Este texto surge como reação ao email de um amigo meu, Carlos Nuno Batista, em que me dava a sua leitura dos resultados eleitorais e é a ele que dedico o presente trabalho.
Nota explicativa prévia
Distribuí este texto, ainda não na sua versão definitiva, na minha lista de endereços eletrónicos. À volta deste texto uns quantos detalhes:
1. Um leitor, um catedrático de Lisboa, diz-me o seguinte ao ler a versão rascunho:
“Relativamente às considerações que fazes, estou de acordo. Talvez até peques por contenção.
A minha visão do estado atual do ensino universitário, quer em Portugal, quer na Europa – e talvez no Resto do Mundo – é a pior possível. É explicado muito do que está acontecendo no Mundo, em todos os níveis.
Não tenho complicações de ser velho! Digo o que acho que devo dizer, com consciência da afirmação de Keynes, de que “o difícil, não é aderir às novas ideias, o difícil é escapar das antigas”. Os sistemas de referências não são eternos e devemos ter a capacidade de compreender o que está a acontecer, com referências novas e velhas (não desatualizadas).
Mas devemos ter sempre o cuidado de não nos comportarmos como “Marias que vão com as outras”.
2. Um catedrático de letras pede-me autorização para o distribuir por pessoas amigas, entre as quais estão figuras relevantes da cultura portuguesa.
3. Um amigo de linga data manda-me uma mensagem, que vi apenas mais tarde, de que deveria ver a reportagem do canal 3 sobre o tema tratado também no meu texto.
4. O meu editor chateia-me basicamente por pedir frases mais alongadas, mais desenvolvidas, e eliminar algumas zonas menos claras no texto.
5. Um catedrático de Coimbra meu amigo e leitor da versão rascunho diz-me que eu o ”espanto com a capacidade analítica e observacional. Olhas para o mais pequeno detalhe do quotidiano como se fosse a ilustração de alguma teoria. E, depois remata: nada a objetar.”
6. Por fim um amigo professor do secundário, foi professor da minha filha e sobre isto já lá vão 30 anos, manda-me um artigo ligado ao tema intitulado: “Para quando um teste de Turing para a grande oral do fim do secundário?”
Com tanta gente a falar do tema, retomei o texto inicial num ponto ou outro e disso não estou arrependido. Goste-se ou não, aí o têm refeito. A explicar os tempos do fascismo utilizei excerto do relato da vida de um primo meu. Mandei-lhe o texto e a confirmar o que escrevi, respondeu-me:
“Obrigado
Sobre ignorância
Estive num colóquio na escola Humberto Delgado em Loures com alunos de história do sexto, sétimo e oitavo ano. Perguntei: sabem quem foi Humberto Delgado??
Depois de muita hesitação, um disse baixinho e envergonhado:
É O NOME DESTA ESCOLA.
Claro. Expliquei quem era e porque e por quem foi assassinado”
Eis pois um exemplo do estado lamentável em que culturalmente se encontra a nossa juventude e também as nossas instituições de ensino.
JMota
Nota de editor: em virtude da extensão do presente texto. o mesmo será publicado em três partes, hoje a terceira e última parte.
10 min de leitura
Tempos de confusão política, tempos de refluxo social, tempos de crise (3/3)
Coimbra, 19 de Junho de 2025
(conclusão)
Conhecimentos de Base Recomendados- Não aplicável.
E a quem não sabe de nada de gestão dizem-nos ainda o seguinte quanto ao método de ensino:
A disciplina irá ser lecionada em aulas teóricas + práticas, procurando ministrar-se a matéria através de exemplos que ilustrem a realidade empresarial. Procurar-se-á incentivar o diálogo com os estudantes, através da discussão de pontos do programa que, pela sua atualidade, merecem alguma reflexão.
No segundo semestre terão uma outra disciplina como sequência, Contabilidade Financeira, com carga horária de 4 horas por semana, e sobre esta dizem-nos o seguinte: as/os estudantes devem ter frequentado com sucesso a unidade curricular de Introdução à Gestão.
