E por aqui passa a diferença entre o mundo micro dos políticos de agora e a visão macro que há-de garantidamente alimentar a política de amanhã, neste e noutros países europeus
Primeira parte
Exmo. Senhor Presidente da Câmara Municipal de Faro
Eu, Júlio Marques Mota, com BI emitido pelo Arquivo de Identificação de Coimbra, tenho hoje, como segunda habitação, um andar em Faro.
Das duas primeiras vezes que vim para Faro senti-me, naturalmente, como um turista que se quer enquadrar no meio onde irá passar largos períodos de tempo. Procurei então ouvir as pessoas, sentir os odores da cidade, perceber a vida nas suas ruelas, sentir o que se passa nos seus mercados, economicamente procurei sentir a realidade comercial de Faro.
Desses deambulares pela cidade de que é Presidente escrevi, então, duas crónicas publicadas no blog A Viagem dos Argonautas.
Voltei agora a Faro e sobre esta visita publiquei mais uma crónica em AViagem dos Argonautas e no Diário Das Beiras, de Coimbra. É mais um olhar pela realidade do país do que propriamente sobre a sua e minha também cidade de Faro. Mas de Faro propriamente dita verifico que o que escrevi nas duas crónicas de então está tão ou mais actual do que quando eu as escrevi. Como? Pois é, o sentir do piso das ruas, ruelas, travessas de Faro, lamentavelmente, parece-me muito semelhante com as da minha terra, Fratel, uma aldeia que é sede de freguesia, terra perdida nos confins deste país, na Beira Baixa, terra natal de um ou outro nome ilustre como o Engenheiro Araújo Correia, Professor José Baptista Martins, Armindo Monteiro, Soromenho Marques e nada mais.. Sendo assim, é natural que as minhas recordações de infância se possam sobrepor à realidade que nas crónicas quis descrever e distorcê-la a partir do meu imaginário de homem passado à reforma com tempo integral. Tanto é assim que o abaulado do passeio das ruas mais parece uma campainha invertida e abaulada, a denunciar que outrora Faro teria sido cidade de vacas e bois como a minha terra o foi com as ruas moldadas pelo rodar dos carros cheios de feno, ou alternativamente a denunciar que se trata de uma cidade de matemáticos notáveis, pois até o piso das suas ruelas pode fazer lembrar a distribuição normal da curva de Gauss. Mas claramente em Faro nem uma coisa nem outra, nem bovinos nem grandes matemáticos que eu saiba (…). A lembrar carros de bois não, apesar de me referir a passeios como o que dá acesso ao largo da Câmara e para quem vem do museu. A lembrar matemáticos e curvas de Gauss também não, pois matemática é ciência de que há muito tempo a juventude perdeu já a noção da sua importância e o Estado também pouco ou mesmo nada tem feito para combater essa ignorância e que até parece lhe convir .
Mas, simplesmente, mesmo que a minha imaginação ainda não esteja muito ressequida pelos tempos difíceis que atravessamos e seja portanto passível de ser expandida quando me defronto com situações de déjà vu da minha infância, ao voltar a olhar para a cidade penso que o degradar da vida desta localidade leva a que claramente a situação esteja ainda pior do que das outras vezes que cá estive, mesmo que muito recentemente, salvo um ou outro retoque como, por exemplo, os mosaicos da cidade estarem agora reparados. Do resto, tudo permanece como descrevi ou pior ainda. Por tudo isso entendo que lhe devo mandar pessoalmente as ditas crónicas com ou outro desabafo adicional. Moro perto da Rua Caçadores nº 4, rua esta que termina na Praça Alexandre Herculano. Curiosamente, e que eu saiba, nas passadeiras que descrevo numa das crónicas já se deram três desastres e dois deles com alguma gravidade. Trata-se de quedas de gente com uma idade moderadamente avançada, quedas provocadas pela má qualidade do piso e sobretudo devido às espantosas passadeiras desta cidade, tão espantosas que mais reinam o anedótico. Repare-se na obsessão das passadeiras quase todas elas preparadas para carros de deficientes e de forma bem especial. A pedra granítica do lancil, já se de muito alto, é então cortada e faz um ângulo de 25 a 35 graus com o plano da rua. Consequência, tem uma dimensão anormal de cerca de 35 a 40 centímetros a supor então a verificação de uma de duas hipóteses: que estamos perante uma cidade de habitantes tipo mundo de Gulliver, gente pequena que pode passar da passadeira para a rua fazendo da pedra cortada um verdadeiro escorrega, ou inversamente, pensa-se que os nossos idosos têm pernas de gigantes, a lembrar Oscar Wilde e o seu livro dedicado às crianças, idosos que seriam então pessoas de passada larga e que passariam do passeio para a rua sem colocar o pé no meio da pedra cortada, inclinada e por vezes escorregadia, a pedra da passadeira.
