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Cancelamento ou a revisão de um extenso trabalho de António Gomes Marques sobre as guerras na Ucrânia. Por Júlio Marques Mota

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Cancelamento ou a revisão de um extenso trabalho de António Gomes Marques sobre as guerras na Ucrânia

 Por Júlio Marques Mota

Coimbra, 5 de Junho de 2025

 

Acabo de rever um extenso trabalho “A propósito das guerras na Ucrânia”, um trabalho minucioso, sério e profundo de António Gomes Marques sobre as guerras da Ucrânia (abaixo deixo as ligações para o texto publicado entre 4 e 6 de Junho últimos). O António Gomes Marques faz o que muita gente por ignorância, comodidade ou falta de tempo, não faz; questionar o aqui e agora sobre os caminhos que nos têm conduzido até aqui.  Um trabalho minucioso, extenso, através do qual o Gomes Marques nos explica o que se passou do lado de lá, os diabólicos russos, e se questiona exaustivamente sobre o lado de cá, os sempre bem intencionados políticos Ocidentais. No fundo diria que o que  Gomes Marques nos explica é  o outro la<do da lua, o lado escuro da lua, o outro lado da realidade, como se a realidade tenha dois lados, o da propaganda, aquele que se situa ao  nível da ideologia apenas, aquele com que somos matraqueados desde há anos, e o outro lado, aquele com que minuciosamente se reelabora a nossa realidade, com seriedade através da  investigação cuidada, de forma a que esta realidade se torne, afinal,  inteligível aos nossos olhos, ao nosso entendimento.

Face às informações com que nos bombardeiam diariamente, o texto de António Gomes Marques é violento, violento porque mostra um acumular de erros ao longo do tempo e que se traduz em milhões de mortos verificados, violento porque mostra a incapacidade  dos nossos políticos em entenderem  a importância do que é a paz contra o enorme desastre do que é a guerra, violento porque mostra que com a corrida aos armamentos  que a propaganda oficial nos quer impor só se  pode chegar a um fim,  levar ao tão propalado fim do mundo, de que restarão as pedras. Em suma, pode ser considerado tão duro que leve as pessoas a abandonar a sua leitura, nem que seja por mecanismo de defesa.

Esta foi a minha sensação ao chegar ao fim do texto e, chegado aqui, lembrei-me de um texto que tinha lido em 2014 sobre a Ucrânia, um relatório da Assembleia Nacional Francesa, que teve como relatores, dois dos seus deputados, Thierry Mariani de UMP, e Chantal Guittet do PS. onde se falava do forte apoio popular de Putin junto do povo russo. Perdi de vista este relatório. Bem o procurei com palavras-chave como Putin e como Neuland. Azar meu. Em francês, Putin escreve-se Poutine, e a subsecretária de Estado de Obama para a Europa e Eurásia escreve-se Nuland e eu escrevia Neuland. Não encontrava nada, do relatório nem sombra.  Encontrei um artigo sobre o tema, que dava conta do relatório como tendo sido apresentado na Assembleia Nacional Francesa no dia 12 de fevereiro de 2014. Fui ao sítio da Assembleia Nacional Francesa e pela data cheguei ao dito relatório. Este relatório, é um documento oficial (ver aqui) e merece ser lido dada a seriedade das análises apresentadas  (aqui pode também ler um relatório de 2016, resultado de uma missão de informação de 2015, em continuidade do anterior relatório de 2014). Sugeri ao Gomes Marques que o lesse antes de dar o seu texto por acabado, sugestão esta que aceitou.

O que proponho a quem se interesse pelo tema e dada a imensa carga propagandística que a questão da guerra da Ucrânia tem envolvido, é que este relatório francês ou pelo menos a sua síntese, seja tomado como preâmbulo à leitura do texto escrito pelo António Gomes Marques. O leitor fica assim bem preparado e até mesmo incentivado para outras leituras sobre a realidade desta guerra e das causas que lhe estão subjacentes.