Métodos de Ensino em Contabilidade Financeira
As aulas são teórico-práticas. Dada a natureza das matérias a abordar, na sua maioria, as aulas envolverão uma parte de exposição teórica dos conteúdos programáticos, acompanhada, sempre que se justifique, de ilustrações e exemplos adequados, seguindo-se exercícios práticos de aplicação resolvidos pelos alunos sob orientação dos docentes. Algumas aulas envolverão casos de aplicação de casos mais abrangentes, com uso de softwares contabilístico.
E nesta área de estudo do curso (a área de gestão de empresas) fica-se por aqui. Compreende-se, pois, que possam vir alunos de todas as áreas possíveis e imagináveis desde que tenham matemática A. Genericamente os alunos de Economia não saberão nada de significativo da área de gestão relativamente ao que no mercado se lhes pode exigir., uma situação que é geral por todo o lado. Mas sublinho: vivemos num pequeno país cujo tecido empresarial é feito de muitas micro e pequenas empresas, onde o licenciado tem de ter competências técnicas muito diversas entre as quais as de gestão. E normalmente, não tem ninguém ao lado ou acima em que se apoiar. Se temos dúvidas do que afirmo quanto aos conhecimentos das técnicas de gestão dos economistas atuais, abram qualquer muito bom manual de Economia Internacional e vejam o capítulo dedicado à explicação do que é uma balança de pagamentos. Conheço apenas um e este é da área de Economia Monetária Internacional, o livro de Keith Pilbeam, International Finance. Veja-se o cuidado extremo com que ele explica as diversas operações da balança de pagamentos e a articulação entre as diferentes contas da balança de pagamentos e compare-se com os manuais tradicionais.
O que acabo de descrever mostra apenas, e para um caso específico, o de Economia e de Gestão, que no secundário há imensos problemas por resolver e que as Faculdades não respondem depois, porque decidem, à sua maneira, ignorá-los.
Do meu ponto de vista isto mostra a salganhada que são as entradas nos cursos superiores em Portugal e se tivermos em conta a falta de formação da maioria dos alunos no ensino secundário, poderíamos verificar que muitos deles escolhem os cursos superiores por serem um pouco como a “Maria que vai com as outras”. Tudo isto é preocupante, mas o mais preocupante desta história é a clivagem feita artificialmente sobre as licenciaturas que são para burros e as que o não são. Dou um exemplo: uma aluna de boa classificação e de boas características para uma licenciatura em Letras vai para a área de Ciências, porque Letras é para burros. Esbarra com a disciplina de Biologia, uma espécie de anatomia para os alunos do secundário e não consegue passar a esta disciplina. Desiste. Por sorte, alguém lhe diz que se fizer Filosofia poderá entrar em Direito. Consegue fazer Filosofia e entra depois em Direito, mas só quatro anos depois é que chegou ao terceiro ano!
Neste quadro, conheço um segundo caso em que um aluno queria seguir para veterinária. Entrou na área de Ciências. A meio do ano percebeu que em matemática não sairia da cepa torta e quer sair desta área. Só para o ano seguinte, dizem-lhe. Objetivamente perde um ano. A mãe, atenta, percebe a situação e tenta arranjar-lhe um explicador em Matemática. Não resultou, já era tarde. Foi para o ensino técnico-profissional e três anos depois com este curso terminado confessa-me que se sentia enganado: não tinha aprendido nada de jeito e iria tentar entrar em Desporto. Perdi-o de vista, mas resta uma pergunta complicada e angustiante: por falta de acompanhamento orientador quanto às derivas curriculares destes jovens quantos deles não andam anualmente perdidos nestes cursos a que se chama depois, cursos de coisa nenhuma? E, depois, quantos destes não se perdem também na vida? Quem perde? Os próprios, o país, as famílias. Trata-se de combustível lento que vai alimentar as chamas que o Chega provoca ou, paradoxalmente, algumas fileiras na Iniciativa Liberal.