Mas este país tem velhos, e cada vez mais velhos, cada vez com mais dificuldades em andar e que possivelmente não poderão passar do passeio para a rua ao atravessá-la sem colocar um pé na maldita pedra alisada pelo tempo. A consequência salta a vista: escorregadelas. Duas pessoas idosas estão agora no Hospital há mais de um mês. Quem responde pelo que aconteceu? O senhor? Não acredito. Dir-me-á que a Câmara não tem dinheiro para obras. Primeiro, não se trata de dinheiro, trata-se apenas de concepção de passadeiras. Depois, aparentemente seria uma questão de dinheiro, se tivesse que empregar gente adicional, gente que teria então certamente disponível nos vossos serviços. Mas havendo gente disponível, não é portanto uma questão de dinheiro, sequer. Mas, admitamos que não tem gente disponível na Câmara. Num país de desempregados, numa das regiões mais sinistradas do país em matéria de desemprego, o Algarve, necessariamente haverá gente no Fundo de Desemprego que poderia assim empregar e tratar-se-ia macroeconomicamente de empregar gente a quase custo zero, mais uma vez. Os subsídios de desemprego praticamente dariam para isso. Mas continuemos a caminho da pior hipótese: não há gente disponível na Câmara, não há gente disponível a ser subsidiada no Fundo de Desemprego, pois estão todos já em fim de direitos, condenados à precariedade mais absoluta. Pois bem, com o custo de os ir buscar, cumpria uma obrigação social, reduzindo a precariedade, concedendo uma contrapartida monetária ao trabalho exigido, a contrapartida do subsídio de desemprego vergonhosamente tirado, e isto seria feito a quem precisa desta contrapartida monetária como do pão para a boca de quem tem fome. Cumpria igualmente uma obrigação, evitando custos desnecessários na saúde com os idosos que caem, custos estes bem mais altos do que os encargos desta política de respeito pela cidade e pelos seus cidadãos que deveria ser feita. Podíamos ir mais longe, e perceber que criar bolsas de empregos e de contrapartidas poderia ajudar a minorar os efeitos devastadores que o desemprego tem sobre as pessoas. Basta pensar no New Deal de Roosevelt criado à escala dos Estados Unidos numa situação de crise como a de agora mas com o governo deste país armado com uma arma fabulosa: a vontade de servir o seu país, enquanto em Portugal o governo vive animado sim, mas a querer servir a potência ocupante: a Troika. Têm ainda na sua região um outro exemplo: obras que ficaram por acabar, estradas cortadas, inutilizadas, estradas novas que ficaram a meio, inutilizadas igualmente. Se pensarmos nos custos globais que significa movimentar as nossas viaturas, as de quem trabalha aqui, sem as estradas novas, as que ficaram feitas a meio e à espera de se estragarem, e sem as estradas velhas, que ficaram cortadas, as despesas dos cidadãos globalmente feitas em percursos que se tornaram muito maiores do que os que já eram , talvez compensassem as obras a fazer. Coragem, honestidade e uma visão macroeconómica da realidade, são pois as três peças necessárias para poder mudar a trágica realidade que vivemos. Em vez disso, actuar como se tem aqui feito significa ter uma visão microeconómica da realidade: as coisas podem estar assim, poupamos dinheiro ou então não precisamos de ir ao bolso do contribuinte, poderá ser o seu pensamento de Presidente.
