Site icon A Viagem dos Argonautas

Entre os Bárbaros de Cavafy e os Monstros de Gramsci — Texto 12 – O fim da grande ordem sob o Céu.   Por Branko Milanovic

 

Dedicatória

Dedico a publicação desta série à memória do Rui Namorado certo de que o espírito desta coletânea de textos corresponde aos ideais de verdade em política e na vida de que o Rui Namorado foi um exemplo.

 

Nota prévia

Aqui vos deixo o texto nº 12 da série dedicada ao Rui Namorado intitulada “Entre os Bárbaros de Cavafy e os Monstros de Gramsci”: O fim da grande ordem sob o Céu -uma recensão feita por Branko Milanovic sobre o livro “A Ascensão e Queda da Ordem Neoliberal” de Gary Gerstle.

Chamo a atenção para a qualidade da recensão em causa que é, simultaneamente, uma análise sobre a obra em questão e um olhar sobre a crise política que atravessamos.

Quanto à equipa de monstros que ocupa atualmente o poder nos Estados Unidos, será publicado na Espuma dos dias um texto sobre Ellon Musk com a assinatura de Quinn Slobodian, antigo professor de Harvard e atualmente professor de História Internacional na Universidade Boston e com o título  Uma aquisição hostil [do poder].

 

Boa leitura

Júlio Mota, 26/01/2025


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

6 min de leitura

Texto 12 – O fim da grande ordem sob o Céu 

Uma recensão de “A Ascensão e Queda da Ordem Neoliberal” de Gary Gerstle 

  Por Branko Milanovic

Publicado por em 22 de agosto de 2024 (original aqui)

 

 

O livro muito bem escrito e de fácil leitura de Gary Gerstle (The Rise and Fall of the Neoliberal Order) aborda dois pontos principais. Em primeiro lugar, e dando continuidade ao livro anterior de Gerstle (The Rise and Fall of the New Deal Order, em co-autoria com Steve Fraser), insiste na ideia de uma “ordem” política e económica. Uma “ordem” é a ideologia dominante num determinado momento, sintetizada e propagada pelas partes mais importantes do establishment político. Segundo Gerstle, houve duas ordens políticas deste tipo nos Estados Unidos durante o século passado: a ordem do New Deal, que começou com Franklin Delano Roosevelt, e a ordem neoliberal, que começou com Ronald Reagan.

Em segundo lugar, estas duas ordens políticas estão relacionadas, de forma quase idealmente sincronizada, com a ascensão e queda do comunismo. Isto não é um acidente. O contexto externo (internacional) desempenhou um papel importante na conceção das ordens políticas dos EUA.

Como é que uma ideologia se torna uma “ordem política”? Existe uma “fase silenciosa” da construção da ordem que envolve os intelectuais e as suas teorias. Para o neoliberalismo, temos de recuar aos Colóquios de Paris de Walter Lippmann, e à Viena de Hayek e Mises e, mais recentemente, a Milton Friedman, Thomas Sowell, Charles Murray, Rush Limbaugh. Considere os anos: Heritage Institution fundada em 1974, Cato Institute 1974, Manhattan Institute 1976, Moral Majority definida em 1979. A ideologia é depois propagada pelo público e adotada por um ou vários movimentos e partidos políticos. No entanto, ela não se torna uma “ordem” até ser aceite ou, como Gerstle gosta de escrever, até ser “consentida” por outras partes do espectro político que a rejeitaram a princípio. (Margaret Thatcher é citada como tendo dito que o seu maior sucesso foi o facto de as suas políticas terem sido continuadas por Tony Blair.)

No caso dos Estados Unidos, os momentos cruciais de transição da ideologia e do movimento político para a ordem aconteceram sob Dwight Eisenhower que (ao contrário de, digamos, William Taft) estava pronto para continuar com as políticas do New Deal, apesar do facto de os republicanos estarem originalmente dispostos a oporem-se a tudo o que FDR defendia. E da mesma forma, é graças a Bill Clinton que o neoliberalismo se tornou uma “ordem” política e económica. Uma determinada ordem política, quando atinge o seu auge, aparece como senso comum. Dificilmente é questionada. Grandes maiorias da opinião pública apoiam-na, mesmo que possam discordar em questões periféricas (do ponto de vista da ordem económica).

Para Gerstle, a ordem neoliberal nos EUA durou desde Reagan em 1980 até, pelo menos, à Grande Recessão, quando se iniciou a sua descomposição, e terminou nas primeira e segunda décadas do século XXI. Trump e, mais importante, a preparação ideológica silenciosa para algo novo (J.D. Vance e Steve Bannon?; este último, aliás, não mencionado) e os defeitos gritantes da ordem neoliberal prepararam o próprio fim desta. Ainda não é claro qual será esta nova ordem.

O argumento sobre a importância do comunismo para a definição das duas ordens é forte e faz muito sentido. Como escreve Gerstle, foi dada muita atenção na década de 1950 aos Democratas que tentavam não parecer brandos com o comunismo, e pouca atenção foi dada aos Republicanos que aceitaram a maior parte dos acordos do New Deal em troca da segurança da propriedade privada. (“A ameaça do comunismo internacional tornou possível a transição do New Deal de movimento político para uma ordem política e garantiu o seu domínio na vida americana durante 30 anos”, p. 46).

