Dedico este poema, de Vinícius de Moraes, a todos aqueles que são obrigados a viver na rua. A todos aqueles que fizeram, com madeiras e chapas de zinco, um monumento dos pobres para abrigarem os seus filhos da chuva e do frio. Mas a chuva e o frio entram sem piedade e dão-lhes a ilusão de que também são gente, apesar do desconforto físico e psicológico.
Não, não são gente. Lá no seu íntimo, sabem que são corpos feitos para trabalhar, quando há trabalho, para sofrer quando querem que os seus filhos frequentem a escola, mas os seus livros e cadernos estão sujos de terra, porque estudam sentados ou deitados no chão, não têm mesa, não têm nada.
São um incómodo para a o poder local. O quê?! Barracas na minha freguesia em 2025?! Nem pensar. Toca a deitar abaixo “…uma casa/ muito engraçada/ não tinha teto/não tinha nada…/
O poder é cego e surdo, os senhores do poder não vem as lágrimas das mães e dos pais que abraçam os seus filhos num desespero sem fim, não ouvem o choro das crianças que com medo de encostam aos adultos. E agora onde vou dormir? Até os passarinhos, com os seus bicos, fazem os seus ninhos, porque não hei-de fazer com as minhas mãos o meu pobre ninho, sem teto, sem paredes, sem chão?
Porque não hei-de fazer, com amor e engenho um abrigo que nem luz nem água tem? Só nós podemos lá entrar porque temos um pensamento mágico que transforma uma barraca num palácio.
O atual Presidente da República disse um dia que ia acabar com os sem abrigo. Será que a palavra acabar quer dizer aumentar…deve ser por isso que dizem que não sabemos falar português.
Somos portugueses? Isso que interessa se o Direito à Habitação é um dos Direitos da Declaração dos Direitos Humanos. Estamos ilegais? Então legalizem-nos, somos pessoas e não pedras do chão, mas cuidado que as pedras podem voar no nosso pensamento mágico!
A nossa rua não tem nome, a nossa barraca não tem número, a nossa barraca não tem nada, nem teto, nem chão, nem paredes. Na nossa barraca há sonho e esperança de um mundo melhor. Ouvimos dizer, sim, porque não somos surdos nem cegos que a Câmara Municipal de Lisboa tem mais de cem casa vazias. Será que têm medo que os pobres, os sem poder, os sem abrigo deitem abaixo as paredes, o teto e substituam o chão feito de azulejos por terra?
As crianças precisam de viver, agora! Estas crianças estão a crescer sem infância…
Estas famílias estão a viver sem vida!
Era uma casa Muito engraçada Não tinha teto Não tinha nada
Ninguém podia Entrar nela, não Porque na casa Não tinha chão
Ninguém podia Dormir na rede Porque na casa Não tinha parede
Ninguém podia Fazer pipi Porque penico Não tinha ali
Mas era feita Com muito esmero Na Rua dos Bobos Número zero
Mas era feita Com muito esmero Na Rua dos Bobos Número zero
Era uma casa Muito engraçada Não tinha teto Não tinha nada
Ninguém podia Entrar nela, não Porque na casa Não tinha chão
Ninguém podia Dormir na rede Porque na casa Não tinha parede
Ninguém podia Fazer pipi Porque penico Não tinha ali
Mas era feita Com muito esmero Na Rua dos Bobos Número zero
Mas era feita Com muito esmero Na Rua dos Bobos Número zero