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Na apresentação de «Litorais» Livro de poemas de Manuel Simões – por António Gomes Marques

Na apresentação de «Litorais»

Livro de poemas de Manuel Simões*

por António Gomes Marques

Sou um leitor de poesia e é nessa qualidade que farei a apresentação de Litorais, de Manuel Simões.

Assim, vou procurar não me alongar, esperando poder entusiasmar-vos na leitura deste livro de poesia, procurando realçar alguns aspectos da poesia do Manuel, não tendo, no entanto, a presunção de julgar, com isso, abarcar toda a mensagem contida na sua obra poética. Reconheço que a poesia é a vida, como nos lembra Alexandre O’Neill no seu longo poema «Autocrítica»: «A poesia é a vida? Pois claro! / Embora custe caro, muito caro, / e a morte se meta de permeio.».

Tenho também de vos dizer a razão por que aceitei apresentar este novo livro do Manuel Simões, sendo a principal o facto de sermos amigos há várias décadas, para além de ser um admirador da sua poesia, o que já são duas boas razões para ter aceitado o seu convite.

A nossa amizade nasceu de objectivos comuns, que passam por possibilitar a «formação cívica de cada indivíduo», para utilizar uma expressão cara ao Manuel Simões e que, recentemente, utilizou num texto de despedida comovida a um comum amigo, o Carlos Loures, objectivos esses que nos juntaram a nós e a outros amigos, nascendo entre todos uma profunda amizade.

Todos sabemos, ou devíamos saber, pelo menos este grupo de amigos que acabo de invocar sempre soube, que a verdade é uma busca constante, de verdade em verdade, sem que nos seja imposta uma; que mostra que a vida se constrói no respeito por valores e pela diferença; que nos ajuda a compreender que a actividade humana tem de ser tomada como actividade objectiva, no sentido em que não é apenas capaz de intervir no real, mas também de transformá-lo.

Para esse objectivo comum que nos juntou, cada um usa as armas que tem e a principal arma de um poeta ou de um escritor é a palavra. No uso dessa palavra, é o Manuel Simões um poeta de excelência, seguindo aliás o caminho desbravado, entre outros, pelos neo-realistas portugueses, esse Movimento maior da cultura portuguesa, em cuja segunda geração eu incluo o Manuel.

A arte não deve ser utilitária, não é um meio, como os principais teorizadores e criadores do Movimento Neo-Realista tornaram claro, seguindo os ensinamentos do criador da filosofia que os neo-realistas sempre assumiram como sua. Falo, como bem entenderam, de Karl Marx.

Forma e conteúdo têm de estar presentes quando é de uma obra de arte que falamos e a obra de Manuel Simões bem o ilustra, seguindo, aliás, o praticado pelos grandes representantes da primeira geração do Neo-Realismo, a que chegaram depois de algumas experiências em que o conteúdo predominava, erro rapidamente rectificado, muito graças à teorização de Mário Dionísio.

A preocupação do intelectual é a busca da verdade e, por isso, não pode separar-se do mundo que é o seu, num processo dialéctico que o faz actuar sobre o real e contribuir para transformar esse mundo, lutando não só pela sua felicidade, mas e sobretudo lutando pela felicidade dos outros. Ora, olhando a obra do Manuel Simões, a obra poética e a obra ensaística, logo nos apercebemos da presença numa e noutra desse compromisso, que é um compromisso intelectual, que aqui utilizo no sentido que lhe dá Jorge Semprún, que num debate sobre Que Pode a Literatura?, disse: “O operário pode viver iludido na sua situação social, presa dos mecanismos da alienação. Pode também tomar consciência da sua situação de classe e integrar-se assim num projecto revolucionário global: passa a ser proletário, um militante. Mas esse compromisso de militante não se manifesta ao nível da sua actividade criadora, do seu trabalho produtivo. Com o seu trabalho produtivo contribui dia após dia, para manter, para desenvolver a sociedade que pretende transformar. A sua actividade de militante exerce-se, portanto, num outro nível específico: sindical e político. O escritor, pelo contrário, vê o compromisso repercutir-se, imediatamente, na sua actividade criadora. Porque é enquanto escritor e porque é escritor que ele se compromete. É a sua única razão de ser que põe em jogo: a sua existência, em suma…

