Em torno da edição de Mil Folhas pela Biblioteca da FEUC e da importância das Bibliotecas como símbolos contra a corrente da digitalização do Ensino Superior. Por Júlio Marques Mota

 


Nota do editor

Os textos desta pequena série são os seguintes:

  1. Em torno da edição de Mil Folhas pela Biblioteca da FEUC e da importância das Bibliotecas como símbolos contra a corrente da digitalização do Ensino Superior, por Júlio Marques Mota
  2. Comentários sobre o lançamento do nº3 do Mil Folhas: textos do Diretor da FEUC e do Subdiretor da FEUC e de Júlio Marques Mota
  3. Mil Folhas número 3, da Biblioteca da FEUC
  4. Reflexões sobre o Fundo Bibliográfico Álvaro Ramos Pereira

FT


 

Por Júlio Marques Mota

                                      Coimbra, 21 de Julho de 2021

 

Levou-se hoje a cabo a apresentação do Boletim da Biblioteca da FEUC, intitulado MIL FOLHAS. Uma iniciativa de louvar. Um Boletim que vale a pena ler.

É esse documento que vos apresento em conjunto com uma introdução minha, três comentários sobre a Iniciativa, assinados por Álvaro Garrido, diretor da FEUC, por Hermes Costa, subdiretor e por mim e, por fim, um texto comentário meu a explicar a minha ausência na referida apresentação. Uma explicação que não tem nada de especial, a não ser uma questão de digitalização e de pandemia.

A concluir esta pequeníssima série apresento-vos o texto por mim escrito sobre Álvaro Ramos Pereira, um dos meus grandes professores de referência na sua versão integral, uma vez que com esta dimensão não seria possível publicá-lo no Boletim e por isso no Boletim foi editada uma versão reduzida. Como a parte não publicada, parte B) é também uma homenagem aos professores desta extirpe em geral e, sobretudo, uma homenagem à gente da minha geração que não se hipnotizou com o canto sedutor das sereias do dinheiro que o capitalismo selvagem lhes poderia pagar.

A todos desejo boa leitura.


 

1. Em torno da edição de Mil Folhas pela Biblioteca da FEUC e da importância das Bibliotecas como símbolos contra a corrente da digitalização do Ensino Superior

 

Hoje, falemos de livros e comecemos com uma boa notícia: a Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra apresentou hoje o número 3 da sua publicação quadrimestral Mil Folhas editada pelo seu Conselho de Biblioteca. Uma iniciativa louvável que põe em destaque o papel das bibliotecas, do livro, da leitura, dos leitores e porque não, dada a sua importância, do papel que os professores devem assumir na divulgação dos livros de qualidade.

Edito aqui três comentários sobre a iniciativa, os dois primeiros das autoridades académicas da FEUC: o primeiro assinado pelo Diretor da FEUC, Álvaro Garrido, o segundo assinado pelo subdiretor, Hermes Costa, a convidar alunos e docentes para assistirem ao lançamento deste número 3 do boletim Mil Folhas e um outro meu que se debruça não sobre o caderno nº 3 em si-mesmo mas somente sobre a importância da Iniciativa de publicar este tipo de cadernos trimestrais.

Os comentários produzidos pelas autoridades académicas da FEUC e o meu sobre a edição do boletim da Biblioteca serão editados em conjunto.

No entanto, deixem-me dizer-vos que o comentário do subdiretor Hermes Costa me deixou à primeira leitura surpreendido ao considerar o meu texto como um breve texto, quando tem uma métrica em caracteres semelhante à dos outros textos. A menos que a base da métrica a que Hermes Costa se refere seja outra que não o número de caracteres.[1]

Habituado a ser criticado por escrever textos longos e editar séries temáticas muito longas fiquei surpreendido e depois agradado pelo comentário que posso considerar como um elogio e a dois níveis: por ser um texto curto, curto aqui entendido como sinónimo de breve, e por ter feito a opção de não me perder a falar de um espólio que se considera riquíssimo e tão riquíssimo que seria absurdo estar a descrevê-lo.

Um sentimento que lhe fica bem e tanto mais quanto em tempos não muito recuados recusou  a publicação de uma peça minha em duas partes, um texto meu e um outro de publicação autorizada pelo seu autor, Michael Roberts, um homem com anos de trabalho na City, como pontos de vista alternativos à tese do catedrático em Economia mais velho da casa, João Sousa Andrade, tese que defendia a lógica da força dos Tratados Europeus e a soberania dos mercados financeiros: a validação da dívida pública pelos mercados. Como se fosse ignorável a manipulação sobre a Libor praticada durante anos, uma taxa que é peça chave nos mercados financeiros à escala global, como se fosse ignorável o conluio dos grandes bancos contra os Estados europeus em dificuldade com a crise da dívida soberana. A proposta da substituição dessa minha peça por um texto curto, formatado, que acompanhou a não autorização de publicação, então justificada porque em termos digitais o texto era longo, mereceu da minha parte uma resposta curta: não tenho tempo para escrever textos curtos ou curtíssimos. A explicação dada foi pura e simplesmente aceite sem qualquer acinte pela minha parte mesmo que eu continue sem saber bem o que significa, naquele caso, um texto digitalmente longo. Sem acinte, tal como agora face à adjetivação de texto breve que serve apenas de contexto para este outro texto sob o mesmo tema.

