Eva Cruz A Herança
(Adão Cruz)
O senhor José era um jornaleiro trabalhador e delicado. Sempre que cumprimentava alguém, mesmo de cabeça descoberta, levava a mão à testa, num gesto mecanizado, como se lá estivesse o chapéu..
A sua família vivera da jorna a vida inteira, passando a profissão e a missão de pais para filhos. Morrera-lhe a mulher, ainda nova, de quem tinha uma filha. Voltou a casar, trazendo ao mundo uma carreira de rapazes, da qual o mais novo não só se atrasara no tempo mas também na mente.
Em dias de grande labuta, a ceia acontecia a altas horas, depois de acomedar o gado. O rapaz mais pequeno barafustava com a demora da comida e, na sua revolta, ameaçava os pais,
– qualquer dia vou por aí abaixo, caso com a doutora e depois haveis de vos f…. que não tendes quem vos ponha as estacas nos feijões.
-Vais casar com a doutora, então não vais, se ela já é casada!
-E eu que me importo!
Para o senhor José, a vida do campo era um ritual sagrado que começava de manhãzinha muito cedo, quer fizesse sol ou chuva, frio ou calor. Descia a calçada de enxada ao ombro e fazia as terras dos outros, ao longe e ao perto. A doutora sempre fora para ele a menina mas ensinava a mulher e os filhos a dobrarem a língua.
Para além da sua dedicação à terra e a sua humildade, todos reconheciam nele um homem de bem, sério e honrado. Um tanto teimoso, não aceitava lições de ninguém na ciência de cavar e lidar com a terra. Tinha um defeito. Era muito supersticioso e acreditava piamente em bruxas e bruxos. Chegou a dormir anos a fio sentado, por ter apanhado uma cisma. Não podia deitar-se, pois tinha a modos que um cinzel cravado na espinha. Ao fim de muito tempo, o bruxo desconvenceu-o, sem, no entanto, deixar de sugar gota a gota o suor do seu trabalho.
Pela sua ingenuidade, inocência e bondade, chegou ao fim da vida sem dinheiro para comer. Vivia praticamente de esmolas e do subsídio do filho.
Esteve internado no hospital e, em delírio, às escondidas da morte, tinha a sorte de ver o corredor inundado de uvas douradas à espera da vindima. Mas a morte espreitava e não deixava o homem voar nas ondas de seara, nem beber o sol que nasce e se põe, ouvir a música do vento, sentir a força da terra no gume da enxada. A morte não gosta da vida, está mais que provado. A morte só tem vida de morte nascida. Levou-o.
Antes de morrer, o senhor José deixara dito que a escadia de vindima era para a menina.
E o testamento foi cumprido.