(…) a exigência que chama a si e explica a noção de compromisso baseia-se objectivamente num certo contexto histórico: é datada e corresponde a uma época determinada. Noutras sociedades, noutras circunstâncias, o núcleo de racionalidade universal que esta noção em si contém encontrou e encontrará diferentes maneiras de se manifestar.” (fim de citação)

O Manuel Simões é, sempre foi, contra – e agora transcrevo palavras suas – “(…) uma visão estática, inerte, da cultura, por oposição às culturas progressivas, até porque, quer se queira ou não, a mudança social influi sempre no desenvolvimento cultural humano.”

Ora, nesta apresentação, vou procurar referir alguns aspectos que considero presentes na sua produção poética e que são a ilustração desse compromisso.

Ora, dos neo-realistas da primeira geração, será talvez o Carlos de Oliveira o que mais atenção chamou ao Manuel Simões, mas não posso deixar de lembrar um outro poeta maior da língua portuguesa, brasileiro este, de nome João Cabral de Melo Neto. Também a poesia de Manuel da Fonseca o tocou de uma forma bem explícita.

Com estes poetas tem o Manuel Simões de comum uma preocupação social, para além de uma grande preocupação na fuga ao panfletário, herdando deles o rigor bem patente nas suas obras literárias, não só na poesia, mas também na sua extensa obra ensaística.

No seu livro «Errâncias», no Roteiro de Afectos, evoca Manuel Simões os dois poetas, dedicando um poema a Carlos de Oliveira, que intitula «Evocação de Carlos de Oliveira»;

A folha é branca

demasiado branca

duma brancura

angustiante

(…)

São os primeiros versos do poema, de que transcrevo mais oito versos:

Olhando fixamente,

o que pareciam

poucas frases

de árida textura

são, na verdade,

um dilúvio

de palavras,

um excesso.

Vou passar agora a um dos dois poemas que dedica a João Cabral de Melo Neto, nesse mesmo livro, para depois entrar no livro «Litorais», que agora se apresenta ao público. Começo pelo primeiro, que transcrevo na totalidade;

Gostava

de ter o teu ofício

usar a tua faca

só lâmina

como bisturi

da palavra.

Palavra que gostava;

possuir o segredo

do teu verbo

medido

calibrado

a geometria incrível

a in-sólita

insuspeitável música

aflorando

dos ecos profundos

do poema.

Nestes dois poemas encontro eu todo um projecto de poesia que o Manuel Simões abraçou. E nessa poesia, o Manuel não se esquece de nos avisar que na sua arte poética tem sempre o rigor a marcar os limites, vendo eu esse aviso no próprio início desta nova obra com a invocação dos dois poetas que, pelo menos para mim e julgo que para o Manuel, são símbolos desse rigor, pois, antes do primeiro poema, transcreve-se um poema de Carlos de Oliveira, «Lavoisier», do livro «Sobre o Lado Esquerdo», tendo esse primeiro poema de «Litorais», «A PALAVRA/PEDRA», como epígrafe, um verso de João Cabral de Melo Neto, «A pedra dá à frase seu grão mais vivo».

No segundo poema, o Manuel mostra o alto conceito em que tem o poeta brasileiro, escrevendo:

Um dia

epigrafei-te

e acreditei

ter escrito

à tua maneira.