Curiosamente duas notícias conhecidas depois do texto de Gomes Marques me ter sido entregue para revisão confirmam os pontos de vista nele expostos:

Notícia 1. A revista L’’Expresso na sua russofobia tem esta semana um número especial dedicado à guerra. Eis a sua primeira página:

Vladimir Poutine, la guerre d’après : comment il se prépare à attaquer l’Europe

 

Notícia 2. Recebi na caixa de email notícias de Thomas Palley, um importante pós-keynesiano americano, pertencente pois à corrente de pensamento económico mais progressista e fora da corrente marxista, onde ele nos informa que foi sancionado e cancelado pela Sociedade dos Economistas Pós-Keynesianos por ter escrito um texto contra a posição ocidental assumida no quadro da guerra. Não se pode pensar fora do quadro estabelecido pelos nossos políticos guerreiros e vêm-nos falar no respeito pela liberdade de pensamento. Quer isto dizer que há liberdade de pensamento desde que este esteja conforme ao pensamento das autoridades, ou seja, é o caminho do fascismo. Diríamos mesmo que 1984 de Orwell começa a ser uma realidade no quadro da suposta Democracia: é-se acusado de antidemocrata se o contestarmos.

Chegados aqui, tenho ou não tenho o direito de pensar que o cancelamento a que Boaventura de Sousa Santos foi sujeito não se insere ele no mesmo pano de fundo? Se olharmos para o caso de Assange, preso porque teve relações sexuais consentidas com uma ativista nórdica, mas em que a camisinha de contracetivo se rasgou e em que ela o acusa de a ter rasgado intencionalmente, é pensável que um homem seja destruído por isto? E nessa destruição tenham estado envolvidos vários Estados: Inglaterra, Austrália, USA, Equador? Ou não será isto uma falsa questão “fabricada” para limpeza moral dos nossos falsos democratas?  Uma coisa é certa: foi evidente que Assange terá contribuído para a não eleição de Hillary Clinton, e isso tinha de ser pago a um preço muito alto. E pagou-o! Nessa altura falei com o saudoso Mário Ruivo em que lhe manifestei o meu espanto por Obama apoiar a Hillary Clinton e a resposta foi imediata: há dívidas a pagar e Obama está a pagar a sua. Dito de outra maneira: Trump sobe ao poder não por culpa de Assange mas por culpa dos Democratas que não souberam ou não quiseram escolher outro candidato. Relembro aqui Obama ao dizer: Bernie Sanders, esse, nunca!  E Hillary perdeu. E Trump ganhou! E a tragédia reconfirmou-se em novembro de 2024 quando o candidato que o Partido democrata lançou contra Trump era nada mais nada menos que o doente Biden, reconhecidamente doente desde o início do seu mandato de 2020-2024. Neste seu mandato de 2020 a 2024, assinala o jornal The Atlantic  na sua edição de 16 de maio de 2025, “o governo americano era constituído por “Cinco pessoas [que]  estavam a dirigir o país”, disse um informador político aos autores do novo livro Original Sin. “E Joe Biden era, na melhor das hipóteses, um membro mais do conselho de administração.” E mais uma vez é o Partido Democrata que oferece a vitória a Trump, que ganha não por mérito próprio, mas por falta de mérito do seu opositor. O remendo que foi Kamala Harris foi um remendo que nada remendou.

Quanto a Thomas Palley, um crítico acérrimo da política externa americana, tal como Assange, o ataque é direto, mas tão grave quanto o seu cancelamento, é o facto de que este cancelamento vem do grupo de gente que seria pensável estar próximo de Palley, gente de esquerda e da primeira água. Logo, não deveria ser encarado como um cancelamento político. Mas o argumento é puramente formal: não ter respeitado as regras da Sociedade dos Economistas Pós-Keynesianos quanto à divulgação dos seus artigos, nomeadamente o artigo “A Guerra da Ucrânia e o aprofundamento da marcha de loucura da Europa” (publicado na Viagem dos Argonautas, ver aqui). Contudo, no plano formal vem da mesma linha política (mesma linha de pensamento económico), da mesma forma que o cancelamento de Assange não era político, era devido a assédio sexual.