Com o declínio da atratividade do comunismo e por fim a sua queda, houve muito menos necessidade de concordar com as reivindicações dos trabalhadores. O Trabalhismo não tinha para onde ir, nem sonhava que podia ir, nem ameaçava ir. O despedimento de milhares de controladores aéreos por Reagan foi a salva de abertura da guerra contra o trabalho. (A globalização e a externalização para a China podem ter sido a segunda.) Este argumento vale a pena ser dito, mas ele não é novo. Krishnan Nayar defendeu vigorosamente o mesmo ponto no seu excelente, mas negligenciado, livro Liberal Capitalist Democracy, e não apenas em relação aos Estados Unidos, mas a todo o Ocidente político (analisei o livro de Nayar aqui). Piketty, embora menos abertamente, expressou a mesma ideia ao mostrar que o “período manso” do capitalismo coincidiu com o auge do poder dos partidos comunistas e socialistas e dos sindicatos na Europa Ocidental. Recentemente, André Albuquerque Sant’Anna, num importante artigo, testou a proposição empiricamente e confirmou a hipótese.

O livro de Gerstle, no entanto, limita-se a mostrar apenas os efeitos do resto do mundo sobre os Estados Unidos, e não o contrário. De facto, os EUA foram um ator fundamental para que a ordem neoliberal se tornasse global. Também aí, Reagan e o choque de Volcker (Volcker, aliás, foi nomeado por Carter) exerceram uma influência crucial. Trouxeram para a ordem, metaforicamente e muitas vezes fisicamente, a América Latina, a África e a Europa de Leste. Quando Clinton fez do neoliberalismo a ordem política e económica americana, tornou também o seu domínio global. Este aspeto está totalmente ausente do livro de Gerstle. Mesmo quando o resto do mundo aparece, muito brevemente com Gorbachev e mais amplamente com o fiasco da guerra do Iraque, é visto apenas pelo prisma dos EUA. Isto não é uma deficiência do livro, porque conta a história da ideologia e da política dos EUA ao longo do último século, mas poderia ter sido mais claramente apontada no título. O subtítulo “A América e o mundo na era do mercado livre” é um pouco enganador simplesmente porque não existe “mundo” no livro. “A América na Era do Mercado Livre” teria sido uma descrição mais precisa do conteúdo do livro.

A presidência de Clinton ocupa quase 50 páginas de um livro de 300 páginas. Mostra Clinton a concluir habilmente que um regresso às políticas do New Deal é impossível, defendendo e aprofundando o neoliberalismo. Gerstle discute as decisões extremamente importantes de Clinton sobre a desregulação da indústria da informação e comunicação e do sector bancário, ambas relacionadas com a famosa estratégia de “triangulação” de Clinton: a perceção de que ele (e os democratas) não podem governar sem o apoio do Silicon Valley e de Wall Street. Clinton conseguiu que ambos estivessem do seu lado, dando-lhes o que eles queriam e (como escreve Gerstle) desregulamentando muito mais do que Reagan. Além disso, reduziu o Estado de bem-estar social dos EUA e equilibrou o orçamento. A desigualdade continuou a aumentar, mas menos do que no tempo de Reagan.

O papel de Clinton é absolutamente central. O resto são os “pormenores”. W.Bush é criticado pelo seu tratamento displicente da bolha imobiliária e da iminente crise financeira, e ainda mais pela sua decisão de invadir o Iraque e depois não fazer nada. Ambos, defende Gerstle, se basearam na crença quase religiosa de W. Bush nos mercados: não é preciso fazer nada, os mercados vão corrigir tudo: não há nenhuma razão para inquietação com os créditos de cobrança duvidosa – se os bancos os dividirem em porções suficientemente pequenas e encontrarem compradores para eles, o risco desaparecerá como por magia. Era “economia vudu”, como lhe chamou, num diferente contexto, com razão o seu pai. A abordagem à guerra no Iraque foi a mesma: não há necessidade de preparar mais nada para além da campanha militar. Basta deixar isso para as forças do mercado, e os iraquianos felizes, livres de Saddam, transformarão o país numa nova Hong Kong. Creio, no entanto, que as crenças simplistas de W. Bush se baseavam na sua inacreditável preguiça intelectual: um miúdo privilegiado, mimado e pouco inteligente nunca cresceu e nunca demonstrou o mínimo interesse em aprender nada sobre mais ninguém para além do PLU (“pessoas como nós” – people like us).

A presidência de Obama é mostrada como inconsequente. É difícil acreditar, ao ler o livro, que durou oito anos inteiros. Obama, como é sabido, acolheu todos os clintonianos económicos cujo neoliberalismo era agora uma pálida cópia do passado. Enquanto sob Clinton todos aparecem (alegoricamente) com belos blazers novos, sob Obama, as mesmas pessoas estão vestidas com os casacos surrados em segunda mão do neoliberalismo tardio.

E o que dizer de Trump? O mínimo possível. O livro de Gerstle ali perde subitamente força. Isto é compreensível porque ele defende que o neoliberalismo chegou a um beco sem saída, mas nem ele nem ninguém consegue adivinhar qual será a próxima “ordem”. O último capítulo (que inclui as presidências de Trump e Biden) é o mais fraco. Simplesmente reconta os principais acontecimentos e repete os clichés sobre Trump. Talvez o livro tenha sido escrito demasiado cedo…

_________

O autor: Branko Milanović [1953 -] é um economista sérvio-americano mais conhecido pelo seu trabalho sobre distribuição e desigualdade de rendimento, economia do desenvolvimento, economia de transição, economia internacional e instituições financeiras internacionais. Desde janeiro de 2014, é professor visitante no Centro de Pós-graduação da Universidade da Cidade de Nova Iorque e pesquisador sénior afiliado no Luxembourg Income Study (LIS), um centro de pesquisas sobre desigualdades. Também ensina na London School of Economics e no Institut Barcelona d’Estudis Internacionals (IBEI). Em 2019, foi nomeado presidente honorário da Maddison na Universidade de Groningen. Os seus estudos mostram que pessoas com baixos salários no mundo desenvolvido correspondem a um percentual global de 70% a 90%, e perderam o crescimento do rendimento real nos últimos vinte anos.

Exit mobile version