Estultícia

De aprendiz de poeta:

(…)

Ora, este primeiro poema de «Litorais», que agora apresento, é a prova provada de que não há essa estultícia na poesia do Manuel e, se se atentar no próprio título do poema, que já referi, há uma chamada de atenção para o peso que a palavra tem na grande poesia e, naturalmente, na poesia do Manuel Simões. Só com um uso rigoroso da palavra a poesia nos pode alertar para «as infâmias da vida», é o significado de cada uma das palavras que o poeta utiliza que nos alerta para o mundo real, demasiadas vezes cruel, em que vivemos, pois, como nos avisa o poeta na primeira quadra do terceiro poema;

A palavra, mesmo trémula

na memória criativa

provém dos mais altos ramos

da densa árvore da vida,

(…)

Este tema das palavras é uma constante na poesia portuguesa, com especial incidência na poesia neo-realista da primeira geração, com Carlos de Oliveira em primeiro plano, assim como na segunda geração, de que Manuel Simões é exemplo, e que nada tem a ver com a retórica que muitos críticos dizem presente em muita da poesia portuguesa, retórica essa ausente da poesia do Novo Cancioneiro, a célebre colecção que reuniu a poesia dos maiores poetas neo-realistas da primeira geração, com o Manuel a dar continuidade ao caminho por essa geração aberto.

Outra característica presente na poesia de Manuel Simões que quero realçar tem a ver com algo de comum a muitos portugueses, transformados em seres errantes, na busca de uma vida melhor, na busca de uma maior felicidade a que todo o ser humano tem direito, como o próprio Manuel o foi e, provavelmente, por agora se encontrar afastado de Veneza, com que conviveu diariamente durante 30 anos, não deixa de ser um desses seres errantes que se debate entre dois amores: Itália, com Veneza a marcá-lo, e Portugal, o país onde nasceu e que nunca deixou de amar.

No curto prefácio ao já citado «Errâncias», escreve Fernando J. B. Martinho, um dos críticos e académicos que melhor conhece a obra poética de Manuel Simões: «Frequentemente se tem visto no escritor moderno um ser da errância. Mais: o estrangeiro para si mesmo e em toda a parte, como no-lo lembram as epígrafes deste livro. No caso de Manuel Simões, sem que da sua recolha esteja ausente a nota metafísica, a errância é, acima de tudo, metáfora de uma divisão. Entre duas lealdades, (…). A que se deve ao país que um dia, há mais de um quarto de século, se deixou para a ele continuamente voltar, e a que se foi criando relativamente ao espaço adoptado, a Itália. (…) A nenhum dos dois espaços o poeta alguma vez retorna verdadeiramente. (…) para ele, não há apenas uma Ítaca, mas duas, que fazem dele um ser irremediavelmente cindido. Que nunca se sente em casa em nenhuma delas, sempre atormentado pela nostalgia da outra.» Ou seja, o poeta, mesmo regressado definitivamente ao seu país, não consegue pôr termo à sua errância. No entanto, «A rua de outrora perdura», verso com que inicia um poema de «Litorais», que reproduzo:

MEMÓRIA TRANSITIVA

A rua de outrora perdura

na memória, seguir-te-á

o coração onde quer que vás,

por muito que navegues

para lá da marca original

colada à pele e ao sangue.

As aves vinham à tarde

em voos rasantes ao teu olhar

de assombro. Ao seguir-lhes o voo,

o sonho partia nas asas

do vento e do infinito

sem limites de lonjura.

Seguir-te-á sempre a tua rua,

mesmo que te adaptes à nova

e audaciosa arquitectura.

mas com Veneza e o Mar Mediterrâneo sempre presente na sua poesia, como neste «Litorais» também não deixa de ser evidente.

Do seu livro de 1987, «Canto Mediterrâneo», atente-se neste poema:

O rumor do mar é o respirar do silêncio

que circunda a geografia, os contornos

da inocente Ítaca, sem culpa de ser ilha,

círculo ou labirinto para inspiração

de Penélope: ah!, como era extenso e frio

o lento sussurrar do leito sob a paixão

laica e grega oposta como desafio!