Mas o pressuposto elogio a que agora me refiro, se é que de um elogio se trata como penso que é, também não tem aqui nenhum sentido porque o texto original que escrevi e que agora edito na sua versão integral tem aproximadamente o dobro da dimensão do texto publicado em Mil Folhas. Este foi rejeitado inicialmente por isso mesmo, tinha praticamente o triplo dos caracteres exigidos e limitei-me a dividi-lo em duas partes e manter a unidade de cada uma delas. Mesmo assim ainda se ultrapassava em cada parte o limite de caracteres apresentado e foi-me solicitado que moldasse o texto da primeira parte aos requisitos da edição. Recusei e  por uma razão bem simples: tratava-se de um texto escrito com “alma” em homenagem a um dos meus grandes professores de referência e a métrica da alma não é confinável à métrica dos tipógrafos digitais. Por essa razão, esperei que fosse recusado o texto mas tal não aconteceu.

Com a parte do texto não publicada procurei manter-me no registo da homenagem a Ramos Pereira e homenagear também a geração de que fiz parte, uma geração que na área das ciências sociais muitos das vezes só teve acesso ao conhecimento à custa de muito esforço, à custa de partir muita pedra, de contornar muitas dificuldades. E isto não era fácil como exemplifico agora.

Dois curtos exemplos:

  1. Em tempos ainda de estudante correspondia-me com um economista muito em voga nos círculos de esquerda, odiado pelos ortodoxos marxistas e muito defendido pelos economistas ditos marxianos ou pelos neo-ricardianos. Tratava-se de Arghiri Emmanuel. A PIDE estava atenta e o correio era-me muitas vezes confiscado. Fui a Paris e criou-se uma boa relação entre os dois. Com o 25 de Abril e a “revolta” no ISEG pôs-se a hipótese de o convidar a fazer uma ou duas conferências. Optou-se antes por Samir Amin, um economista de trato mais fácil face à nossa ignorância dos temas que poderiam ser tratados.
  2. Fiz parte de um grupo de trabalho que se apresentou a exame de Integração Económica em que eram professores Elsa Ferreira, Abraão de Carvalho e Cidreiro Lopes, com um trabalho sobre Comércio Internacional e Integração Económica. Nada de especial quanto a isto exceto que o principal responsável da disciplina, o professor Cidreiro, não gostou do trabalho. Faltava-lhe o tratamento dos bens intermediários! Uma enorme lacuna, considerava ele e isto numa disciplina de final de licenciatura onde nada disso era ensinado.

Face a esta posição, eu e um colega do grupo, Nuno Salavessa Moura, decidimos ir à Holanda, à Universidade de Tilburg, onde sabíamos por Arghiri Emmanuel que havia um grupo de investigadores a trabalhar sobre estas matérias [2] sob coordenação de Theo Van de Klundert. Estivemos lá uma semana com 3 ou quatro reuniões onde apresentávamos e discutíamos o nosso trabalho. Fomos com pouco dinheiro, regressámos sem nenhum e a comer cubos de açúcar no último aeroporto de partida por impossibilidade de comer outra coisa.

Trouxemos de lá uma tese de doutoramento exatamente sobre estas matérias. Fomos para o exame de Integração económica. A certa altura e com um ar de zangado o professor Cidreiro Lopes coloca a crítica de que não analisávamos a questão dos produtos intermediários no processo de comércio internacional e de integração económica. Abro a tese citada em que numa página tem um modelo com um modelo de mais de 10 equações e na outra tinha um gráfico e digo: o modelo é o mesmo, tem apenas a extensão de que se queixa estar a faltar. À esquerda tem o mesmo modelo que nós apresentamos mas agora com os bens intermediários a serem produzidos e transacionados, à direita tem um gráfico como ilustração dos resultados. Os outros dois professores sorriam. Mostre-me o texto, pede-me. Dou-lho. O professor olha para a tese em holandês e reage: mas isto está escrito numa língua que não conheço. Calmamente respondi: a matemática é uma língua universal, não precisa de tradutor, precisa apenas de compreensão. E o gráfico é a visualização daquilo que matematicamente se pode compreender, é o que ficámos a saber com Alfred Marshall. Esta foi mais ou menos a minha resposta A coisa ficou por ali, saímos todos com 18 valores e no ano seguinte eu era professor da disciplina de Integração Económica.

