas o discurso é notável como parte do lento desenvolvimento da agenda político-económica de Harris, afastando-se das banalidades e aproximando-se de pormenores reais. Para a aconselhar, a candidata passou a contar com o apoio dos veteranos da administração Biden, Brian Deese e Bharat Ramamurti, que foram fundamentais na transição de Biden para uma postura mais agressiva em relação ao poder das empresas (incluindo… a luta contra a subida de preços das empresas), e as contratações de Lina Khan, Jonathan Kanter que permitiram reforçar as posições de Kamala Harris.
Até agora, a maior jogada de política interna da campanha foi o facto de Harris ter cooptado a ideia de Donald Trump de eliminar os impostos sobre as gorjetas. Apresentou-a num comício na semana passada, em Las Vegas, a que assisti, a pedido da Culinary Union. Já dei a minha opinião sobre o assunto: Não é uma política muito boa que não trará grandes benefícios para aqueles que realmente precisam – (os trabalhadores que recebem gorjetas e que não devem impostos federais) – ao mesmo tempo que reforça a cultura das gorjetas para aqueles que realmente não precisam.
A melhor maneira de ajudar os trabalhadores que recebem gorjetas é aumentar os seus salários normais. O salário mínimo na América é tão baixo quanto $2,13 por hora em muitos estados. As empresas gostam disso porque não têm de pagar muito em salários ou impostos sobre os ordenados, deixando a necessidade de dar aos trabalhadores uma vida decente ao sabor dos caprichos dos clientes. Resolver os problemas do salário mínimo reduzindo os impostos sobre as gorjetas de (alguns) trabalhadores, em vez de aumentar os padrões salariais das empresas que os empregam, serve os interesses dos grupos empresariais.
E sabemos isto porque, num estado dito swing state, ou seja, estado de resultados eleitorais não definidos para qualquer dos candidatos, onde os republicanos e esses mesmos grupos empresariais, que apoiaram a ideia de “não cobrar impostos sobre as gorjetas” quando era apenas uma ideia de Trump, estão agora a querer reduzir os salários dos trabalhadores dos serviços através das eleições.”
A Proposta 138 a ser votada no Arizona neste outono mudará a constituição estadual para permitir que os proprietários de empresas reduzam o salário dos trabalhadores que ganham gorjetas para 25% abaixo do salário mínimo estadual. Atualmente, essas empresas podem pagar aos trabalhadores até menos de $3 por hora. Isso equivale a um corte salarial de 5% no prazo imediato e mais ao longo do tempo.
Iam ser apresentadas medidas de voto concorrentes sobre esse tema, uma que eliminaria o salário mínimo para os trabalhadores que recebem gorjetas no Arizona e outra que reduziria esse salário mínimo. Mas, sob pressão de uma ação judicial da Associação de Restaurantes do Arizona, a campanha Raise the Wage retirou as suas assinaturas na semana passada. Por isso, só os eleitores vão poder decidir se o salário mínimo dos trabalhadores que recebem gorjetas deve ser mais baixo.
Os legisladores republicanos colocaram esta proposta no boletim de voto , com o apoio das mesmas pessoas da Associação de Restaurantes do Arizona. A Associação Nacional de Restaurantes e os republicanos nacionais apoiaram a ideia de Trump de “não cobrar impostos sobre as gorjetas”. Esta medida do Arizona revela os verdadeiros objetivos da ideia de Trump: falar de uma ideia que soa populista enquanto deixa as empresas reduzirem ainda mais os salários.
Isto explica a minha hesitação em relação ao facto de Harris cooptar o plano de Trump, quando existe uma política que ajudaria efetivamente os trabalhadores que recebem gorjetas e que precisam dela. Harris poderia começar a resolver este problema opondo-se à Prop 138 no Arizona e candidatando-se ao aumento do salário mínimo”. Fim de citação.
A juventude é carne para canhão, aqui, em Faro, em Portugal, nos Estados Unidos, em todo o lado, é a conclusão a que ambos chegámos, trabalhe-se ou não na restauração, seja-se ou não seja estudante no secundário, onde a digitalização do ensino vai fazer com que a transformação de crianças em jovens adultos venha a ser um verdadeiro desastre, seja-se ou não estudante universitário depois, com cursos a serem lecionados para a geração alfa, a digital.
A seguir dou-lhe um exemplo contado pela minha neta. Uma amiga sua, que conheceu em Erasmus a estudar em França e cuja ambição era ser professora de francês no seu país quer regressar a França para aí continuar os seus estudos linguísticos. Arranjou um part-time em Paris – 16 horas semana e a ganhar 800 euros por mês. Considerando a carga horária semanal em França de 35 horas, esta remuneração ao mês seria aproximadamente de 800 x (35/16), ou seja, a remuneração ao mês seria cerca de 1750 euros, praticamente igual ao salário mínimo francês, uma vez que o salário mínimo francês é em 2024 o seguinte:
- Smic líquido no 1º de janeiro de 2024: 1.398,69 €
- Smic bruto no 1º de janeiro de 2024: 1.766,92 €
- Smic horário líquido no 1º de janeiro de 2024: 9,22 €
- Smic horário no 1º de janeiro de 2024: 11,65 €
Retenhamos a remuneração bruta em França. Daqui se tira que o cálculo em horas de trabalho mensais é-nos dado então pela seguinte fórmula: 1.766,92 € a dividir pelo salário horário bruto que é de 11.65., o que nos dá a quantidade de horas consideradas mensalmente para este salário, ou seja, 151,7 horas. Ora, a carga horária por semana em França é de 35 horas e as 4 semanas correspondem a uma carga horária de 4 vezes 35 horas, o que é igual a 140, mas o mês tem mais de 4 semanas. Dizer então que se trabalha 140 horas em 4 semanas é a mesma coisa que dizer que se trabalha 151.7 horas mensalmente. Fazendo como para o caso português, multiplicando 140 x (52/48), obtemos igualmente o valor 151,7 horas. Paralelamente, dizer que se trabalha 64 horas em quatro semanas é a mesma coisa que dizer que mensalmente se trabalha aproximadamente 69.5 horas determinados pelo produto de 64 x (52/48). A amiga da minha neta ganha 800 euros mensais e trabalha mensalmente 69.33 horas. O salário horário da amiga da minha neta é então de 11,55 euros por hora de trabalho. E as contas são o que são: alguém a trabalhar para se especializar fica a ganhar o salário mínimo nacional mas em termos de part-time! Precariedade absoluta e à remuneração do salário mínimo, eis o que é oferecido à nossa juventude.