Tudo se cumpriu sob a ira de Ulisses

na primavera de pedra. Só a neblina

de Março não mostra os ancoradouros

e as mulheres, tecendo a lã sem tempo,

à espera dos heróis de que ninguém fala

e que Ítaca despede nos avulsos navios.

Novos Ulisses, estes, mas de nenhuma fama.

E leia-se, agora, deste livro que agora se apresenta, «Litorais, o poema 1 de

MAR MEDITERRÂNEO

Já não és o mar dos mitos

consagradores da utopia,

das Ítacas por descobrir

que Lampedusa prometia.

Quantos naufrágios ainda,

mar de dor humana ingente,

com teus navios à deriva

longe da terra e da gente.

Do teu azul, mar de enganos,

emergem sombras de sangue

armadilhado à partida.

É a Europa que naufraga

nos litorais de agonia,

sem audácia e sem vida.

É o Mar Mediterrâneo que muito tem inspirado o poeta, onde o compromisso de que falei atrás se mantém presente num poema e no outro, mas o contexto histórico é hoje bem diferente e o poeta mostra estar atento, as circunstâncias sofreram profunda alteração, mas este tempo de agora continua sendo também o seu tempo e o seu compromisso não sofre alteração.

O poeta invoca esse mesmo espaço que é o Mar Mediterrâneo, mas que hoje é cemitério de milhares de errantes à procura de uma nova vida, de uma vida com dignidade, a que a Europa dita da liberdade fecha as portas de entrada por terem uma cor de pele diferente, em contraste com as portas escancaradas aos fugidos da trágica guerra a que assistimos, aos que «são iguais a nós», ouvimos dizer a quem os recebe com alguma ingenuidade e não menos espanto. Europa e o chamado mundo ocidental que finge não ver o genocídio a ser praticado na Faixa de Gaza e na Cisjordânia sobre o povo palestiniano, com as terríveis imagens que, apesar da feroz censura, nos entram em casa todos os dias. Genocídio que visa uma limpeza étnica planeada pelos sionistas logo que aprovada a pátria a estes oferecida e legitimada pela ONU. Dois pesos e duas medidas, como já vem sendo habitual, e que rapidamente será considerado natural, neste mundo dito civilizado em que vivemos.

«A poesia é a vida» e o poeta está atento ao mundo em que vive, neste caso atento à tragédia, «Embora custe caro, muito caro, / e a morte se meta de permeio.», como nos avisa O’Neill.

Outra das preocupações do poeta é a infindável exploração do homem pelo homem, para usar uma expressão marxista, que motivou o Manuel Simões a escrever um dos mais belos poemas sobre o tema, belo pela sua musicalidade, pelo seu ritmo, belo esteticamente, mas terrível pela realidade de que nos fala e que, contrariamente ao que querem que tomemos por verdade, está bem presente no tempo que nos é dado viver, como os recentes factos passados em Ourique e noutros locais bem o atestam, o que me trouxe à memória versos de «A Primeira Elegia», de «Elegias de Duíno», de Rainer Maria Rilke, onde, a dado passo, se pode ler:

(…) Pois que o belo nada é

senão o começo do terrível, (…)

Mas voltemos a Manuel Simões e ao poema que referi, incluído no seu livro «Crónica breve», de Março de 1970, reeditado em Novembro de 1976, constituindo a primeira parte de «Crónica Segunda», intitulado

Ceifeira: não dobres tanto a cintura

Ceifeira,

cantar agreste

na flor do vento,

trigo e suor

amargurado

no esquecimento.

Ceifeira,

de sol a sol

teu canto trespassa

o trigo.

Com a lâmina

fere a espiga,

põe-na revolta,

explosiva.

Ceifeira,

oh que amargura

te vai no corpo

agravado.

Sempre a dar

o corpo à terra

e teu sangue

amotinado.

Ceifeira,

levanta a foice

não dobres tanto

a cintura.

Quem trabalha

a terra alheia

não pode usar

a ternura.

