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Vêm aí as vindimas – por Carlos Pereira Martins

Vêm aí as vindimas

por Carlos Pereira Martins

 

Outrora tempo de festa e de faina, de suor e alegria partilhada, de mãos calejadas e rostos tisnados pelo sol, as vindimas chegavam como uma celebração do trabalho e da terra. Era altura de acordar cedo, pegar nas tesouras de poda, nas facas bem afiadas, preparar as rodilhas para acartar à cabeça as gamelas e os poceiros, conforme o nome que a terra ditava. Por entre videiras frondosas, carregadas de uvas maduras, reuniam-se homens e mulheres – os “rogados” –, que vinham de perto e de longe, convocados por laços de sangue, amizade ou simples necessidade.

Era um tempo duro, sim. Quem levava as uvas à cabeça para as dornas ou lagares ganhava mais. Os restantes, menos. Mas havia riso e calor humano. Havia picanços e ditos brejeiros, olhares cúmplices e anedotas que corriam entre filas de videiras como água em leito aberto. A labuta misturava-se com a festa, e o cansaço com a música improvisada da boca dos trabalhadores.

Hoje, os dias mudaram. As vinhas que antes se estendiam verdejantes, plenas de videiras robustas, quase a vergar com o peso de tantos cachos, promessa de muito vinho na colheita, são agora um esqueleto cinzento, um chão queimado, calcinado, onde a vida se suspendeu. Mais um ano, e outra vez os incêndios. Outra vez as chamas, como se fossem já inevitáveis, anunciadas, lamentavelmente aceites por quase todos, como parte da rotina.

Quem fala disso são sempre os mesmos. Bem vestidos, bem-falantes, bem instalados. Têm sempre tempo de antena, seja ao microfone, seja nos muitos canais de televisão. Dizem-nos que estamos perdidos. Que a violência tomou conta das ruas, que o país se desfez em caos. E, subentende-se, que é tudo culpa dos outros — dos que politicamente se lhes opõem, que logo dizem que se com eles discordam, foi porque se radicalizaram. É o discurso repetido, há anos, a culpa, repetem-nos até ficarmos sem reacção, é e será sempre dos que vivem longe das comodidades da capital e dos grandes centros urbanos.

Mas é fácil dizer tudo isso quando se vive em cima do conforto construído à custa do trabalho alheio. É fácil falar de “inevitabilidades” quando nunca se sujou as mãos com terra, quando nunca se sentiu o calor de um dia de Agosto entre parras, ou o cheiro acre da folha queimada pelo fogo. É fácil ignorar os rostos dos que perdem tudo, ano após ano, enquanto uns quantos decidem sobre o destino de todos, arrecadando, sem pudor, mais uma fatia — cinco por cento de toda a riqueza produzida por quem por cá trabalha — da riqueza que não criaram, dada para ajudar a ganhar ou perder “guerras” mas, certamente, não para acabar com os horrores dos que morrem sem água, sem uma colher do que seja para levar à boca, sem um penso rápido para colocar na ferida de um membro amputado.

Cinco por cento que são muitos milhões do que o trabalho em cada país produziu. E dá-los a quem continua a lucrar com o negócio das cinzas, com o negócio das guerras, com os negócios negros e que tresandam a cheiro a sangue vivo.

Enquanto isso, criam-se ou inventam-se razões para muitas guerras. Em Gaza, na Ucrânia, nas “Rússias”, nos sítios do costume, onde o sofrimento humano é moeda corrente e negócio florescente. Alimentam-se os conflitos como se fossem colheitas. Mas não de vinho — de sangue. E há quem ganhe sempre, nesses negócios sujos, nos incêndios, nas crises. Facínoras, ladrões engravatados, assassinos sem remorsos.

A resposta que esta gente decisória, bem-falante e bem vestida sempre grita, nas rádios, nas redes sociais, nas televisões, é sempre a mesma: “Prendam-nos todos!”. Os incendiários, os desordeiros, os vândalos. Mas nunca se pergunta quem os criou, quem os deixou crescer à sombra da indiferença, da desigualdade, da raiva acumulada.

Nunca se pergunta e muito menos se quer saber ou ousar dizer quem são os seus patrões.

Nunca se quer estudar, compreender, resolver. Isso, dá trabalho e não leva às “verdades que interessam divulgar”.

Só castigar.

É mais fácil assim. Garante-se espaço e tempo para continuar a poder ir às festas do momento. Para continuar a dançar enquanto o país arde. E enquanto os que sobram, os que ainda se lembram do que era uma vindima verdadeira, olham em redor e perguntam: o que ficou?

Apenas cinza. E o eco de um tempo que já não volta.

E não seria possível mobilizar não cinco mas um por cento do PIB para ter um corpo de bombeiros, pagos e sempre em prontidão, com meios suficientes, adequados, meios aéreos, para acudir prontamente e acabar, pelo menos, com este flagelo que tudo leva a quem tão pouco ainda tinha?

2025 Agosto 26

 

 

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