Mas o cuidado com a cidadania dos nossos jovens deve continuar até à Universidade, mas aí estes jovens encontram agora um enorme deserto de ideias pela frente e os corredores cheios de doutoradas, alguns deles rotulo eu de catedráticos de aviário, com aulas a serem feitas a lerem powerpoints e com uma certeza: para os estudantes o importante é saírem com o diploma, saiba-se o que se souber e quanto aos professores, o importante é publicar, publicar, para subirem na carreira. Livros difíceis e lidos por completo, é uma ideia para esquecer, tanto pelo lado dos estudantes como pelo lado dos professores: deixou de ser necessário. Ainda agora, estou a trabalhar sobre um texto de Brad DeLong onde este nos diz, ao dar-nos sugestões de leitura de livros tanto para estudantes como para professores:
Além disso, leia “Os Filósofos deste Mundo” (The Worldly Philosophers), de Robert Heilbroner, um excelente (embora antigo) panorama breve da história do pensamento económico, para contextualização e base teórica.
A Riqueza das Nações, de Smith, O Capital: Crítica da Economia Política, de Marx, e A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, de Keynes, são livros excelentes que as pessoas devem ler, ainda que não sejam fáceis de ler. Na verdade, são verdadeiramente difíceis de ler. (Em contraste, Os Economistas Mundiais, de Heilbroner, é indolor, fácil e ainda assim excelente.) Aprender a ler obras de grande valor, porém difíceis, e aprender a interpretá-las por conta própria, é uma competência muito valiosa, mas é muito difícil de ensinar, salvo se a praticarmos diretamente. Além disso, um grande livro só é realmente grande se o leitor estiver preparado e pronto para o ler — e, portanto, aprender a tornar-se o tipo de leitor capaz de apreciar uma determinada obra-prima é outra competência importante a ser desenvolvida, a ser ensinada. Fim de citação
Repare-se: trata-se de uma arte difícil de ensinar, difícil de aprender, mas para a ensinar é preciso que os docentes a pratiquem. Mas, atualmente, quem assim o fizer é visto como ovelha ronhosa, e é-lhe feita a vida negra. Não me vou demorar por aqui. Dou-vos exemplos do que temos hoje:
Exemplo 1. Moro num primeiro andar. Saio de casa, apanho o elevador. No prédio há uma residência de estudantes. Chego ao rés-do-chão, a porta abre-se e está um estudante para entrar. Por brincadeira levanto as mãos ao ar e digo: calma. Mesmo assim avança para entrar e eu saio de lado para ele entrar. O que este exemplo mostra é que o nível de abstração está ao nível do grau zero da Universidade. Um aluno que está no segundo terceiro ano da Universidade. Note-se que os cursos são de três anos
Exemplo 2. Uma rapariga é funcionária de uma loja num centro comercial e está a fazer o seu mestrado. Num dado dia cabe-lhe a ela fazer a caixa e fechar a loja. Como não vem ninguém por volta das 10 horas da noite quer fechar a loja, mas o vigilante responsável do centro avisa-a de que não pode fechar naquela hora, só pode fechar às 11 horas, hora a que todos fecham. Insistiu, fechou a loja e saiu. O vigilante comunicou á Administração e a empresa foi penalizada em vários milhares de euros. A empresa terá pago e a empregada, possivelmente terá sido despedida. Ficou com mais tempo disponível para fazer o mestrado, diria eu agora, e com alguma tristeza pelo que isto revela.
Exemplo 3. Vou a uma loja comprar um conjunto de produtos. Estavam em packs de 3 produtos e estavam em promoção. Havia dois que eventualmente me poderiam interessar. No conjunto A de 3 elementos o preço era igual em todos e o total era de 25 euros. No conjunto B, também de 3 produtos, dois deles eram de preço igual a cada um dos três produtos do pacote A. O terceiro produto do conjunto B era mais caro 5 euros. O conjunto custava 30 euros. Disse que queria o conjunto A mas queria que um dos produtos fosse substituído pelo mais caro que estava no conjunto B, diferença que era de 5 euros, sublinhe-se. A empregada diz que sim, vai buscar a máquina e começa a fazer as contas. Pergunto-lhe: o que é que está a fazer. Estou a fazer as contas, diz-me com um ar de espanto pela pergunta. Fez as contas mas antes de fechar a máquina disse-lhe: dá 30 euros ou não? Carrega na tecla igual e pergunta-me: como sabe? Como sei? 25+5 são 30, e pacientemente expliquei-lhe. Comentário: o senhor deve ser muito bom a matemática. Pois eu, só aprendi o que são 10% de 100 depois de estar aqui. Não valia a pena e fez-recordar uma outra: dois pares de meia de padrões diferentes, mas do mesmo preço estavam em promoção de 50%. Levo dois: a funcionária soma os dois preços e divide por dois. Deixe-me rir e pensei: meu Deus, que mal fiz ao mundo para passar por provas de ignorância destas.