Poema este que nos remete para um outro poeta de eleição para o Manuel Simões e também para mim, Manuel da Fonseca.

Num ensaio de Manuel Simões, «Garcia Lorca e Manuel da Fonseca – Dois Poetas em Confronto», editado em português em Itália, cuja 2.ª edição, mas 1.ª em Portugal —com apoio da Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo—, tive a honra de apresentar, disse eu: “Manuel da Fonseca era um cidadão de corpo inteiro e desejoso de intervir nos destinos do seu povo, de dar o seu contributo para a emancipação dos «explorados e ofendidos»”, o que não deixa de ser uma boa razão para o Manuel Simões se ter debruçado sobre a obra deste neo-realista da primeira geração, escrevendo Manuel Simões a dado passo deste ensaio: «Anote-se, no entanto, que o que em Lorca fora descoberta estética, adesão sentimental, ardente simpatia, é agora (com o neo-realismo) a expressão da consciente aspiração dos povos à sua emancipação. Neste aspecto, há que salientar Manuel da Fonseca, que assimila e transfigura a poesia lorquiana ….».

Escreve ainda Manuel Simões: «A obra do poeta de Granada é percorrida de lés a lés pela força irresistível do sangue, do amor e da morte, o mistério do que se oculta (a noite e as suas sombras), o erotismo agudo, a solidão, outros tantos motivos carregados de poderosos mitos que um certo exotismo lorquiano não faz mais que acentuar.» E, mais à frente: «Não encontramos idêntica obsessão na poesia de Manuel da Fonseca, embora o seu vínculo estreito à terra alentejana lhe confira certa aproximação temática com a poesia de Lorca, o que se explica, (…) pela confluência de motivações. Detectamos então algumas correspondências entre si, (…): a raiz atormentada, o amor e desamor, a luta épica ou o ímpeto da vida, desfeito em Lorca pelo espectáculo da morte ou desilusão.» (pág. 83 da edição em Itália).

Ora, se «a raiz atormentada, o amor e desamor, a luta épica ou o ímpeto da vida, são uma constante na poesia de Manuel da Fonseca, também os mesmos temas estão presentes na poesia de Manuel Simões, e aqui não me refiro apenas a esta nova obra, «Litorais», mas a toda a produção poética do nosso autor, assim como nos seus ensaios literários.

E como não poderia deixar de ser, neste novo livro há dois poemas, sob o título de «Alentejo», dedicados precisamente a Manuel da Fonseca. Mas o que disse sobre Manuel da Fonseca, no prefácio ao seu livro «Poemas Completos», Mário Dionísio, o poeta, ficcionista, ensaísta e professor, qualificativos também atribuíveis a Manuel Simões —sendo também Dionísio um pintor de eleição—, podemos também dizer do autor que aqui apresento, ou seja que a sua poesia «se nutre (d)o que há de mais universal e permanente na sua obra, de que verdade particular e de que tom caracterizadamente local ela parte para atingir esse interesse e esse sentimento dos problemas do seu tempo».

A nova obra poética do Manuel Simões mostra-se fiel ao que tem sido o seu percurso, como se comprova com o poema que transcrevo:

A VOZ DA PLANÍCIE

E eis que de súbito, com o vento de Maio,

veio até nós a memória de Eufémia, a gesta

da planície nos provérbios do trigo,

carroças e cavalos desventrados nas praças,

tal o furor oculto, o rosto das mulheres,

o seu luto de agravos e jornas tão iníquas,

o assombro do sol ao longo das herdades.

À frente Catarina com gesto decidido, as ruas

bloqueadas como um campo de armas.

E de repente os tiros, o disparar agudo

ou zumbido infindável, o arrepio da morte,

e a vertigem da queda nos olhos assombrados.

E de repente o sangue, como marca do crime,

Catarina por terra, o ventre contra o solo.

E de repente ainda, nas arestas do dia,

eis que na planície se manifesta o povo.

