Nós andamos distraídos com os fumos de incenso que os responsáveis vão espargindo pelos diversos canais da estupidez institucionalizada. E tudo isto, porque os poderosos colonizadores, células de um cancro universal, tomaram conta do mundo, transformaram os governantes de cada país em lacaios e limparam os pés às soberanias. Arrepanharam os meios de comunicação, e com eles o poder de mudar e moldar as mentes e os comportamentos até à anulação da verdade, do pensamento e da razão. De forma humilhante e perversa criaram uma maquiavélica desinformação, com a qual inundaram de publicidade enganosa e de ignominiosa mentira as cabeças de um povo cada vez mais roubado, massificado, amordaçado, ridicularizado, estupidificado.
Os que atribuíram o Prémio Nobel da Guerra em vez do Prémio Nobel da Paz, perversos falsificadores, sem o mínimo respeito pela vontade de Alfred Nobel e sem a mínima vergonha na escamoteação da verdade e na construção da mentira, fazem parte dos grandes encenadores deste demoníaco teatro do silenciamento absoluto sobre o que não interessa que seja conhecido e sobre a deturpação e manipulação da realidade. O seu objectivo, neste caso particular, é espalhar a ideia e a falsa imagem de que há atropelos à democracia, à liberdade e aos direitos humanos nas revoluções que gloriosamente se processaram e processam na América Latina e no mundo, a fim de que, mais uma vez, possam cobrir o céu com a negra nuvem do colonialismo imperialista e do nazi-fascismo. Nestes tempos em que a libertação dos povos e a solidariedade política entre muitas nações parecem renascer, nestes tempos em que a procura da paz por uma grande parte da humanidade provoca o aparecimento de condições de multiculturalidade e de multipolaridade, de liberdade, de identidade e soberania, uma forte componente emocional, democrática e de saudável interdependência adquire uma relevância especial dentro da cultura da diferença. E é neste desespero dos falsos pregadores da paz e da liberdade, corresponsáveis pelo engrossamento do exército de famintos, refugiados, oprimidos e condenados da terra, corresponsáveis no abrir de portas e no estender de tapetes às chancelarias do crime organizado que surge, mais uma vez, a repugnante atribuição de um prémio aos senhores da guerra. O que pode aliviar um pouco o nosso pesar é, como diz Ignacio Ramonet, tratar-se já de um prémio necrótico e putrefacto. Por mais que preguem, por mais debates, cimeiras e conferências que façam, já não podem anular o descrédito em que caíram ao pretenderem convencer-nos de que as expectativas de paz, liberdade e justiça são possíveis com a submissão, a subserviência e o aperto de mão aos verdadeiros terroristas do mundo. Sou suficientemente humilde para reconhecer a fragilidade humana e a nossa ignorância em muita coisa, mas sou suficientemente racional para saber que a verdade, esteja onde estiver, não é esta que para aí impingem de forma dogmática, e que a mentira é demasiado poderosa para a tudo se sobrepor, quando arrasta consigo a indigna manipulação da ignorância, capaz de transformar o Prémio Nobel da Paz em Prémio Nobel da Guerra.