Estou a falar de uma grande parte da população jovem que nós temos. Em tempos Arthur Miller foi a Columbia proferir uma conferência. Na parte de debate perguntaram-lhe o que é que ele entendia por velho e a sua resposta foi exemplar: é ter pedido a imaginação. Ter perdido a imaginação? Sim a capacidade de imaginação. Ter perdido a imaginação significa ter perdido a capacidade de me colocar no lado do outro, de me imaginar a sentir o que o outro com quem me relaciono está a sentir. Ser velho é isto, e a aceitar a tese de Miller temos uma grande parte da nossa população jovem incapaz de se posicionar no lugar do outro, de perceber o sentimento do outro, a sua alegria ou sofrimento, ou seja, temos então uma grande percentagem de velhos ainda jovens, neste nosso país, de velhos mais velhos que eu, afinal, que já tenho 82 anos.
Aqui vos deixo quatro exemplos de como se vivia nos tempos do fascismo, em ditadura.
- O relato pessoal de um primo meu por afinidade, José Marcelino:
Em fevereiro de 1974 parte da minha vida era secreta. Nem a minha mulher sabia que eu pertencia ao Partido Comunista Português. Desconfiava, mas saber não sabia. Sempre neguei. Justificava a minha prisão com atividades numa comissão de trabalhadores e as negociações do contrato coletivo de trabalho.
Em fevereiro de 1974 sentia-me vigiado. Desde que saíra da prisão de Peniche, em 1972, que não me sentia seguro. O regime impunha a cultura do medo. Caminhava sempre atento a quem me rodeava. Ainda hoje, sento-me sempre nos bancos laterais dos autocarros para poder ver todos os passageiros. Havia muito medo, mesmo. Um medo que não significava cobardia. Apenas o receio de que alguma coisa acontecesse à minha família porque era certo: se fosse novamente preso a pena não seria inferior a cinco anos.
Fui despedido de técnico da TAP (fazia a manutenção do piloto automático e da caixa negra que até é cor-de-rosa) por ter sido preso – seria reintegrado depois do 25 de Abril ajudando a fundar o Sindicato dos Trabalhadores de Aviação e Aeroportos (SITAVA). Saí do Metropolitano de Lisboa quando, ao descobrirem o meu passado, me propuseram que me comprometesse por escrito a abandonar atividades políticas. Recusei.
Há 50 anos morava na Bobadela. A minha mulher era enfermeira no posto médico. A minha filha tinha seis anos. No dia em que fui preso, dois anos antes, agentes da PIDE foram a nossa casa. A minha filha quis saber quem eram. “Amigos”, respondi, para não a assustar. Então a menina foi oferecer-lhes caramelos.
Era sócio do Cineclube de Lisboa que passava filmes de qualidade, explicados antes do visionamento. Filmes que não passavam nas salas normais.
Desse tempo, tenho muitas saudades do dia 25 de abril (estava a montar o primeiro aparelho de angiografia do Hospital de Santa Maria). E do primeiro Dia do Trabalhador festejado em liberdade. Hoje, como fundador da União dos Resistentes Antifascistas, ando pelas escolas a explicar aos jovens o que era aquele tempo.” Fim de citação (original aqui)
- O Exército das Sombras
Se falarmos do Exército das Sombras, não do filme de Melville mas dos milhares de clandestinos que alimentaram com o seu sofrimento, por vezes até com as suas vidas, a resistência ao fascismo, o exército português das sombras, teremos uma dimensão estratosférica do que foi viver em tempo de ditadura.