(1.º de Maio, 1970)

Pergunto a todos os presentes, que com tanta e generosa paciência me têm estado a ouvir: vamos consentir quantas mais Catarinas por terra?

São estes alguns dos temas que mais me têm despertado na obra poética, do Manuel Simões, não tendo eu a presunção de pensar que a sua obra se esgota neles, nem tão pouco a pretensão de ter alcançado tudo o que significa a produção de realidade que nessa obra se contém. Nessa sua obra, sobretudo poética mas também ensaística, o autor fala-nos da realidade em que vivemos, mas que a maioria de nós teima em não querer ver. Será apenas por comodismo?

«Litorais» vem dar continuidade a esta obra e obrigou-me a uma revisitação à sua produção anterior e, naturalmente, a uma reflexão sobre o tempo que vivemos, aumentando a minha dívida para com o Manuel, que mais uma vez aumenta o crédito que me vem concedendo ao longo de várias décadas. Mas ele é generoso e não me vai exigir o pagamento.

Nesta publicação, encontramos uma homenagem ao cinema, a arte que apaixonou a geração do Manuel e a minha, uma homenagem também ao cinema neo-realista italiano e a essa actriz sublime que dava pelo nome de Anna Magnani, com o poema

A ROSA TATUADA

                                           A Anna Magnani

Deram-te um óscar, esse público engano,

não pela imagem que criou um mito,

a espantosa cena da mulher magoada

que atravessou o espaço com seu grito

numa “Roma, cidade aberta”

às hostes agressivas desse tempo,

em que porém abriste as asas

à liberdade até então proibida.

Como Medeia, vingaste a ofensa

que te negava o direito ao ser-mulher.

Daí esse teu ar trágico, profundo,

de quem sabia as arestas do mundo.

Mas para mim, leitor que sou, a invocação da grande actriz leva-me para outros tempos que ela viveu, os tempos sombrios do fascismo, que parecem esquecidos e que estão a ter quem queira que regressem, o que não podemos consentir, ou seja, que têm de ser lembrados e que não podem voltar. Se o conseguirmos, essa será a melhor homenagem que a Anna Magnani podemos prestar.

E são estes tempos sombrios que alguns querem fazer regressar que me remetem para os poemas com que o poeta fecha o livro: POEMAS CORSÁRIOS.

Logo de início há uma epígrafe retirada de um texto de Pier Paolo Pasolini, outro cineasta, poeta, ficcionista e antifascista, que transcrevo:

Ah! Bárbaros, meus únicos amigos,
nenhum homem de Igreja destruiu jamais uma Igreja;
a luta travou-se sempre entre a ortodoxia velha e a nova.

E passo a ler o último poema

EM LOUVOR DA UTOPIA

Dos bárbaros ficou a sombra

projectada na ansiedade

e o seu quase respirar

como sopro que flutua

no oculto, adiado sonho.

Dos bárbaros não ficou a rebeldia,

só a mal tolerada sombra

contra os venenos antigos

seguidores da ortodoxia.

A terminar, umas poucas palavras para “Apresentação crítica, fixação do texto, notas e sugestão para análise literária de Auto da Índia, de Gil Vicente”.

Outras leituras da mesma obra haverá, mas esta do Manuel Simões é plena do mesmo rigor a que nos acostumou na sua poesia, nos seus ensaios literários e, já agora, também nas suas traduções. Todas as anotações foram por mim lidas com alguma paixão, pela obra, naturalmente, a primeira que Gil Vicente escreveu ou apresentou publicamente fora dos palácios reais, como o Manuel bem lembra. Cheguei ao fim e comentei para mim próprio: eu que sentia uma enorme dificuldade quando me passava pela cabeça tentar uma encenação da obra, concluí com esta análise do Manuel Simões: a encenação está feita, basta seguir as anotações do Manuel. Que melhor elogio se lhe pode fazer?

Obrigado, Manuel, e obrigado a todos os presentes!

UNICEPE, Porto, 2025-06-30

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