Ou seja, a menina amiga da minha neta iria ganhar uma quantia que não lhe chegaria para pagar um quarto para dormir! Carne para canhão em qualquer lado é o que os estudantes são, mesmo que embalados nos seus sonhos de viagens, e não deixa de ser curioso que tomando o salário como referência em cada país, a remuneração seja praticamente igual, ou seja, é proporcionalmente igual aqui em Faro ou em Paris.
Ser carne para canhão alimenta o sistema por duas vias:
- Por um lado, uma enorme massa de gente terá de trabalhar para se aguentar a estudar e isso, além de significar baixa salarial nos setores onde essa gente aflui, significa supostamente cursos de menor qualidade, as más qualificações, e este facto alimentará o sistema com quadros médios depreciados na remuneração pela formação adquirida.
- Alimentará o ego das classes desfavorecidas por se sentirem promovidas por terem os seus filhos licenciados. Ignoram ainda que à medida que a densidade estudantil aumenta, aumentam igualmente os filtros de seleção criados. E as exigências financeiras com a formação adicional exigida nos bons empregos aumentam ainda mais.
- Uma lição sobre o que é concorrência
Estive há dias no cais de embarque da doca de Faro, onde a concorrência de operadores turísticos é forte, feita a partir de jovens precários, universitários alguns, como os que tenho vindo a descrever. Há oferta enorme para uma multiplicidade de viagens na ria de Faro e em particular para as ilhas Farol-Culatra e Deserta. Ia comprar bilhetes para a praia do Farol. Estávamos a 15 de Agosto, dia feriado, e as filas eram enormes.
Aqui lembro-me de uma conversa havida aí há uns dez anos e que passo a relatar. Nessa altura fui abordado por dois jovens a oferecerem bilhetes para a Deserta a 10 euros, ida e volta. Disse que não estava interessado mas já agora aproveitava para lhes fazer uma pergunta: será que me sabem explicar por que é que uma viagem para a ilha do Farol, ida e volta, custa 6 euros e a viagem para a Deserta custa 10 euros? A ilha é uma em frente da outra, a distância é a mesma, os barcos são equivalentes, logo não percebo uma tal diferença no preço dos bilhetes. A resposta surgiu rápida, como estando já engatilhada e utilizada para responder a muita gente que terá feito a mesma questão. Tratou-se de uma resposta curiosa, denotando que estes operadores teriam sido escolhidos a dedo, dando-me uma convincente explicação de matriz absolutamente neoliberal, para quem o quer ouvir. A resposta mais palavra, menos palavra foi a seguinte “sabe, tornando caro o preço da passagem, reduzimos o número de passagens, [lei da oferta e procura] garantimos assim que fica na ilha Deserta sentindo-a como deserta e sentindo-se bem mais à vontade. Face aos nossos colegas que vendem produtos aparentemente similares, a nossa concorrência faz-se pela qualidade e não pelo preço. A diferença de preço é, pois, a expressão dessa diferença na qualidade, dessa comodidade, desse luxo, um grande luxo nos tempos de turismo de massas como agora.
Discordo, foi apenas o que disse. Virei as costas e pensei: é desta massa que se fazem os neoliberais que encabeçarão as filheiras da Iniciativa Liberal nas próximas eleições.
Por curiosidade, a minha filha e a minha neta mais nova vão hoje, dia 21 de agosto, à ilha Deserta. Um luxo, um luxo que me recusei a pagar! Quem quer luxos que os pague!
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Notas
[1] Pegar numa bandeja carregada com produtos com uma só mão e caminhar assim, direita, é uma postura difícil. Além do mais exige desenvolvimento muscular específico, o que leva tempo a ganhar.
[2] Esta expressão é derivada da anterior onde o número de horas mensal total correspondendo ao salário mensal recebido é dado por : NHM = (52 (12) x (4/4) x (24) e este último número é, o número de horas semanais. Rearranjando temos: NHM =[52/(12×4)] x 4 x 24. Sabendo que 4z24 é o número de horas trabalhadas em cada quatro semanas temos, por rearranjo da expressão anterior: NHM = (52/48) x 96 horas= 104 horas.
[3] Com este texto já feito, peço a este jovem o seu correio eletrónico para lhe dar conhecimento prévio deste texto. Na conversa havida soube que era trineto de António Aleixo, e não deixou de o sublinhar, um poeta que morreu na pobreza. Mas isto não deixa de ser curioso. Estamos a quatro gerações de distância da geração de Antóbio Aleixo e, no entanto, a palavra pobreza intercala-se na nossa conversa, porque de ontem como de hoje, do que se falou foi da pobreza, da que viveu Aleixo e da que está a ser vivida por enorme camada da nossa juventude, sobretudo algarvia, condenada a um turismo de massa e a um salário de pobreza.