Utilizemos então o trabalho de Joana Goldschmidt, num trabalho apresentado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, intitulado para aqui apresentar uma ideia do que era viver sem família, sem amigos, sem nome próprio, sem o seu próprio sotaque de origem de nascimento em tempos de ditadura. Neste contexto perguntar-nos-emos aqui, partindo da ideia de Edmund Wilson expressa nos anos 40 – para quem, se substituirmos os termos de Marx “progresso da história” e “dialética da história” por “Providência” e “Deus”, estaremos num terreno comum -, então o seguinte, uma pergunta que incomodará muita gente, seja à esquerda seja á direita: não seriam estes comunistas, o exército português das nossas sombras, os novos apóstolos de Cristo-Marx, agora tão injuriados pelos novos Judas e novos romanos do pós 25 de abril ? A olhar para o resultado de Abril 50 anos depois, creio que sim, que são, por isso tantos insultos, tanto desprezo.
Vejamos o que nos relata Joana Goldschmidt
[Durante o fascismo e na passagem para a clandestinidade], no mergulho, os militantes abandonavam completamente a sua identidade, a começar pelo nome, que era substituído por nomes falsos – utilizado no aluguer das casas – e pseudónimos – usado na atividade política. Os pseudónimos eram compostos apenas por um nome próprio ou apelido fabricados, que deviam ser vulgares para não levantar atenção. Eram escolhidos de acordo com a função que o militante desempenhava no partido.
Os pseudónimos eram usados no contacto entre camaradas, para que nunca nenhuma identidade fosse revelada a ninguém no caso de uma fuga de informação. Dentro de casa, os camaradas tratavam-se também pelos seus nomes falsos, caso a vizinhança pudesse ouvir as conversas. A identidade verdadeira dos militantes poderia ser desconhecida durante anos, mesmo para aqueles que partilhavam dos mesmos ideais políticos, ou para os próprios filhos – como conta Manuela Canais Rocha, filha dos presos políticos e clandestinos Francisco Canais Rocha e Maria Rosalina Labaredas, que só descobriu o verdadeiro nome da mãe no momento da sua prisão.
As casas clandestinas funcionavam também como o local de trabalho dos que nela habitavam. Como funcionários do PCP, os clandestinos tinham diversas funções. No caso de Margarida Tengarrinha e José Dias Coelho, a aptidão de ambos para as artes foi aproveitada e passaram a ter como função ilustrar a imprensa clandestina e fabricar documentos falsos para os militantes na clandestinidade.
Além da narrativa e do cenário, o próprio clandestino também precisava de se “camuflar”, de adotar as mudanças necessárias à sua apresentação para que pudesse realmente adotar uma nova identidade. (…) Margarida Tengarrinha que, quando desenvolvia a narrativa da sua personagem, tinha sempre em atenção os sotaques que não sabia fazer. Era imperativo que, ao mudar de ponto geográfico, os funcionários comunistas tomassem conhecimento das características da região, bem como vocábulos tipicamente usados ou sotaques. O sotaque naturalmente algarvio de Tengarrinha dificultava-lhe a tarefa de se camuflar no novo sotaque e passar despercebida, e exigia dela muito treino, tal como no teatro” Fim de citação.
- Vida de marçano nos anos 50
Por volta dos meus 15 anos quantas noites eu não terei dormido numa carinha de caixa aberta, estacionada na Fonte Luminosa em Lisboa, enrolado em sacas de batatas vazias, porque precisava de estudar e estudava à luz dos candeeiros da Alameda Afonso Henriques porque o meu patrão me desligava a luz depois das dez da noite. Marçano não precisava de mais.
- Segurança social antes do 25 de Abril
Nos anos 50 o meu pai, com a profissão de moleiro cai à cama com uma doença profissional: silicose pulmonar, suponho ser este o nome. Segurança Social? Ninguém sabia o que era, mas rendimentos de substituição era coisa que naquele tempo os pobres desconheciam. Nessa brutal pobreza sobrevivemos e sobrevivemos bem porque havia uma coisa imaterial que sustentava essa pobreza, a solidariedade, uma verdadeira almofada que nos ajudava a todos nas agruras da vida que o viver em fascismo nos impunha.