Quanto ao Boaventura de Sousa Santos, o elemento político comum enquadra-se na mesma tipologia: um crítico de nível internacional quanto à política externa seguida pelas diferentes Administrações americanas e tal como aconteceu a Palley ou a Assange a sua queda seria conveniente. E publicamente, não é um cancelamento por razões de ordem política, mas de ordem sexual! E assim, entre muitos sinais de cancelamento, refira-se que a Fnac e a Bertrand se recusaram a distribuir os seus livros, e as edições 70 têm dois manuscritos parados porque temem que não sejam vendáveis. Pelo meio, cerca de 10 programados doutoramentos Honoris Causa foram cancelados. Como me assinala o próprio, trata-se de uma “morte civil pura e dura”.

Se a minha leitura da realidade está correta, isso mostra-nos que a guerra da Ucrânia invade o nosso quotidiano de múltiplas formas. Dou-vos um exemplo último: ainda ontem, dia 4 de junho comento com um amigo meu de muito longa data, a situação política em Portugal, onde a AD dançará ao sabor das pressões do Chega e do PS e em que a vitória da Iniciativa Liberal se transforma em derrota ao ser anulada politicamente pela extraordinária vitória do Chega. E digo-lhe; isto é curioso. Se vamos a França toda a gente tem de se unir para que a União Nacional de Le Pen não ganhe, se formos a Inglaterra, Conservadores e Trabalhistas, inimigos figadais, têm de se unir para que Farage não ganhe, se formos à  Alemanha, democratas cristãos da CDU e sociais democratas do PSD têm de se unir para que a AfD  não ganhe e para isso têm de roubar espaço à AfD executando parte das suas políticas.

E este meu amigo de décadas, um defensor acérrimo da Ucrânia (leia-se Zelensky e seus aliados EUA, NATO, etc.) diz-me com um ar fortemente interrogativo e um olhar acusador: isso não tem nada a ver com Putin? Eu ia dando um muro na mesa. Mas contive-me: estávamos no café e disse-lhe: antes de te responder, diz-me o que é que Putin tem a ver com os votos no Chega, no Algarve e no Alentejo ? Nada, disse-me. Bom, eu dou-te a minha explicação: os líderes das democracias ocidentais com os ganhos da globalização resultantes, sobretudo da exploração intensiva dos trabalhes dos países do Sul, decidiram pagar pelas asneiras feitas pelos americanos e mais, decidiram apostar nas políticas de apoio às classes médias e superiores, deixando à beira da estrada aqueles a que Hillary Clinton chamava os deploráveis. Talvez tenhas razão, disse-me.

E continuei: Neste abandono desestruturam as sociedades, cortam-lhes as bússolas e é até a ética que vai pelo cano abaixo sendo então substituída pela regra: salve-se quem puder e como puder.  E os deploráveis vingam-se, votam no partido Chega ou equivalentes. Meu amigo, olhe-se para esta gente, olhe-se para eles, ajudem-nos a ganhar horizontes de vida, de cultura, de dignidade profissional e não só. Assumam-se políticas macroeconómicas bem calibradas de resposta aos seus problemas. E é pura miopia política atribuir os males da nossa incompetência política a Putin.

E essa miopia continua a dominar o plano político com todas as suas distorções, num continente em que falta a manteiga, mas só se pensa em canhões. O resultado desta miopia é o aumento massivo do número de deploráveis no continente europeu, tudo isto no quadro de “A Guerra da Ucrânia e o aprofundamento da marcha de loucura da Europa” de que nos fala Thomas Palley, ou seja, no quadro de uma trajetória em que eticamente vale tudo e é no quadro desse vale tudo que penso serem enquadráveis as situações de cancelamento de Assange, Palley e Boaventura de Sousa Santos.

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A PROPÓSITO DAS GUERRAS NA UCRÂNIA. Uma tentativa de visão a partir dos factos. Parte 1; Parte 2; Parte 3; Parte 4

 

 

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