Tudo isto a propósito de uma geração que procurava conhecimentos onde os não havia, ao contrário do que agora se faz em que, pela parte dos alunos, se procura apenas ou sobretudo as vias mais fáceis para se obter um diploma e se possível com uma alta classificação, e em que pela parte das autoridades académicas se procura o mais baixo custo possível para essa mesma tarefa. A digitalização em curso das atividades docentes nas Universidades é já disso um bom exemplo. Mas esta digitalização anuncia perigosos caminhos. E a abertura para este caminho é já iniciada agora pelo atual ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, com o seu despacho n.º 6605-A/2021 a entrar em vigor a partir do próximo 1 de Setembro.

Os filhos intelectuais de Tiago Brandão Rodrigues, a serem criados no cadinho bem especial que é o despacho n.º 6605-A/2021 dir-nos-ão dentro de muito poucos anos que a morte das Universidades está para bem mais próximo do que alguma vez poderíamos pensar. Como assinala Santana Castilho,

“ a partir do próximo dia 1 de Setembro, todos os programas até agora em vigor, do 1º ao 12º ano, serão substituídos por “aprendizagens essenciais”, (…)”.

O caso do programa de Matemática, (…)  é paradigmático, neste contexto. Em 2018, via as decantadas “aprendizagens essenciais”, viu-se amputado de um quinto dos seus conteúdos, alguns dos quais críticos para a compreensão do que restou.

O que se está a construir é uma escola com cada vez menos conhecimento, conformada com medíocres “competências” e indigentes “aprendizagens essenciais”. (…)

“A versão menos elaborada e mais redutora do paradigma ideológico chegou, (…) para substituir a densidade dos vários saberes disciplinares pela superficialidade de uma cultura digital estupidificante e escravizante de professores e alunos, (…) que cada vez mais grudará os mais desfavorecidos às suas frágeis circunstâncias de partida.”

Com um ensino secundário a ser a partir de agora o que acima se antevê, que futuro se pode prever para a Universidade? A transformação do Ensino Superior em Escolas de Formação Profissional [3] financiadas pelo Programa de Recuperação e Resiliência ? Talvez! Pobre Universidade se assim for.

O tempo em que eu me situo como estudante é de uma outra época bem diferente da que temos agora e muito mais ainda da que aí vem. O meu tempo de estudante é de uma época com muita gente ansiosa por saber, por conhecer, por discutir, por criticar. Trata-se de uma época em que face a essa geração de gente que se batia por ideias e à procura de conhecimentos havia também a disponibilidade de docentes para os acompanhar nas suas inquietações científicas. O exemplo de Ramos Pereira, e podia referir outros, de que falo na segunda parte do meu texto sobre ele, ou o exemplo dos professores de Tilburg ou ainda o de Arghiri Emmanuel eram disso também um exemplo. Eram bons exemplos, hoje não o são. E não o são, porque nada disto seria hoje possível: 1) não seria possível pelo lado dos professores uma vez que estes vivem e trabalham esmagados por um olho de peixe que tudo vigia e controla, Nónio, e outras plataformas digitais, e pela métrica dos ratings, onde a quantidade do que é publicado expressa a qualidade do respetivo docente e o seu rating; 2) não seria também possível pelo lado dos alunos que pensam que o diploma pode ser adquirido apenas pelo pagamento das propinas. A máquina subterrânea de produção ou transformação de relatórios, trabalhos de estágio e teses é disso um espelho fiel. A tradição já não é o que era, é o que nos diz o poeta Paul Valery.

A segunda parte do texto dedicada a Álvaro Ramos Pereira é, pois, também uma homenagem em geral a toda essa geração de jovens insatisfeitos, uma geração que anos mais tarde é massacrada com a vaga do neoliberalismo que se gerou. Trata-se de uma homenagem sobretudo aos que a esta vaga resistiram e aqueles, possivelmente a maioria, que infelizmente tombaram pela força do capitalismo selvagem, ignorando nós os que foram atraídos pelas sedutoras sereias do dinheiro que este capitalismo lhes pôde pagar, uma escassíssima minoria, penso. Aqui sim, trata-se pois de um texto verdadeiramente longo que não poderia logicamente ser publicada em Mil Folhas, pelas razões de espaço apontadas e isto também independentemente de quaisquer outros constrangimentos que pudessem eventualmente ser levantados.

 

NOTAS

[1] Uma outra interpretação seria, independentemente da qualidade do texto, a de que o Fundo é tal forma importante que uma análise séria sobre o mesmo precisaria de muito mais espaço do que seria possível disponibilizar na publicação Mil Folhas. Que o Fundo é importante, isso é, e para mim é ainda mais importante perceber como é que, face às dificuldades da época, esta biblioteca foi sendo construída. Um Fundo tão importante, saiba-se aproveitá-lo.

[2] Sobre a teoria neo-ricardiana e sobre este grupo de investigadores veja-se o texto com que me despedi da Universidade: De Ricardo a Marx, de Marx a Ricardo, os caminhos da globalização. Coimbra, fevereiro de 2012.

[3] Em Lisboa já há sinais claros desta trajetória.

 

 

 

 

 

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