Compreenderão os jovens de mentalidade pequeno-burguesa de hoje, sejam universitários ou não, qual a dimensão do sofrimento que tudo isto traduz? Não acredito como não acreditará o amigo que me escreveu a falar dos resultados eleitorais.
Dirigindo-me au amigo que me escreveu o texto acima reproduzido diria que para essa juventude mentalmente velha, a sua terapia de levar os jovens através de imagens reais, a visita a fortes e outros locais perversos do sistema não resulta e, para que resulte, é preciso uma outra almofada intelectual como acima expliquei, mas esta, a juventude de agora não a tem. Para utilizar uma expressão sua, os políticos de hoje, neoliberais de direita e de esquerda (CDS+PSD+PS) têm andado sistematicamente distraídos e os resultados eleitorais mostram-no à evidência. Porque assim tem sido, estamos a caminhar para uma situação equivalente à que é denunciada por Adam Smith no século XVIII A juventude de agora não tem essa almofada, sabemo-lo, e se dúvidas há procurem-se relatórios recentes sobre a sua saúde mental e, como a não tem, podemos e devemos começar a criá-la rapidamente investindo nesse sentido em todos aqueles que estão agora a crescer. Não lhes deem ensino digital, deem-lhes cultura, deem-lhes saber pedagogicamente articulado e rapidamente para que essa terapia proposta pelo meu amigo venha a funcionar.
Percebe-se então a importância que dou à literatura na infância e adolescência como desenvolvimento da nossa capacidade de imaginar, de sentir, de nos sentirmos a nós próprios e aos outros. Percebe-se também o que quis dizer Brad Delong quando nos diz:
Além disso, um grande livro só é realmente grande se o leitor estiver preparado e pronto para o ler — e, portanto, aprender a tornar-se o tipo de leitor capaz de apreciar uma determinada obra-prima é outra competência importante a ser desenvolvida, a ser ensinada.
Brad Delong está a falar do mesmo que eu, mesmo que isso não o pareça, estamos ambos a falar de amor, de amor a uma profissão, a de professor, de amor a uma velha senhora, a CULTURA, uma senhora mais ou menos bem tratada com o PS, exceto na aventura da regionalização, e claramente abandonada às urtigas no governo AD até agora mais preocupado com a colocação dos seus militantes em postos chave.
Neste contexto, vou-vos deixar um longo texto de Brad Delong, um longo texto. sobre o ensino dos clássicos em Economia – “Os Melhores Livros sobre os Economistas Clássicos” –, a publicar aqui oportunamente. Não se pode saber Economia se não se tiver lido. Adam Smith, Ricardo e. Marx. dizia o meu amigo e colega no ISEG, Joaquim Ramos Silva, mas hoje não se ensina praticamente nada na linha dos clássicos. Mostrar a sua importância é um dever, um dever em que Brad Delong é exemplar, mesmo que muitas vezes se discorde dele, mas até nisso é salutar.
O presente texto livrou-me de um dilema: queria oferecer um a dois livros à filha de um amigo meu, formada ela em economia. Pensei em :
1.- Kicking Away The Ladder -Development Strategy In Historical Perspective de Ha-Joon Chang
e pensei igualmente em:
2. The Road to Freedom de Stglitz.
Ao ler o texto de Brad Delong isso levou-me a mudar de ideias, pois. os bons livros como os indicados só. devem ser lidos depois de. estarmos. prontos. para os ler. Dito de outra maneira: primeiro uma formação sólida e geral em economia, depois livros mais especializados. E assim, na linha de Brad DeLong. mudei de projeto de aquisição. Trata-se. de uma miúda. de inteligência claramente acima da média e quanto à formação de base, a média é hoje tão baixa que não serve de referência para nada direi apenas que estará abaixo daquilo que poderia estar. Mas o facto de eu mudar de opção quanto à compra de livros mostra que estamos sempre a aprender e, neste caso, eu estou a. aprender o que. já tinha a obrigação de saber desde há muito tempo.
Boa leitura então para o texto de Brad DeLong que acompanha esta narrativa em que escrevo sobre a angústia dos tempos que vivemos.

